quarta-feira, 2 de abril de 2014

Ed - Capítulo 1 - parte 2


            Ed acordou num sobressalto, sentido que tinha acabado de colocar a cabeça no travesseiro e dormido sem querer. O que era algo sem dúvida nenhuma, excelente - se fosse verdade. Já eram 6:40 da manhã, segundo seu relógio a pilha dizia, o que confirmava a suspeita que  tinha sobre ter adormecido e dormido demais, tanto que estava atrasado para escola. Tinha ainda que tomar banho, acordar a mãe e fazer o café - sua rotina de sempre. Mas, com toda certeza, aquilo não daria hoje.
            As indagações que frequentemente vinham, quando acordava pensando que não havia descansado na cama nem cinco minutos, sumiram num passe de mágica. Ed teve um acesso de adrenalina; sua ficha caiu. Levantou rapidamente, quase tropeçando na meia jogada de qualquer forma sobre o chão.
            Nisso, tomou seu banho, se trocou de uma forma incrivelmente rápida e foi chamar a mãe. Não era a primeira vez que a despertava, mas se sentia desconfortado em entrar no quarto dela: não queria conversar sobre seu pai ou sobre o episódio de ontem. Queria apenas ... esquecer. Como se nada tivesse acontecido.
            Acabou fazendo como sempre: abriu a porta do quarto dela, abriu as janelas, cutucou-a no ombro de forma delicada:
            - Mãe, acorde...
            Viu as pálpebras dela se remexendo, mas abrindo sem nenhuma rebeldia. Aqueles olhos azuis, da cor do mar, eram lindos.
            - Estou atrasado - disse Ed ainda em voz baixa. - Então não vou preparar o café da manhã, algum problema?
            - Não... - ela sussurrou, sentido aos poucos o choque da realidade, as luzes entrando no quarto.
            Ed se recompôs, encheu o pulmão e disse normalmente:
            - Tudo bem, então. Vou indo nessa.
            - Ed...
             Sentiu o estomago gelar, queria fugir de qualquer conversa com ela. Sentiu medo. Não queria que os lábios de sua mãe projetassem a frase: seu pai. Pensou em fugir, mas não seria apropriado, especialmente nas condições em que sua mãe estava atualmente.        
            - Mãe.. eu não...
            Ela balançou a cabeça.
            - Não, meu querido. São as suas calças...
            Ed olhou para a calça e viu que estava virada ao contrário. Chegou ao ponto de quase dar fortes gargalhadas daquela situação. Um grande peso foi tirado das suas costas, chegando a sentir o gosto do alívio quando expirou novamente.
            - Ah, sim. Como eu sou idiota! - coçou a nuca, um pouco desconcertado. - Eu..eu arrumo elas depois... no banheiro.
            Sorriu - um sorriso sincero.
            - Tchau, mãe.
            Mas antes dele mover os pés para seguir seu caminho. Ela coçou os olhos, forçando mais a vista e disse:
            - Venha aqui dar um beijo na sua mãe.
            Ed hesitou. Mas que diabos? Aquela não era sua mãe?
            Então vá, rapaz - disse ele pra si mesmo.
            Estendeu um pouco o corpo e baixou a cabeça pra beijá-la na bochecha. Ouviu-se o doce estalido do beijo.
            Nesse meio tempo, Ed se surpreendeu quando os braços da mãe já evolviam suas costas. Ela puxou seu corpo com força para junto de si, dando um abraço bem apertado.
            - Eu te amo, Ed. Meu filho lindo.
            E sorriu. Um sorriso radiante e saudoso. Fazia tempo em que Ed não o via. O seu coração se apertou. Não conseguia pensar direito, amava-a acima de tudo. Por que estava fugindo dela ultimamente?
            As primeiras lágrimas saíram dos olhos e molharam o ombro da mãe. Maria puxou o corpo do filho e o estendeu diante de si acolhedoramente. Ela também chorava.
            - Mãe...eu... - ele soluçava, não conseguindo dizer direito as palavras.
            - Não, não precisa chorar - largou os braços do filho e limpou o rosto - se esforçando para que as lágrimas parassem, sorrindo. - Você está atrasado, vai pra escola. Não pode perder matéria.
            - Mas.. mãe! Eu queria dizer que....
            Ela estendeu o dedo indicador e silenciou o filho.
            - Não precisa dizer nada, apenas vá.
            Sentou na cama e beijou o rosto de Ed. Ele tentou dizer mais alguma coisa, mas foi interrompido novamente.
            Ed saiu, relutante, enxugando o rosto com a mão. Ainda soluçando.
            Estava feliz e triste ao mesmo tempo.

5

            Na sala de aula, Ed não conseguia prestar muita atenção. Muitas coisas giravam na sua cabeça e pra não pensar demais, puxava conversa com Gustavo a cada 2 segundos.
            - Gu, você tá lendo o que ultimamente?
            Aquilo pareceu despertar muita a atenção de seu amigo para ele. Gustavo ficou empolgado.
            - Ah, eu ando lendo Bernard Cornwell, conhece?
            Ed sentiu-se um pouco envergonhado, mas aquele nome era lhe comum. E foi isso que disse.
            - O nome soa familiar.
            - Ah, sim. Você já deve lido algo sobre ele por aí na internet. De qualquer forma, gostei muito dele. Você sabe que eu gosto de história e principalmente, idade média. Acho que você também... Enfim, ele escreve ficções históricas e na maioria das obras é abordada a idade média.
            - Sério? Gostou dele? - Ed demonstrava um interesse genuíno.
            Olhou para o livro que o amigo segurava nas mãos e leu o título: Azincourt . O desenho de capa mostrava um arqueiro retesando um arco longo. Achou o livro bem bonito.
            - Você diz.. o livro? - perguntou Gustavo, em dúvida.
            - Ah, não, o autor.
            - Gostei muito. Muito mesmo! O cara sabe escrever as batalhas da forma mais épica possível! Você tem de ler!
            - Bom, talvez eu leia.
            - Se quiser eu empresto este aqui, depois deu acabar...
            Um silêncio perpetuou sobre ambos. Algo que beirava o incômodo. Gustavo resolveu voltar à aula propriamente dita. Quando já ia se virando, para, finalmente, prestar atenção no professor de matemática. Ed se empolgou com algo.
            - Nossa! Verdade! Verdade!
            - O quê? O quê? - se espantou Gustavo.
            - Sabe o que estou lendo?
            Ed tinha um belo sorriso estampado no rosto. A literatura sempre o envolvia e chamava sua atenção, em qualquer momento que fosse.
            Gu balançou a cabeça.
            - O Iluminado!
            - Verdade?!
            - Sim!
            Algum colega ao lado deve ter reclamado daqueles gritos de exasperação para o professor.  Por que ele parou a aula e deu uma pequena bronca nos dois, mas que já era o suficiente para fazer Gustavo virar para frente, quieto.  Mas não tinha como abandonar aquela conversa e, assim, Gustavo disse baixinho virando a cabeça pra parede e a boca inclinada mais para trás:
            - O que tá achando?
            Ed se surpreendeu por o amigo ter puxado conversa, após aquele pequeno sermão. Inclinou para frente o busto, apoiando o antebraço na mesa de plástico.
            - O que eu achei?  - riu um pouco - Simplesmente muito bom! E-e foda!
            - Mesmo? Falei que Stephen King era demais!
            - Eu sei, também. Já li outras coisas dele e você sabe. Mas.. mas esse, O Iluminado, me identifiquei muito com o personagem Danny!
            Gustavo achou um pouco estranho.
            - Muito, como assim? Você tem poderes paranormais agora? - riu um pouco.
            Ed pensou que soltara a língua demais. A barriga gelou. O que ia falar par...
            - Meu pai era alcoólatra também - conseguiu dizer.
            - Oh... não sabia dessa, Ed, me desculpe..
            - Gu, n-não precisa se preocupar, o assunto n-nem é tão delicado assim.
            O coração de Ed começou a  bater num ritmo acelerado.
            ( Por que, Deus? Jurei que não ia tocar mais nesse assunto... É-é demais pra mim...)
            - Eu vou trocar de assunto....
            ( Por quê isso foi acontecer? POR QUÊ?! )
          Quando Ed percebeu, as lágrimas caíam do seus olhos sem nenhuma permissão. Gustavo parecia muito preocupado tentou acalmar o amigo, perguntando se tinha algo errado. O choro de Ed era alto e outros colegas agora falavam com ele também, mas ele não escutava nada, só via seus lábios se moverem. Sem emitir som algum.
            As lembranças vieram a Ed como num jorro sem fim. A mãe toda ensanguentada, o pai com um taco de beisebol. Aquele rosto selvagem do pai, como se fosse um homem primitivo. Ele chorando...
            ( Sempre...)    
            Sempre ele chorando.
            Os vestígios daquele dia pareciam infinitos. O cheiro forte de álcool do pai, misturado com nicotina. Sua mãe chorando e gritando, ainda levando aquela interminável surra com o taco.
             PARE, JORGE!
            PARAAAA!
            POR FAVOR!
            E quando ela percebera que seu filho a via e... chorava.
            NÃO! NÃO! NÃO DEIXE MEU FILHO VER ISSO! NÃO
            ED! SAI! SAIA DAQUI!
            Ele não saíra, nem pra isso prestara. Ficara em pé, chorando, não fazendo nada para mudar a situação. A mãe correndo para qualquer lugar da sala, derrubando e quebrando as coisas, tentando fugir do marido que segurava o taco de beisebol. Ele ainda sorria.
            ( AQUELE DESGRAÇADO AINDA ESTAVA RINDO!)
            Sua mãe rastejava... provavelmente com algumas costelas quebradas.
            Um massacre que não parecia ter fim.
            Ed chegava a soluçar... as imagens ainda rodando em sua mente. Os colegas, o amigo, o professor, todos falavam com ele. Mas Ed não parava...

            Até que chamaram a coordenadora e logo depois, a ligação para Maria, mãe de Eduardo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário