terça-feira, 8 de abril de 2014

Ed - Capítulo 1 - parte 3/3

           
           Nos dias posteriores àquele dia na escola. Ed ficou em casa, deitado. O médico recomendara a Maria que seu filho ficasse em casa, até melhorar e depois disso, procurasse um psicólogo ou até mesmo um psiquiatra. Apenas passara um receita com alguns remédios para aliviar a enxaqueca que o menino não parava de reclamar. A mãe não sabia que ele tinha enxaqueca. Ed já sabia, sempre quando tinha algum ''rompante'' a enxaqueca vinha.
            Nada era novo para o garoto esparramado na cama, exceto a experiência que teve, praticamente revivendo todo aquele dia em que o pai surrou a mãe. Não tinha medo nenhum em relembrar agora. E percebeu que de certa  forma aquilo tinha o ajudado. Mesmo que tenha passado por tudo de novo.
            Nos primeiros dias de cama de Ed, Gustavo já o tinha visitado, mostrando ser um bom amigo. Os dois acabaram terminando aquela conversa sobre o ''O Iluminado'', mesmo porque, até onde seu amigo sabia,  não fora o que estavam conversando que deixou Ed naquele estado de choque. Aliás, ninguém sabia. E não teve problema nenhum nos dois falarem sobre o livro e seu pai, Ed não mais sentia medo. Depois de Gustavo visitá-lo,  resolveu terminar de ler o livro. Sentia muito do pai em Jack Torrance e muito de si mesmo em Daniel Torrance, mas reconhecia que a maior parte dessa observação era tendenciosa, vendo pelo lado que tinha se identificado. Na verdade os dois personagem, na maioria dos aspectos, eram diferentes dele próprio e  de seu pai.
            Seu pai não era tão impulsivo e louco como Jack, que mesmo sóbrio tinha espancado um aluno. Só o álcool enlouquecia Jorge, na maior parte do tempo era um doce pai. Jack Torrance também, mas ele era quase um esquizofrênico, olhando por um lado. Tinha aquela essência selvagem de espancar alguém.. de se enfurecer. E Jorge era um completo leigo, enquanto Jack era um escritor, professor de inglês. As coisas se divergiam muito quando se comparava as personalidades e inclinações de cada um.
            Ed também já não era tão criança como Danny. Não era tão submisso ao pai, e nem o  amava tanto quanto - mesmo nos tempos felizes. Os seus poderes de ''iluminado'' aconteciam de diferentes formas e circunstâncias. Como por exemplo, às vezes tinha premonições como Danny, e elas aconteciam igualmente, mas não vinha alguém como Tony para lhe mostrar o futuro ou a cor laranja, como o cozinheiro que era outro iluminado. A Ed,  isso vinha num sonho, um sonho mais vívido que os demais. E o que era predito, podia ser mudado, com algum esforço a mais, pois o futuro parecia obstinado, mas mesmo assim tinha como.
            Enfim, se identificou muito com o livro, e o achou fantástico. Todo aquele suspense, o desenvolvimento dos personagens, o Overlook - o hotel! Tudo escrito de forma magnífica belo mestre King.
            Mas agora pensava um pouco em sua mãe. Tudo parecia ir bem entre eles, depois do incidente na escola. Não haviam tocado em nenhum assunto delicado, como se todo passado tivesse sido apagado. Do jeito em que ele sempre sonhara.
             Não minta pra você mesmo... você sabe... sabe que é só por um determinado momento, enquanto está de cama. Você vê a tristeza nos olhos dela, a hipocrisia na face... Um palhaço triste, que por fora ri, mas por dentro só há dor e...
            - Ed! Tem mais uma visita para você! - gritou sua Mãe.
            Desde que Gustavo o visitou a uma semana atrás, bilhares de outras pessoas passaram a visitá-lo. Talvez o Gu, ou sua própria mãe, tivesse recomendado outras pessoas para irem lá. Era um pouco irritante, dependo de quem fosse. Achava engraçado quando um colega ia ver ele por obrigação dos pais. Ficavam meio quietos, deslocados pensava Ed. Vieram, não só colegas de classe exortados pelos pais, mas muitos professores; a coordenadora que ajudou sua mãe no dia e outros funcionários do colégio. Ed se sentira um cara famoso e querido nos primeiros dias de visita. No entanto, agora já havia se tornado irritante. E já sentia a falsidade da maioria.
            - Quem é agora?! - perguntou, numa voz enfadonha.
            - Uma menina, diz ser sua colega de sala. Os pais a mandaram aqui.
            (Oh, que surpresa)
            - Pergunte o nome dela!
            Ed ouviu com dificuldade sua mãe perguntando o nome da garota.
            - Júlia! o nome dela é Júlia Alvares.
            Por um momento Ed pensou em dizer: Diga que não estou afim dela, que saia daqui antes que eu tenha de me levantar e fazer isso eu mesmo!
            Porém, um segundo pensamento invadiu sua mente. Por que não deixar ela entrar? Ela não sabia, de qualquer forma, que entrara na sua mente e havia visto milhares de coisas lá.
            (Posso fazer um joguinho, contar todas as memórias dela para ela mesma.)
            Não. Tinha virado sádico agora? Faria a mesma coisa que fez com os outros. Ouviria o que ela tinha a dizer, nada a mais do que isso. Teria como? Não. Ele era apaixonado por Júlia, essa era a verdade, não teria como simplesmente esquecê-la enquanto ela estivesse parada na sua frente, falando-lhe alguma coisa. Se sentiu um poucos mais aliviado por afirmar isso.
            - Mande-a entrar! - disse.
            A porta de seu quarto se abriu. Ed viu-a parada do lado de sua mãe. Usava uma calça jeans e  uma camiseta branca , bem simples - nada de estampas -, coberta por um casaco vermelho de moletom. Júlia não estava linda como uma atriz de hollywood na idade dela, nem era tão linda em qualquer outra ocasião. Mas, Ed fitava-a como se visse um anjo na sua frente, a menina ideal.
            - Oi, Ed - disse ela, não aparentava estar nem um pouco tímida ou constrangida. No rosto um leve sorriso que poderia ser falso ou não, mas de qualquer forma muito agradável.
            O dois tinham conversado alguma vez? Não, somente algumas palavras em cumprimentos ou despedidas. Porque geralmente Ed era tímido com meninas, algo normal na sua idade.
            - Oi! - disse um pouco constrangido. Feliz contudo.
            Júlia foi entrando no quarto, junto da mãe de Ed, que parou em frente a porta.
            - Bom, vou deixar os dois sozinhos aqui. Só não entedie a garota, Ed! Ela parece ser uma boa menina.
            Ed tentou ao máximo não enrubescer e mostrar alguma firmeza.
            - Ok, mãe. Vá.
            Maria riu, com um olhar entendedor que foi do filho para a garota - mas Ed percebeu, viu que aquilo era só encenação. Depois disso saiu do quarto, fechando a porta. Deixando os dois jovens sozinhos.
            - E aí, Ed. Hã... anda melhor? -  Júlia coçou o antebraço.
            Ed se sentiu um pouco melhor sabendo que ela também não era perfeita. Que se sentia igualmente deslocada como os outros, naquele tipo de situação. Mas o que os merdas dos pais dessas outras crianças achavam? Que ele era um garoto mega popular e conversava com todo mundo?
            - Ah, sim. Estou ficando cada dia melhor.
            Ela acenou com a cabeça.     
            (O que eu to fazendo perdendo essa chance? Sei praticamente tudo sobre ela, não posso usar isso ao meu favor?)
            - Bom, talvez não seja tão ruim para alguém perder as aulas daquela escola de merda - Ed disse.
            Júlia pareceu surpresa num primeiro instante. Mas, depois gargalhou. E os dois se sentiram um pouco mais confortáveis na presença um do outro. Ela por ouvir Ed dizendo um palavrão e sendo franco. Ele por ouvir aquela linda gargalhada e a vendo se aproximar mais alguns poucos passos da cama.
            - Acho que sim! - Júlia concordou, o riso se atenuando. - Nós nunca conversamos muito antes, não?
            - É.
            Ela coçou de novo o antebraço.
            - Mas você parece me conhecer mais... mais profundamente, se é que isso faz algum sentido...
            Ed ficou um pouco envergonhado, mas sua mente dizia parece se manter firme, como um homem. Assim, resolveu ser franco, pelo menos até onde dava.
            - Eu costumo observar você na sala...
            - Ah ...
            - É s-só porque a acho interessante, de certa forma.
            Viu os olhos de Júlia faiscarem por um segundo, porém, não totalmente certo de que isso realmente acontecera, embora realmente o olhar dela tivesse mudado e adquirido uma certa afeição enigmática. Queria muito saber o que ela pensava, queria ler sua mente e ver o que Júlia pensava dele. Entretanto, para sua infelicidade, não podia fazer aquilo - não exatamente naquela hora. Estava de cama, ainda com enxaquecas. Não podia piorar aquela situação; tinha que agir com paciência, pensar com paciência, para que a cabeça não explodisse.
            - Interessante... de que maneira?
            - Ah, você é diferente das outras meninas. Costuma não ser tão chamativa, ou se achar de mais. Não fica chorando sem parar por aí, porque sua unha quebrou ou sujaram sua linda blusa - ela riu, primeiramente deu um sorriso tímido, mas depois outro que mostrava que se deliciava com os dizeres de Ed. - Coisas desse tipo.
            Ed viu um brilho de ceticismo nos olhos dela.
            - Me desculpe parecer tão desconfiada - ele fez um aceno pra ela prosseguir - mas, nem começou o ano direito. Sou nova na escola e...
            - Como sei isso sobre você? - Ed riu, estava feliz e de certa forma se divertindo.
            - Sim! - ela riu também, mas com um ar de estranhamento. Olhava fascinada para Ed. E era justamente isso o que ele buscava.
            - É fácil! Olhe para você!
            - Como assim?
            - Suas roupas, não tão bonitas, mas confortáveis. O rosto, sem maquiagem! Já viu como as outras meninas vão na escola ou até mesmo como vieram aqui? - sorriu.
            Júlia fez uma cara pensativa.
            - É, é um bom ponto de vista pro palpite que você deu sobre mim.
            Os dois riram ao mesmo tempo. Aquilo era tão bom que Ed pensou se não era um sonho.           
            - Júlia! Você já leu...
            E a conversa continuou por mais algum tempo. Ed não se sentia mais tímido na presença dela e conversavam como se fossem amigos a anos. De certa forma  já a conhecia melhor que ninguém, mas ela não. Mesmo assim, pareciam velhos amigo quando se reencontram, cheios de conversa para por em dia. Pena que o papo não durou  muito. A mãe de Júlia tinha um compromisso e achou que a filha não fosse ficar muito tempo ali.
            Uma pena, uma grande pena que não tenha durado quase nada...
            Mas se sentia tremendamente feliz e era isso que importava naquela hora.


2 comentários:

  1. Se você desistir no meio, eu te arrebento! hahahahaa

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Jamais! To gostando bastante de escrever este para parar, ainda mais que o negócio fica muito mais interessante na próxima parte - ou seja, melhor ainda pra escrever!

      Excluir