Nos dias posteriores àquele dia na escola. Ed ficou em casa, deitado. O médico recomendara a Maria que seu filho ficasse em casa, até melhorar e depois disso, procurasse um psicólogo ou até mesmo um psiquiatra. Apenas passara um receita com alguns remédios para aliviar a enxaqueca que o menino não parava de reclamar. A mãe não sabia que ele tinha enxaqueca. Ed já sabia, sempre quando tinha algum ''rompante'' a enxaqueca vinha.
Nada era novo para o garoto
esparramado na cama, exceto a experiência que teve, praticamente revivendo todo
aquele dia em que o pai surrou a mãe. Não tinha medo nenhum em relembrar agora.
E percebeu que de certa forma aquilo
tinha o ajudado. Mesmo que tenha passado por tudo de novo.
Nos primeiros dias de cama de Ed, Gustavo
já o tinha visitado, mostrando ser um bom amigo. Os dois acabaram terminando
aquela conversa sobre o ''O Iluminado'', mesmo porque, até onde seu amigo
sabia, não fora o que estavam
conversando que deixou Ed naquele estado de choque. Aliás, ninguém sabia. E não
teve problema nenhum nos dois falarem sobre o livro e seu pai, Ed não mais
sentia medo. Depois de Gustavo visitá-lo,
resolveu terminar de ler o livro. Sentia muito do pai em Jack Torrance e
muito de si mesmo em Daniel Torrance, mas reconhecia que a maior parte dessa
observação era tendenciosa, vendo pelo lado que tinha se identificado. Na
verdade os dois personagem, na maioria dos aspectos, eram diferentes dele
próprio e de seu pai.
Seu pai não era tão impulsivo e louco
como Jack, que mesmo sóbrio tinha espancado um aluno. Só o álcool enlouquecia
Jorge, na maior parte do tempo era um doce pai. Jack Torrance também, mas ele
era quase um esquizofrênico, olhando por um lado. Tinha aquela essência
selvagem de espancar alguém.. de se enfurecer. E Jorge era um completo leigo,
enquanto Jack era um escritor, professor de inglês. As coisas se divergiam
muito quando se comparava as personalidades e inclinações de cada um.
Ed também já não era tão criança
como Danny. Não era tão submisso ao pai, e nem o amava tanto quanto - mesmo nos tempos
felizes. Os seus poderes de ''iluminado'' aconteciam de diferentes formas e
circunstâncias. Como por exemplo, às vezes tinha premonições como Danny, e elas
aconteciam igualmente, mas não vinha alguém como Tony para lhe mostrar o futuro
ou a cor laranja, como o cozinheiro que era outro iluminado. A Ed, isso vinha num sonho, um sonho mais vívido que
os demais. E o que era predito, podia ser mudado, com algum esforço a mais,
pois o futuro parecia obstinado, mas mesmo assim tinha como.
Enfim, se identificou muito com o
livro, e o achou fantástico. Todo aquele suspense, o desenvolvimento dos
personagens, o Overlook - o hotel!
Tudo escrito de forma magnífica belo mestre King.
Mas agora pensava um pouco em sua
mãe. Tudo parecia ir bem entre eles, depois do incidente na escola. Não haviam
tocado em nenhum assunto delicado, como se todo passado tivesse sido apagado. Do
jeito em que ele sempre sonhara.
Não minta pra você mesmo... você sabe... sabe
que é só por um determinado momento, enquanto está de cama. Você vê a tristeza
nos olhos dela, a hipocrisia na face... Um palhaço triste, que por fora ri, mas
por dentro só há dor e...
- Ed! Tem mais uma visita para você!
- gritou sua Mãe.
Desde que Gustavo o visitou a uma
semana atrás, bilhares de outras pessoas passaram a visitá-lo. Talvez o Gu, ou
sua própria mãe, tivesse recomendado outras pessoas para irem lá. Era um pouco
irritante, dependo de quem fosse. Achava engraçado quando um colega ia ver ele
por obrigação dos pais. Ficavam meio quietos, deslocados pensava Ed. Vieram,
não só colegas de classe exortados pelos pais, mas muitos professores; a
coordenadora que ajudou sua mãe no dia e outros funcionários do colégio. Ed se
sentira um cara famoso e querido nos primeiros dias de visita. No entanto,
agora já havia se tornado irritante. E já sentia a falsidade da maioria.
- Quem é agora?! - perguntou, numa
voz enfadonha.
- Uma menina, diz ser sua colega de
sala. Os pais a mandaram aqui.
(Oh,
que surpresa)
-
Pergunte o nome dela!
Ed ouviu com dificuldade sua mãe
perguntando o nome da garota.
- Júlia! o nome dela é Júlia
Alvares.
Por um momento Ed pensou em dizer: Diga que não estou afim dela, que saia daqui
antes que eu tenha de me levantar e fazer isso eu mesmo!
Porém,
um segundo pensamento invadiu sua mente. Por que não deixar ela entrar? Ela não sabia, de qualquer forma, que entrara na sua mente e havia visto milhares de coisas lá.
(Posso
fazer um joguinho, contar todas as memórias dela para ela mesma.)
Não.
Tinha virado sádico agora? Faria a mesma coisa que fez com os outros. Ouviria o
que ela tinha a dizer, nada a mais do que isso. Teria como? Não. Ele era
apaixonado por Júlia, essa era a verdade, não teria como simplesmente
esquecê-la enquanto ela estivesse parada na sua frente, falando-lhe alguma coisa.
Se sentiu um poucos mais aliviado por afirmar isso.
- Mande-a entrar! - disse.
A porta de seu quarto se abriu. Ed viu-a
parada do lado de sua mãe. Usava uma calça jeans e uma camiseta branca , bem simples - nada de
estampas -, coberta por um casaco vermelho de moletom. Júlia não estava linda
como uma atriz de hollywood na idade dela, nem era tão linda em qualquer outra
ocasião. Mas, Ed fitava-a como se visse um anjo na sua frente, a menina ideal.
- Oi, Ed - disse ela, não aparentava
estar nem um pouco tímida ou constrangida. No rosto um leve sorriso que poderia
ser falso ou não, mas de qualquer forma muito agradável.
O dois tinham conversado alguma vez?
Não, somente algumas palavras em cumprimentos ou despedidas. Porque geralmente
Ed era tímido com meninas, algo normal na sua idade.
- Oi! - disse um pouco constrangido.
Feliz contudo.
Júlia foi entrando no quarto, junto
da mãe de Ed, que parou em frente a porta.
- Bom, vou deixar os dois sozinhos
aqui. Só não entedie a garota, Ed! Ela parece ser uma boa menina.
Ed tentou ao máximo não enrubescer e
mostrar alguma firmeza.
- Ok, mãe. Vá.
Maria riu, com um olhar entendedor
que foi do filho para a garota - mas Ed percebeu, viu que aquilo era só encenação.
Depois disso saiu do quarto, fechando a porta. Deixando os dois jovens
sozinhos.
- E aí, Ed. Hã... anda melhor? - Júlia coçou o antebraço.
Ed se sentiu um pouco melhor sabendo
que ela também não era perfeita. Que se sentia igualmente deslocada como os
outros, naquele tipo de situação. Mas o que os merdas dos pais dessas outras
crianças achavam? Que ele era um garoto mega popular e conversava com todo
mundo?
- Ah, sim. Estou ficando cada dia
melhor.
Ela acenou com a cabeça.
(O
que eu to fazendo perdendo essa chance? Sei praticamente tudo sobre ela, não
posso usar isso ao meu favor?)
-
Bom, talvez não seja tão ruim para alguém perder as aulas daquela escola de
merda - Ed disse.
Júlia pareceu surpresa num primeiro
instante. Mas, depois gargalhou. E os dois se sentiram um pouco mais
confortáveis na presença um do outro. Ela por ouvir Ed dizendo um palavrão e
sendo franco. Ele por ouvir aquela linda gargalhada e a vendo se aproximar mais
alguns poucos passos da cama.
- Acho que sim! - Júlia concordou, o
riso se atenuando. - Nós nunca conversamos muito antes, não?
- É.
Ela coçou de novo o antebraço.
- Mas você parece me conhecer
mais... mais profundamente, se é que isso faz algum sentido...
Ed ficou um pouco envergonhado, mas
sua mente dizia parece se manter firme, como um homem. Assim, resolveu ser
franco, pelo menos até onde dava.
- Eu costumo observar você na
sala...
- Ah ...
- É s-só porque a acho interessante,
de certa forma.
Viu os olhos de Júlia faiscarem por
um segundo, porém, não totalmente certo de que isso realmente acontecera,
embora realmente o olhar dela tivesse mudado e adquirido uma certa afeição
enigmática. Queria muito saber o que ela pensava, queria ler sua mente e ver o
que Júlia pensava dele. Entretanto, para sua infelicidade, não podia fazer
aquilo - não exatamente naquela hora. Estava de cama, ainda com enxaquecas. Não
podia piorar aquela situação; tinha que agir com paciência, pensar com
paciência, para que a cabeça não explodisse.
- Interessante... de que maneira?
- Ah, você é diferente das outras
meninas. Costuma não ser tão chamativa, ou se achar de mais. Não fica chorando sem parar por aí, porque sua unha quebrou ou sujaram sua linda blusa -
ela riu, primeiramente deu um sorriso tímido, mas depois outro que mostrava que
se deliciava com os dizeres de Ed. - Coisas desse tipo.
Ed viu um brilho de ceticismo nos
olhos dela.
- Me desculpe parecer tão desconfiada
- ele fez um aceno pra ela prosseguir - mas, nem começou o ano direito. Sou
nova na escola e...
- Como sei isso sobre você? - Ed
riu, estava feliz e de certa forma se divertindo.
- Sim! - ela riu também, mas com um
ar de estranhamento. Olhava fascinada para Ed. E era justamente isso o que ele
buscava.
- É fácil! Olhe para você!
- Como assim?
- Suas roupas, não tão bonitas, mas
confortáveis. O rosto, sem maquiagem! Já viu como as outras meninas vão na
escola ou até mesmo como vieram aqui? - sorriu.
Júlia fez uma cara pensativa.
- É, é um bom ponto de vista pro
palpite que você deu sobre mim.
Os dois riram ao mesmo tempo. Aquilo
era tão bom que Ed pensou se não era um sonho.
- Júlia! Você já leu...
E a conversa continuou por mais
algum tempo. Ed não se sentia mais tímido na presença dela e conversavam como
se fossem amigos a anos. De certa forma já a conhecia melhor que ninguém, mas ela não.
Mesmo assim, pareciam velhos amigo quando se reencontram, cheios de conversa
para por em dia. Pena que o papo não durou muito. A mãe de Júlia tinha um compromisso e
achou que a filha não fosse ficar muito tempo ali.
Uma
pena, uma grande pena que não tenha durado quase nada...
Mas se sentia tremendamente feliz e
era isso que importava naquela hora.
Se você desistir no meio, eu te arrebento! hahahahaa
ResponderExcluirJamais! To gostando bastante de escrever este para parar, ainda mais que o negócio fica muito mais interessante na próxima parte - ou seja, melhor ainda pra escrever!
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