2
Parecia
que dormia na rua, sem qualquer tipo de proteção contra a chuva. O cobertor
estava bem molhado e o travesseiro também. Mas não era o pior, a apostila da
escola e alguns livros que ficavam ao lado da janela, foram pro saco - não
literalmente, porém estavam encharcados.
Contudo, a primeira coisa que Ed fez
quando despertou, foi ... nada. Não fez nada. Tomava a chuva ainda, com os
olhos arregalados e com dores fortes nas têmporas, aquele maldito vestígio de
uma enxaqueca. A visão futurística já
tinha adquirido aquela certa textura de um sonho, mas ele se lembrava de tudo,
de qualquer forma. As imagens do que testemunhou vinham com frequência e não
era o pior, o pior eram as frases que o estranho tinha dito, essas ficavam
rodando infinitamente na cabeça de Ed.
Ela
é uma doce mulher, não acha, Ed?
O
que, vai me dizer agora que nunca viu mamãe pelada?
Foi
quando uma gota de água bateu nos seus olhos abertos que despertou
definitivamente, ainda chocado, mas o sentido de urgência ligado no máximo. Viu
todos suas coisas molhadas, sentiu a cama desagradavelmente cheia d'água e
fitou a janela aberta por no máximo 1 segundo, fechando-a desastradamente com
uma velocidade duas vezes mais rápida. Percebeu, também, que pisava no molhado e
correu assim para o outro lado, colocando o chinelo no espaço seco.
Não teve tempo para refletir, foi
acordar sua mãe, pois provavelmente não resolveria aquilo sozinho. Mas quando
abriu a porta do quarto e olhou para o corredor, viu sangue, da mesma forma que
antes, e sentiu a enxaqueca ficar cada vez mais forte.
Rapaz,
por que o medo? Um pouco de sangue não é nada de mais!
Sangue? Aquilo não era porra nenhuma
e sabia. Piscou os olhos e não viu mais nada. Chacoalhou a cabeça e deu alguns
tapas no rosto. Por que simplesmente não esquecia, pelo menos por enquanto?
E como mágica, seu desejo foi
concedido.
Abriu a porta do quarto da mãe, sem
nem mesmo avisar que estava entrando. Acendeu a luz, e num salto, Maria
despertou. O olhar dela percorreu o quarto, parecia aflita no primeiro momento,
até que divisou Ed, parado a poucos metros da cama, ofegando.
- O que foi, filho? - disse ela,
numa voz meio arrastada.
- Dormi e deixei a janela aberta. E
nem senti a chuva caindo em mim!
Maria pareceu um pouco surpresa.
- Fechou-a agora, pelo menos? -
parecia hesitante.
- Sim.
Ela levantou, ainda com moleza.
- Tudo bem, apenas me ajude com as
coisas.
Os dois foram tirando tudo que
estava molhado de dentro do quarto. Cobertor, o lençol, os livros, até mesmo o
colchão onde Ed dormia. Quando acabaram, eram 3 e meia da madrugada, o que
afirmava que já se tinham passado quarenta minutos desde a terrível premonição.
- Ééé... mãe? - disse Ed, estava
parado a observando pegar novas coias para ele dormir naquele dia. Tinha de
fazer aquela maldita pergunta que rondava sua mente.
- D-diga.
Maria estava com as mãos ocupadas
pelo cobertor e travesseiro que acabara de pegar.
- Você... anda saindo com alguém? -
conseguiu dizer, o coração na boca.
Sua mãe ficou quieta durante alguns
segundos, fitando o filho, um pouco incrédula pelo que Ed percebeu na sua face.
- É importante, por favor... me
responda.
Ela realmente estava desconcertada com aquilo.
- Não... - as bochechas rosadas.
- Então, por favor, me diga que nunca vai sair com um
cara magro e... e... de peito peludo.
- Ed...
- Mãe, eu não to
ficando louco, é sério - ele a fitou com um olhar assustado. Pôs as mãos no
ombro dela.
- M-mas, por que disso? - Maria observou as mãos que
filho acabara de pousar no seus ombros.
- Eu sonhei com
algo terrível e não quero que aquilo aconteça... mesmo parecendo coisa de
louco. Apenas me diga que não.
- Ok, então ... não... Mas...
- Mãe, eu te amo e é isso o que
importa para mim. - fez o gesto de abraçá-la, o que foi concedido quando ela
desocupara as mãos, deixando as coisas caírem nos pés.
Os dois se abraçaram forte e os dois
choraram.
Era um grande avanço na relação mãe
e filho.
3
Aproveitando ainda seus dias de
afastamento da escola, Ed fez várias coisas com a mãe. Foram assistir filmes no
cinema, viram filmes em casa, foram a teatros, ouviram músicas juntos e até mesmo,
leram alguns livro juntos. Maria não comentava mais nada sobre seu pai - o que
era ótimo -, e aparentava ter saído bastante daquele estado de hipocrisia.
(
Mas não totalmente )
Ed
já estava frequentado um psiquiatra, que logo recomendara a mãe que ele tomasse
antidepressivos. E no geral, o garoto se sentia melhor, não porque o remédio o
havia ajudado - o que era verdade, achava -, mas porque a relação crescente com
a mãe e essas conversas com o psiquiatra iam o ajudando de pouco em pouco. Era
lógico, também, que havia se esquecido da visão do futuro que tivera. Aquele
''sonho'' parecia se encaminhar para aquele mesmo estágio em que as memórias do
pai surrando a mãe com um taco de beisebol estavam antes.
Até que, num dia qualquer, assolado
por uma enxaqueca que não era nada inédita. Ed sonhou com o estranho, novamente. Mas esse era realmente só um
sonho. Onde aparecia, em vez do pai, aquele maluco surrando a mãe e dizendo:
Ela
é uma doce mulher, não acha, Ed?
A partir daquele momento, começara
a, ironicamente, querer lembrar de tudo que tinha visto. Tinha um belo plano de
tentar descobrir mais coisas naquela visão maluca sobre o estranho, para saber
quem ele era de verdade.
Sabia que só falando para a mãe
tomar cuidado ou não sair com um cara parecido com aquele, não daria certo. Era
um fato que conseguir mudar o futuro não era nada fácil. E sabia de outra coisa,
precisaria de alguém para ajudá-lo, mas quem? Gustavo, Júlia? Talvez não fossem
crianças demais ainda? Ele, então, o que era?
Se pegava pensando daquela maneira,
várias vezes. Mas sempre parava por ali, querendo que tudo não passasse de uma
mentira. Queria também voltar pra escola, onde poderia ocupar a mente com
outras coisas... ou com outras mentes.
Ninguém mais o havia visitado desde
Júlia, sentia-se um pouco deprimente em relação a isso.
Ed colocou o livro na
mesa ao lado da cama, não coseguia nem ler direito, a cabeça entrava em
devaneios sem fins. Bocejou.
Dali a dois dias ia voltar a escola,
graças a deus. Tinha uma certeza estranha de que lá, teria mais pistas sobre quem
era o estranho... Mas naquela hora - deitado na cama- só queria dormir,
esquecer por um tempo que tinha problemas do tamanho do universo.
4
Os
dois dias passaram rápidos e Ed já havia voltado pra escola. Perdera muita
matéria nos dias que não havia ido e por
isso, para infelicidade dele, sua mãe o obrigara a frequentar as aulas de
reforço que o colégio tinha à tarde, mas de certa forma elas o ajudaram sobre
outros pontos de vista. Fazia coisas mais úteis com aquele tempo apertado -
sabe-se lá porque -; não pensava muito nos problemas - apesar de ainda ficar atento tanto quanto podia na sua mãe -; e o óbvio,
estava aprendendo algo que nas aulas normais já tinha passado.
A amizade dele e de Gustavo estava
cada vez mais íntima, viraram finalmente melhores amigos. Os dois
frequentemente estavam na casa um dos outros - o que até tinha feito das mães dos
dois amigas, Ed via isso como um verdadeiro progresso. Os dois viam os mesmos
filmes, liam os mesmos livros. Eram dois nerds
que se identificavam bastante.
Mas o que era melhor disso tudo, era
a relação com Júlia. Conversavam direto pessoalmente na escola. Ed sentia que
logo mais conquistaria ela, era tremendamente apaixonado pela garota e não via
a hora dos dois namorarem. Certo dia conseguira um selinho dela, bem tímido,
mas era alguma coisa - realmente era alguma coisa.
Outra coisa pela qual agradecia
profundamente, era as enxaquecas, que vinham numa frequência menor agora.
Tudo estava feliz demais e Ed não
enxergava isso. Mas o que ele poderia saber? Sua existência ainda era breve -
15 anos, ia fazer 16 logo mais - , tinha coisas a aprender.. fosse de um jeito duro ou não.
Um provérbio popular exprimia bem a
situação:
Quando
a esmola é grande demais, o santo desconfia.
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