17
As forças voltaram e ele carregava a
faca consigo novamente, no corredor onde o juízo final, no cômodo à frente, o
aguardava. Havia uma fresta que a porta
fazia. A maçaneta cheia de sangue. Se
lembrava claramente daquilo. Incrivelmente tinha um sorriso estampado no rosto,
um sorriso histérico. Estava louco? Pensava que sim. Mas não tinha importância,
a paz e a lucidez o esperavam. Num outro lado da vida, junto com a mãe.
Ainda que não estivesse sem forças,
a enxaqueca o derrubava, pesada como a mais pesada das pedras sobre o mundo.
Por isso se agarrava a parede, exatamente como na visão que tivera. As mãos
resvalando no sangue que fora deixado na parede. O sangue rubro da mãe.
De repente o sorriso deixou o seu
rosto...
O telefone tocava. A merda do telefone tocava!
Lembrou da ideia que tivera alguns
minutos antes e que tinha saído da sua cabeça. A ideia de que iria ligar para o
senhor Turco. Será que era ele?
Era uma esperança fraca e sabia
disso. Por que raios seu vizinho ligaria àquela hora?
Um pingo de suor escorreu pela sua
franja e caiu no assoalho.
Além do mais...
(
...ninguém pode interferir nisso...)
Seguindo
esse pensamento, Ed avançou mais para dentro das sombras. Deixando o telefone
tocar sozinho. Só parou a poucos centímetros da porta que levava a seu destino
final. O sorriso começava a aparecer novamente.
18
Ninguém atendeu. Turco bateu o
telefone com tudo no gancho. Também, ele tinha mesmo esperança de que aquela
hora alguém atenderia um telefone barulhento?
Na verdade, seria algo lógico a se
fazer, mas não achava que depois de todas as desgraças que passaram sobre
aquela família, eles quisessem mais uma. Entretanto, talvez... talvez
estivessem com problemas lá, algo a ver com o estrondo. E por isso não haviam
atendido, porque estavam com problemas, problemas sérios. Ele mesmo não tinha
escutado o telefone dos vizinhos tocar ali da sua própria casa? Não seria
sensato atender?
Começava a ter uma certeza mórbida
sobre aquilo, quando, assustadoramente escutou um grito. Um berro para ser mais
sincero. Teve a certeza de que era Ed.
Turco, um velho de 60 anos, se
arrepiou inteiro. Era das antigas e já tinha passado por muita coisa, mesmo
assim, se arrepiou como nunca antes. Foi
para a lavanderia e puxou uma caixa grande e relativamente fina de madeira do lado da máquina de lavar, meio escondida
entre a parede e algumas tranqueiras de
pesca que tinha. Tirou a espingarda de lá.
Ouviu Érica chamar seu nome. Mas,
não deu a atenção própria. Viu pela janela que as outras casas da rua começavam
a acender as luzes. Algo de estranho acontecia e todos sentiam a mesma coisa.
19
A cabeça
ameaçava explodir. Não entendia o porque, mas quanto mais avançava a mão em
direção a maçaneta rubra, sentia que aconteceria - a cabeça cresceria tanto que
estouraria como uma bexiga, afinal, não era pra isso que latejara tanto? Mas
não, ela não explodiu. Ed encostou a mão na maçaneta. Mesmo assim sentia a crescente
enxaqueca, não conseguindo fazer nenhuma ligação com que aconteceria ali.
A porta rangeu sob aquele mísero
toque. O sorriso histérico já antes desfeito, passou
a ser uma antítese de seu rosto naquela hora...
- Adiante,
rapaz! Está atrasado para festa, não? - disse a mesma voz estridente e pouco
masculi...não... pouco humana era o mais correto. Ed não ficou
surpreso, apenas percebeu que a frase não era a mesma que fora feita antes, mas
não ligou para isso, até porque tudo estava meio diferente.
Se mantinha ainda parado, a
respiração pesada. Conforme os passos daquele triste pesadelo que se tornava
real diante de seus olhos. Naquele momento sentiu medo. O simples e puro medo. Sua mão resvalou sobre a maçaneta,
mas antes dela cair, forçou-a a ficar firme.
- Bom, a diversão pode ficar só pra
mim, meu amigo! - o estranho deu um
riso maligno. - Mas, sabe como é, dividir sempre é bom. Assim você fica me
devendo uma! Entre!
Ed percebia que ele o conhecia de alguma forma.
(
Grrr! Não é hora de pensar, maldito! É hora de agir! )
Mesmo
com a dor pungente nas têmporas, Ed apertou com força o cabo da faca entre a
palma da mão direita e abriu a porta com a outra mão. Entrou no quarto. Sentiu
aquela atmosfera... errada.
Completamente errada. Parecia ter a textura de um sonho. Quem dera se fosse. Era errada e terrível, a realidade se fundindo
à fantasia.
Viu a silhueta dos dois na cama.
- Q-quem é você? - disse, realmente
querendo saber agora. Balbuciou porque a dor estava piorando de um jeito que as
palavras não a descreviam mais.
- Quem sou eu? Ora essa, Ed. Pensei
que você pudesse saber facilmente dessas coisas! - ele se movimentou com
cuidado sobre sua mãe, mas Ed ainda via sua silhueta.
Como,
como podia saber facilmente?...
- Deixe-me pegar uma vela aqui... Acho que você não está vendo
essa nossa brincadeira, não é mesmo?
- NÃO! NÃO FAÇA ISSO! - disse Ed se
lembrando do cenário e depois, de sua mãe morta.
O estranho gargalhou. A voz estridente
piorando a dor de cabeça de Ed.
Então, se lembrou. Lembrou de seus
poderes paranormais. Mas como aquele sujeito sabia? Não importava... porque
agora teria sua vantagem.
Tentou... tentou entrar na mente do estranho.
A faca caiu de suas mãos e tilintou
no chão.
Ed gritou. As mão tremulantes
apertando suas têmporas.
20
- Ah, meu deus! Por que você tem uma
espingarda nas mãos?!
- Meu bem, fique aqui - continuou
andando rápido em direção a porta, com a espingarda já carregada.
Ela se postou na frente dele. Turco
percebeu como era linda.. e que devia estar dormindo para o próprio bem.
- Amor, me dê licença. Você ouviu o
grito.
- M-mas, Turco... nós não temos nada
a ver com isso. Pode ser só um pesadelo que o garoto teve, como tem certeza de
que é... algum problema mais sério?
De repente, Turco sentiu raiva dela.
- Pela amor de deus digo eu! Onde
está sua compaixão?! Acha mesmo aquele grito normal?! - gritou para a mulher.
Érica se encolheu. - Me dê a porra da licença! Senão a jogo pro lado!
Ela não saiu da frente.
- P-p-por que toda essa raiva comigo?
- Érica murmurou.
- Mulher, EU ESTOU FALANDO SÉRIO!
Será que não sente nada... estranho como
eu? Vai realmente negar? Vejo o medo
na sua face, Érica. E não é de mim esse medo, mas por mim.
- Você e-e-está sendo supersticioso,
Turco. N-n-nunca foi assim...
- Deixe que eu me cuido. Já sou
muito grandinho, não percebe? Agora saia da frente, o tempo está passando e eu
vou salvar alguém.
- MAS E ESSA ARMA, TURCO? E SE O
VEREM COM ELA? E SE VOCÊ MORRER?! E SE FOR PRESO?!
Turco a jogou para o lado com um de
seus braços. Érica caiu no chão, chorando.
-
Por quê, amor? Por quê? O problema não é nosso.. - ela disse entre as
lágrimas, o olhando de baixo.
- Pare de falar merdas e ligue pra
polícia.
Sentia pena dela, mas fora preciso
fazer aquilo. Tinha algo de muito estranho acontecendo. Ele sentia isso no
coração.
- O problema nunca é nosso - disse
com ironia, batendo a porta da frente da casa com força - fazendo-a ranger mais
do que o normal.
21
Turco só havia usado
aquela arma uma vez e ainda fora quando estava aprendendo a atirar com o pai. Tinha
17 anos naquela época. Morava numa cidadezinha do interior de Goiás. Lembrava de como tinha os braços fortes do
pai. Os tendões aparecendo quando fazia força.
Segure
com força essa arma, Turco - já tinha o apelido naquela época.
Pai,
olhe bem para meus braços e faça suas conclusões - dissera em toda sua
esperteza e orgulho e tomara um tapa na nuca.
Ai,
caralho!
Se
você cair pra trás eu o surro até não quere mais! - o rosto sério do pai
dissera tudo. E então ele fizera tudo certo, segurando a arma com força. Até
tinha atingido o alvo no lugar, de primeira.
Olhe,
pai, acho que sou bom nisso.
Olhara para o pai, mas ele não
parecia feliz.
Espero
que você nunca tenha que usar essa arma contra alguém, rapaz...
E
lá estava ele, com a espingarda na mão, certo de que a usaria. Quando
saiu de casa a primeira coisa que viu, não foi uma coisa e sim, alguém.
Henrique Silva, seu vizinho da frente. Um cara honesto e de bom-humor, na casa
dos 40. Tinha uma pele morena, corpulento. Segurava um pedaço de ferro nas mão
grandes e fortes. Henrique já estava na frente da casa de Ed, procurando algum
lugar pelo qual poderia entrar - Turco se esquecera daquela parte, então, teve
uma ideia.
Berros
- seguidos de coisas quebrando - vinham sem parar da casa onde alguma coisa de
mal acontecia.
-Ei, Henrique!
Turco viu o vizinho se virando e
fazendo cara de quem é pego no flagra. Depois, percebeu que ele olhava para a
sua arma, com alívio transparecendo no rosto.
- Ah, senhor Turco! O que faz com
essa arma?
- Henrique... não podemos
conversar.. entre na minha casa, vamos pular pelo muro que é mais baixo por lá,
até tenho uma escada!
- Hã... ok!
Os dois correram e chegaram -
ofegando - até aquela divisão das duas casa no seu quintal. Foi quando viu o
temor na face de Henrique, antes dele subir na escada.
- S-senhor Turco? - murmurou.
- O quê foi?
- Você sente o...
- Sem asneiras, cara. Ande! Precisamos salvar essa família! - mas ele ouvia
igualmente a voz da consciência alertando o perigo. No entanto, tinha de agir
daquela maneira. Alguém precisava liderar, se mostrar confiante. Não podia
deixar seu rosto transparecer o medo
também. O que aconteceria quando Henrique olhasse para ele buscando alguma
segurança? Mesmo assim, era difícil
aceitar ver um homem grande daqueles com medo, parecendo uma criançinha.
Porra!
Até mesmo ele próprio estava com medo!
Mas
aquilo acontecia.
Viu a face de Henrique ganhar certa coragem.
- Sim, você está certo. Vamos
salvá-los! - disse Silva, e começo a
subir rapidamente, com as mãos livres para depois esperar que Turco lhe jogasse
as armas, de baixo.
22
Ed
tentava em vão buscar a faca que caíra. O homem nu estava em cima dele, rindo
que nem um louco, dando socos na sua cara. Mas não sentia nada. A única coisa
que sentia era a dor de cabeça.
- ME MATE! - ele gritou, chorando, tendo espasmos.
E o estranho ria. Um riso estridente de uma voz inumana.
Ouviu, bem ao longe, a porta de sua
casa sendo aberta. Então, teve um fio de esperança. A única coisa que queria
naquela hora era morrer; agora o estranho
podia matá-lo e fugir, fugir para sempre...
23
Ele
sentia prazer, uma prazer que beirava ao orgasmo, embora apreciasse ainda mais
aquele tipo de prazer que sentia agora. Nada era tão... lindo. Desde quando não fazia? Desde quando não matava uma mulher,
comia-a morta e depois espancava o filho dela? E ainda se dava ao direito de
brincar com ele usando os seus poderes
paranormais?
Ria como um verdadeiro louco dos seus
próprios pensamentos, surrando o garoto que se achava por ser telepata! HA!HA!HA! Quem era aquele
merdinha para vir ter com ele? Nem sabia usar direito seus poderes, não sabia
como eles podiam ir além da telepatia... embora já utilizasse das visões sobre
o futuro, mas inconscientemente.
''
Me mate! '', o garoto gritou. Ele riu mais ainda, o pinto enrijecido roçando
nas pernas do menino.
- Ah, meu rapaz, essa é última coisa
no mundo que eu queria fazer. Mas, você terá seu pedido concedido, em breve.
- Agora se acalme - disse. Depois,
deu mais um soco na cara do garoto e virou a cara dele na sua, encostando os
narizes. Olhos nos olhos.
Sorriu, um sorriso sardônico sob a
máscara de ladrão. A brincadeira estava um pouco cansativa demais. Mesmo assim
o menino chorava como um bebezinho e ele, logicamente, estava feliz por aquilo.
Com prazer.
(
Vamos aumentar um pouco essa enxaqueca, hein?! )
Os gritos de dor aumentaram.
- Que tal, hein, rapaz? - voltou a
rir.
Neste momento, finalmente, percebeu
que o menino gritava alto demais e por um tempo muito longo para ser
considerado normal. Alarmado, colocou então sua mão sobre a boca do menino,
abafando os berros.
(
Você é retardado, como se esqueceu disso?!)
Sentido que fizera merda, olhou a
procura da faca que Ed deixara cair.
- É, rapaz, acho que chegou sua
hora! - contudo, o sentimento de merda crescente se instalou nele.
(
Merda! Merda! Merda! )
Então o garoto o empurrou, não soube
como, mas aconteceu. E ele caiu, caiu para trás, batendo a cabeça em alguma coisa
que não era a faca.
- Grrr! Pivete do caralho!
Como encontrara forças para aquilo?
Não sabia. Ergueu o corpo do chão, com o semblante mostrando surpresa e raiva
ao mesmo tempo. Olhou para frente e viu Ed segurando a faca, tremendo. E
escutou passos, passos pertos demais.
24
Henrique
olhou com indiferença a casa. Quantas não foram as vezes que havia ido ajudar
Maria? Salvá-la de algum problema? Sempre fora pra consertar alguma coisa. Da
última vez que tinha ido para lá, havia sido para consertar o chuveiro do
banheiro dela.
Neste dia, Maria ligara pra ele.
Implorando o favor. E Henrique fora, tocara a campainha. Até que ela havia
aparecido, abrindo a porta.
Henrique...hã...
desculpe pelo incômodo - ela estava linda, bem na sua frente. Sorrindo.
Que
nada! Me diga o problema e eu a ajudarei com certeza - ele também sorria,
um sorriso branco. Forçava os músculos do braço para que os tendões ficassem a
mostra, lembrou-se vergonhosamente.
Éé
que meu chuveiro havia queimado, lembra-se?
Ah,
sim.
Então,
comprei um novo e ele não quer aquecer a água de jeito nenhum. Tem como você me
dar um ajudinha aqui? Ver o problema de perto e tentar resolver? Sabe como é,
Ed adora tomar um banho quente e é lógico que eu também...
Hum...
O
quê?
Apenas
se tiver alguns bolinhos de chuva por aí eu aceito...
Ela
rira, mostrando as covinhas. Achara na hora que as maças do rosto dela haviam
ficado com uma coloração avermelhada.
Mas
é lógico! Achou mesmo que eu ia me esquecer?!
Agora
estava ele, dentro da mesma casa, com extremo medo - um negro de um metro e
noventa de altura. Segurando um pedaço de ferro que por acaso tinha avistado no
quintal, a procura exatamente de uma arma como aquela. O Seu Turco o guiando,
mesmo sendo ele próprio quem tinha mais afinidade com a família e logo, mais
conhecimento sobre a casa. A casa em que sempre estava lá nos fins de semana,
normalmente no crepúsculo de fim da tarde.
Com
medo.
Mas também tinha o sentido de
urgência ligado no máximo. Queria salvar Maria e o filho dela. Desde sempre se
sentia meio que responsável por aquela triste família. Por isso perguntou:
- Senhor.. Turco, não acha melhor
avisarmos a nossa chegada? E se Ed morrer antes de chegarmos? - sussurrou atrás
do velho, que ele percebia que suava.
Turco parou e se virou para ele. A
breve conversa se deu na voz mais baixa possível:
- Porra! É justamente o contrário,
burro! - recebeu um cascudo de Turco.
- Ai!
-Agora fique quieto! Deixe-me pensar
rapidamente no que vamos fazer. Não vai adiantar nada chegarmos lá sem nem mesmo
um... projeto de plano.
Continuaram atravessando com muito
cuidado, mas com passos apressados, a sala, ouvindo os berros incansáveis de Ed
no corredor onde ficavam os quartos. Henrique via o suor gelado que marcava as
costas de Turco. Percebeu que Turco também tinha medo.
(
É impossível não sentir essa... ''atmosfera de horror'' )
Mas,
mesmo assim, o velho se mantinha firme. Bem melhor do que ele. Que sentia algo
quase irresistível em fazer corpo mole. De fugir correndo dali, esperar até que
a polícia chegasse.
(Por
que isso?)
Por
que ele sentia tanto terror? Erma só humanos loucos, psicopatas, alguma coisa
assim que provocava aquilo tudo. O paranormal não existia. Sempre não desejara
matar uns safados daqueles com as próprias mãos? Mas...
Não sabia dizer. Não sabia
classificar aquele medo supersticioso que era forçado a sentir, sem nem mais
nem menos. O seu organismo mandava, sem o seu consentimento, cada vez mais
ondas que advertiam do perigo iminente, crescente. E ele não compreendia o que
era aquele perigo, tão aterrorizante.
25
Quando
chegaram na entrada que dava para o corredor, Turco ouviu Ed dizer:
- ME MATE!
E seu velho corpo tremeu por
inteiro, sentindo a brisa matinal gelada em contato com as costas suadas. Então, viu o corredor sangrento e fez um
esgar.
- Henrique! - fez sinal com a mão
pra ele se aproximar. Os berros estavam muito altos.
- Que foi?
- É o seguinte, o que quer que
esteja acontecendo lá, nós vamos impedir... Eu não sei como, mas nós vamos
impedir...
Henrique fez uma cara de dúvida.
- E O que mais? Qual o plano?!
- Eu não sei, cara. Não pensei em
nada.. eu só quero...
(
Sair daqui )
-
...
ajudá-los o mais rápido possível. Não aguento mais.
- Eu também não...
Turco olhou para a espingarda e seu
estômago congelou. Se errasse o tiro? Acertasse Maria ou Ed? Aliás, quem tinha perdido tanto sangue
naquela merda?
- Senhor Turco, não acha melhor
irmos... já?
- Sim, sim. Apenas se lembre de que,
quem quer que estiver lá, nós vamos pegá-lo!
Henrique acenou afirmativamente com
a cabeça, o rosto sério e cheio de apreensão fitando o corredor.
- Continue atrás de mim - disse
Turco se movendo com calma até a porta entreaberta. - É logo ali, apenas alguns
metros.
Pelo quarto de Ed, Turco via o alvorecer
lançar sua luz sobre o corredor. Era uma luz cálida, que o fez se sentir um
pouco mais confiante. Chegara a terrível conclusão de que Maria estava morta.
Todo aquele sangue teria causado uma hemorragia, era lógico. Embora o sangue
pudesse ser de Ed, ele duvidava com uma certeza sinistra. Também, afinal, onde
estavam os gritos dela? Não seria de se supor que gritaria pelo filho?
Bufou de ódio, mas sem perder o
medo.
- É a hora - disse suando cada vez
mais, três passos até chegar à porta.
- Sim.
E então, um súbito silêncio se
instalou dentro do âmbito. Os gritos cessaram. O coração de Turco começou a
bater mais forte. Até mesmo olhara para Henrique com um rosto horrível, cheio
de medo, que iria assombrar o vizinho talvez mesmo depois da sua morte.
Acelerou o passo e, com o cotovelo, abriu a porta com tudo.
26
Vira Ed segurando uma faca,
apontando-a para o próprio coração. As mãos tremendo como se tivesse Parkinson,
mas elas conseguiriam completar seu objetivo se não tivesse pulado sobre o
garoto, enquanto Henrique fora direto cuidar do sujeito psicopata - embora
aparentemente tremesse mais que Ed.
Ele sentia o peso espiritualmente
bizarro que o lugar fazia. Havia olhado também, em relances, Maria morta sobre
a cama. O rosto terrivelmente desfigurado. Nua como viera a terra. Batera a
cabeça na perna de uma mesa quando tinha pulado sobre Ed e ficara inconsciente
por apenas alguns segundos, julgava no máximo 10. Entretanto, sentia que ficara
desacordado durante longos e irremediáveis minutos.
Quando acordou, fitou Ed que fazia
uma careta abominável. Massageando as têmporas sem parar, como se fosse um
viciado; louco. Ainda meio desacordado, ouvia bem ao longe algo parecido com
uma sirena de polícia. Um som que foi ganhando certeza enquanto a lucidez
voltava. Mas também havia o som de coisas se quebrando e de gritos viris.
- Ed... pare.. pare... O que você
tem, garoto?
Turco ouviu de Ed apenas resmungos
inteligíveis como resposta. Conseguiu se por de joelho e foi para perto do
garoto. Ficaram face a face. Turco sorriu com esforço.
- Não há nada que temer... mais...
Vamos resolver isso. Até mesmo a polícia chegou, não está ouvindo?
Ed não parou de massagear as
têmporas. Turco suspirou. A lucidez estava quase completa, mas ainda sentia-se
dolorido e tonto. Uma parte da cabeça, acima da orelha esquerda, latejava com
uma dor pungente.
- DESGRAÇADO! - berrou uma voz. E
depois veio o som de porcelana se quebrando.
- O que foi isso? - murmurou, talvez
com esperança de que Ed clareasse suas ideias. Mas, então, os seus olhos começaram a brilhar de compreensão. E nesse
desespero, sua ficha foi caindo. As informações vieram num jorro. Se lembrou da
espingarda e a procurou desesperadamente com os olhos. Mas não a encontrou de
maneira alguma.
- HENRIQUE! - gritou. A adrenalina
se espalhou em todo seu corpo, o dando forças suficiente para poder levantar.
Meio bamboleando, correu até o corredor, onde viu que um cara nu e seu vizinho brigavam. Era uma piada aquilo?
Não.
Viu
o estranho e sentiu aquele mesmo medo
desconhecido novamente. O medo que não sabia explicar. Emanando do louco como
um odor fétido e pesado.
Turco via Henrique se debatendo sob
o psicopata. Via o maluco nu com o seu membro viril ereto, roçando no corpo do
amigo. Mas o mais estranho, com toda certeza, era que nada estava realmente acontecendo entre os dois. O
assassino só estava em cima de Henrique, sem fazer nada, apenas rindo sob a
máscara. Um riso inumano. E Henrique não reagia, apenas fazia cara feia, como
se tivesse tentando evitar algo.
- Ei, seu merda! - disse com raiva
Turco - e medo, logicamente.
O estranho olhou sobre o ombro e
sorriu friamente:
- Mas olha quem está aqui! Por que
você não se senta um pouco e espera até eu acabar?
Involuntariamente, as pernas de
Turco começaram a se cruzar descendo até o chão. Seu estômago se embrulhou.
-
M-m-mas que merda é e-essa?
- Nada de mais, meu caro. Nada de
mais.
Turco nunca ficara tão apavorado na
vida. A primeira coisa que passou na sua cabeça foi sobre seu amigo Chico.
Agora sentia muito, sentia por não ter acredito nele. Tinha até mesmo ajudo a
família dele a colocá-lo num hospício. Sentia
por todos paranormais que não podiam provar isso ao mundo. Porque neste momento
ele sabia que tudo existia. Tentara afirmar si mesmo que não era nada real. No
entanto...
...não era tão cego. A coisa era
mesmo real.
-
Bom, parece que você não é tão burro como os demais, hein?! Aliás, daqui a
pouco você poderá se levantar. Deixe-me terminar aqui com seu amigo, tenho uma
surpresa para você, logo mais verá.
- O-o que você está fazendo com ele?
- disse, com receio. O coração parecia que ia pular da boca. A textura do mundo
parecia surreal e muito real ao mesmo tempo.
- Apenas melhorando ele, caro amigo.
Melhorando-o.
Agora pensou com seriedade. O que
aquele louco fazia com Henrique? Apenas em cima dele?
(
Melhorar...)
Melhorando
ele.
-
Pode se levantar, Turco. Lhe dou esse prazer! - disse o estranho, dando risos malignos.
Sentiu as pernas ganharem novamente
sua autonomia e suas forças. Continuou sentado por um momento e perguntou com
uma curiosidade insana:
- Q-qual é o seu nome?
- Meu nome? Bem, eu tenho vários,
senhor Turco. Não vai se levantar? - o estranho rodou o corpo e foi ele quem se
levantou, fitando Turco com olhos brincalhões e psicodélicos. O corpo magro e
seu membro viril rígido, com aquela máscara de ladrão, mais apropriadamente
parecida com um capuz de algoz.
- Espere... m-m-me diga um deles,
por favor.
- Mas que tanta curiosidade é essa?
- deu um riso alto e cortante. - Pode me chamar de André. Um nome que usei
recentemente, embora isso não lhe importe e também não faça diferença.
''Sinto dizer-lhe, meu caro, mas
daqui a pouco estará morto! HAHA''
André...
André
(
O que está acontecendo comigo? )
Turco
fitava os olhos de ''André'' com avidez. Sentindo-se em uma realidade paralela.
Houve um baque na porta da frete da
casa. O barulho de policiais invadindo.
- Chegou minha hora, caro amigo. Mas
não tenha pressa, a sua chegará logo mais! - e rindo, o estranho saiu correndo
nu até o quarto de Ed, onde fugia pela janela.
27
Alguns tiras chegaram até aquele
corredor. Um deles se pronunciou com impaciência:
- Para onde? Por onde ele foi? -
perguntou para o velho retardado que estava sentado no chão cheio de sangue.
- Eu... não.. - Turco voltou um
pouco ao mundo real - Por lá - apontou desajeitadamente para o quarto de Ed.
Os cinco policiais que estavam
dentro do recinto se projetaram em direção para lá, quando, subitamente, o cara
deitado no chão que parecia estar morto - saindo sangue de sua boca - se
levantou, como um zumbi.
- Não - o morto-vivo disse numa voz
inumana.
Os tiras pararam de andar,
paralisados. Com o medo crescendo dentro de seus peitos. Um medo anômalo. Então,
quem antes era chamado de ''Henrique", numa força e rapidez como o do super-homem, empurrou os policiais
contra a parede. Afundando literalmente as suas cabeças nela.
Turco observou quieto aquilo...
André...
Uma
mão subitamente atingiu seu rosto e o fez bater a têmpora contra o batente da
porta do quarto de Ed. Logo depois, ''Henrique'' também caiu, como novamente um morto.
Chegara a hora.
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