segunda-feira, 19 de maio de 2014

Amarelo

As lenhas crepitavam dentro da lareira, num clássico cenário onde se contam histórias. Histórias que possuem personagens, narrador, clímax. Todos ficam sentados, ouvindo o narrador atentamente, se projetando naquele universo. Vivenciando o susto, o medo, a felicidade da personagem.
Ali, na sala de Seu José, não era diferente. Várias pessoas ocupavam-na - alguns até mesmo não eram da família - para ouvi-lo contar suas histórias. Independentemente de quem eram, se aglomeravam onde tinha espaço - no sofá, no chão, de pé, -, um sentindo o cheiro do outro, um aquecendo o outro. Mas, não se importavam, pois eram pessoas da roça, e acima de tudo, um povo hulmilde.
José estava de pé. Era um velhinho magricelo, já na casa dos sessenta e poucos anos.
- Aqui está seu banquinho, Seu Zé - disse um moço novo.
- Obrigado - ele agradeceu, pegando o banquinho e o ajustando ali na frente da televisão. Tinha um sorriso melancólico no rosto. Parecia triste e diferente.
Assim que se sentou as pessoas o aplaudiram. Ele viu os rostos felizes, os sorrisos, todos prontos para uma boa história. Então, se forçou a sorrir também.
- Que histórias teremos hoje? - alguém gritou.
Todos acenaram com a cabeça, como se esperassem igualmente a resposta.
- As do mesmo tipo, terror. Porém… - começou José.
Ovacionaram novamente, com mais ardor.
- … porém, está vai ser a última vez - terminou em tom resignado.
Subitamente, todos ficaram quietos.
- M-mas por quê? - meia dúzia de pessoas perguntaram, quase ao mesmo tempo.
- Porque… - deu uma pequena pausa, como se estivesse pensando. - … minhas histórias acabaram. Pelo menos as que têm enredo, as que são interessantes.
José sentiu um aperto no coração quando pode observar o semblante triste de cada um que estava na sua frente. As crianças, o que mais machucava nele eram as crianças. Odiava cortar tão bruscamente o barato dos outros, mas achava que era preciso. Precisava deles assim, sérios.
- Como assim? - perguntou um homem. - Por que isso… tão de repente? - seu sotaque caipira era acentuado.
Se ajeitou mas um pouco na cadeira e coçou a barba branca.
- Quero terminar com isso hoje… venho preparando vocês, a cada dia como esse, para essa história, a última. Já estou velho e daqui a pouco talvez morra, então, quero passar essa adiante.
“ Espero que façam dela o melhor.”
Algumas pessoas se sentiram incomodadas.
- Afinal, você nos usou para isso? Acreditar em você neste momento? - uma moça disse, num tom acusatório. José tentou procurar quem era - pela voz parecia que era da cidade - com a visão que tinha do banquinho, mas não a achou.
- Não posso dizer que não - respondeu. Começou a fitar cada um que estava na sua frente, sem piscar os olhos. - Contudo, posso dizer que adorei entreter vocês por esses longos e prósperos anos que se passaram. Sei que vocês gostam de mim, assim como eu de vocês.
A maioria sorriu para ele, retribuindo o elogio, sentindo a nostalgia de outros dias como aquele - os dias das histórias de Seu José.
- E foi verdade quando disse que não há mais histórias para contar, exceto essa que contarei hoje, é lógico. Se tivessem outras, eu manteria esse nosso evento, sem dúvida nenhuma.
A família Coelho, a qual José conseguia ver muito bem de onde estava, parecia incomodada em seus assentos, e ,curiosamente, todas as mulheres da família usavam roupas em tons de amarelo.
- O que posso dizer? Eu quero realmente que acreditem nessa história. Quero desabafar, tirar isso do meu peito antes… antes da minha morte.
- Pai! - sua filha de 23 anos gritou, ela estava lá atrás, de pé. - Pare de falar asneiras, o senhor está jovem ainda, não vai morrer tão cedo!
- Não, talvez não vá mesmo. Mas, quem pode enxergar o amanhã?
Tossiu e continuou a falar:
- Além do mais, isso eu preciso contar para todos daqui. Ninguém ouviu essa história. É um mistério da humanidade. Algo que deva ser buscado a solução.
Todos estavam quietos, prestando atenção nele. Era isso que desejava.
- Enfim, mais alguma pergunta? Posso começar?
Ninguém se pronunciou. Conseguira a atenção de todos.


Como todos sabem, tínhamos um amigo chamado Johan. Desde minha infância conhecia-o, e logicamente, estava no nosso grupo de moleques - até mesmo depois, quando adultos. Johan tinha um… digamos, poder sobrenatural. Já havia dito a vocês sobre isso - e quem não quiser acreditar, não acredite -, mas, quando ele tocava em qualquer coisa que fosse, podia dizer e ver tudo o que já acontecera com aquilo. Se não me engano, algo denominado “psicometria”. Mencionei e contei aqui várias ocasiões em que presenciei tal poder. É algo interessante e ao mesmo tempo medonho de se ver.
Enfim, quando nosso grupo de amigos foi pra cidade, Johan passou a trabalhar como policial. Ele era um cara forte, robusto e austero - aliás, às vezes chamávamos ele de pimentinha, porque ficava muito vermelho no sol e tinha pavio curto -, se dava bem no trabalho. Mas, como vocês podem prever, ele ascendeu-se muito rapidamente, não porque era forte, mas porque resolvia um caso em questão de segundos com sua habilidade natural. Ficou até mesmo muito famoso na cidade. Ainda bem que Johan era um cara inteligente, sabia “equilibrar” essa sua fama, para que não ficasse conhecido mundialmente - pode soar um pouco absurdo, mas tenho certeza de que se quisesse, conseguiria - , e coisas estranhas acontecessem com ele. Graças a Deus nunca contou a ninguém da cidade sobre seus poderes também.
No nosso grupo tinha cinco caras, contando comigo. Um deles - que se relaciona terrivelmente com essa história - era Caio. Um cara mais reservado que os demais. Para vocês terem um noção, nunca tínhamos ido na casa dele quando mudamos para cidade. Ah, e a casa era só dele, imagina só! O resto de nós morávamos juntos, dividindo o aluguel. Não sabíamos como ele tinha uma casa só dele, ainda trabalhava na mesma fábrica que eu e Sebastião! Johan ia se mudar, mas aí era porque ele tinha uma garota e já ganhava dinheiro suficiente como tira. Bem, de qualquer forma, conhecendo Caio desde criança, eu compreendia como ele era. Provavelmente deveria morar num casebre de merda, só pela privacidade. Sempre na dele, mas não menos bagunceiro quando estávamos juntos!
O que eu podia pensar? Caio sempre fora um ótimo amigo…
Então, chegou um dia, já há dois anos que morávamos na cidade, que Johan perdeu sua noiva! Aquela mesma garota que ele comprou uma casa para morarem juntos! Iriam ter uma família e tudo mais… Ela fora assassinada. Lembro-me de que Johan ficou louco, possesso. O delegado queria o afastar do caso, dar descanso para ele. Mas, não teve como mantê-lo longe, Johan amava-a, os dois iriam se casar dali a alguns meses.
É com pesar que lembro dele cheio da fome de vingança, e eu fiz tão pouco para impedi-lo quando foi para casa, me contar o que acontecera, falar que estava indo para cena do crime! Talvez tudo tivesse sido muito diferente, se eu tivesse o impedido. Contudo, acompanhei-o, dividindo um pouco de seus sentimentos.
Quando chegamos no local, senti aquele gelado que domina a barriga, também conhecido como aflição ou angústia. Sua noiva - Júlia - tinha sido encontrada num beco na periferia da cidade. O lugar fedia e era opressor. Vimos aquela famosa faixa amarela da polícia, restringindo a cena. Johan conseguiu passar, mostrando o distintivo para alguns outros policiais que estavam ali, e fez sinal para eu segui-lo. Ele parecia acabado, morto. Estava mais pálido do que nunca.
Seguimos em frente até aquele monte de trapos que devia ser sua noiva. Naquele momento, tinha perdido um pouco da coragem e disse para meu amigo:
- Johan… você não acha melhor, não tocá-la?
Ele olhou para as mãos. Elas tremiam.
- E-eu preciso, Zé.
- Cara, o que você vai ver pode ser muito forte…
- Duvido que faça eu piorar.
Não tinha resposta para aquilo, e deixei ele seguir seu caminho. Fiquei parado, olhando-o a uns vinte metros.
Johan ficou observando-a durante um longo tempo. Chorava como um cão ganindo. Algo extremamente humilhante, para uma pessoa como ele. Sempre fora o mais forte de todos.
Eu pensava no que podia dizer ou fazer por ele, sem muito sucesso.
- Qualquer coisa, me segure - Johan disse de repente.
Demorei um pouco, mas entendi. Iria tocá-la.
- Tudo bem - foi a única resposta que encontrei.
E então, Johan estendeu a mão direita para toca… tocar os trapos que um dia foram sua noiva.
Sua mão fez o contanto, sujando-se de sangue.
Meu bom Deus, não podia ter nos mostrado de um outro jeito a verdade? Tinha de ser mesmo daquela forma?
Johan gritou, se debateu, e arranhou o próprio pescoço.
- Johan, pare! - disse, me aproximando dele.
Ele fez um gesto para me afastar.
- FOI O CAIO, FOI ELE! NÃO! MISERÁVEL!
Começou a correr na minha direção, a única saída disponível, já que era um beco. Mas, não o deixei me atropelar, como havia prometido, o segurei com todas a forças com os braços. Abracei ele, enquanto ainda se debatia. Era forte como um touro! Mas consegui segurá-lo.
Johan ainda vociferava o nome de nosso amigo, Caio. Cuspia o nome dele no meu rosto.
Podem imaginar quanto não foi minha surpresa? Minha dor no coração?
Não, não podem.



A partir daquele dia, nunca mais vimos Caio outra vez. Sua sombra pairava sobre mim, e invadia meus sonhos, transformando-os em pesadelos. Johan teve de fazer terapia, à força. Até mesmo fora internado. Desejara continuar no trabalho, resolver o caso de sua mulher, mas não pode.
Não tinham encontrado o assassino até então, e Johan já estava em casa - fora para a nossa, novamente, a outra casa iria vender. Então, passara a investigar sozinho, contrariando as ordens do delegado. Cada evolução que tinha, me contava. Passei a odiar Caio, querer também saber onde estava, querer… matá-lo. Até mesmo ajudava às vezes Johan nas sua investigações.
Entretanto, no fundo, ainda amava Caio. Ele fora um bom amigo e eu o amava… mesmo tudo indicando que não.
Júlio e Sebastião, nem queria saber daquilo, passaram a desacreditar de Johan, chamavam-o de louco. Eu via que eles não queriam acreditar que nosso amigo íntimo e de infância havia feito aquilo - matado a noiva de Johan. Nunca culpei-os por isso, se eu não tivesse visto o beco, a reação do meu amigo quando tocou a mulher, também não ia querer acreditar - embora sempre considerasse os poderes de Johan reais. Então, o taxaria de louco, como eles estavam fazendo.
Eu sempre fora o que mais gostava de Caio.
Quando tudo parecia começar a ir bem - nós nos esquecíamos do Caio - Johan chegou em casa, e parou nossa jogatina de baralho.
Estava agitado e com um sorriso no rosto.
Já sabia o que era.
- Ei, eu o achei! - ele disse.
Sebastião parou de dar as cartas e perguntou:
- Achou o quê?
Johan sacou a arma das costas e começou a olhar o cano metálico com fascinação. Estava realmente insano nos últimos dias.
- Bem, o que mais poderia ser? O ninho do rato!
Foi um conflitos de sentimentos dentro de mim. Só sei que essa luta interna com eu mesmo foi interrompida quando Sebastião se levantou.
- Johan, você está louco! É melhor não fazer nad…
- Não fazer nada?! - Johan gritou, a arma estava carregada na sua mão, acompanhando seus gestos. - Olhe para você, Sebastião, sendo um covarde como sempre foi - disse com desdém.
Sebastião, tomado pela adrenalina, iria para cima de Johan, se eu não tivesse o segurado. Todos nós tínhamos nos levantado, a pequena mesa onde o jogo acontecia, tombou e as cartas rolaram pelo chão.
- Ora, seu merda! - gritou Sebastião para Johan.
Eu o segurei com mais força.
- Se acalmem, porra! Vocês são amigos ou não? - disse.
Johan ficou um pouco vermelho, mas, mesmo assim, recuperou a postura anterior e disse:
- Então, quem vai ser meu amigo para ir até lá?
- E você pretende fazer o quê? - disse Júlio.
- Apenas tirar satisfações.
Sebastião se impulsionou para frente de novo, tomado pela fúria, mas consegui segurá-lo mais uma vez.
- Relaxe, amigo - disse Johan. - Por que não vamos todos, e vocês, qualquer coisa, me segurem? São três contra um.
Ficamos quietos.
- Sabe o que isso parece para mim? Parece que vocês têm medo! Medo de ver a verdade! Enxergar o que deve ser visto!



Assim, nós fomos, todos juntos. Fui dirigindo meu carro enquanto Johan ia na frente comigo, me dizendo qual caminho pegar. O lugar ficava numa cidade próxima, chamada Aimara, ainda na região de Campinas. Júlio e Sebastião estavam quietos, não pareciam gostar muito daquela ideia. Ainda sinto por eles. Mas o que eu ou eles podíamos ter feito? Johan dissera a verdade, não queríamos acreditar.
- É aqui - disse Johan, apontando para um casarão meio afastado, no meio do nada. Ainda nem tínhamos chegado na cidade de fato.Só havia mato e a estrada de terra, sem nenhum outro veículo circulando por ali. Me senti um pouco em casa, voltando para o campo.
- Tem certeza? - perguntei, já sabendo a resposta.
Ele nem me respondeu, apenas esperou o carro parar e abriu a porta, saindo no carro. Deixou eu, Sebastião e Júlio sozinhos.
- Por que estamos fazendo isso, Zé? - perguntou Sebastião, parecia bem triste. - Agora ficamos loucos como ele? - disse desdenhosamente.
Naquele momento, me cansei um pouco de Sebastião, de mim mesmo.
- Faça o quiser. Eu vou fazer o que tem de ser feito - tirei o cinto-de-segurança e abri a porta do carro.
- E o que ter de ser feito? - Júlio perguntou.
Me virei para os dois.
- Nem por um momento vocês chegaram a se questionar?
Ficaram quietos.
- Por quê? Por que o Caio do nada some, exatamente - enfatizei a palavra - após o assassinato da Júlia? Hã?
- Mas el… - começou Sebastião.
- Mas nada! - me enfureci, a fúria também era comigo mesmo, embora descontasse neles. - Não lembram dos poderes dele? - apontei para johan. - Não lembram das vezes que ele pegava nas calcinhas das garotas? De quando colocava as mãos em alguma coisa que VOCÊS pediam? E via tudo, contava tudo?
Júlio ficou parado e Sebastião engoliu em seco.
- Repito, façam o que quiserem!- sai do carro e bati a porta com tudo, mas deu tempo de ouvir Sebastião mandar eu ir a merda.
Johan ouviu o barulho e olhou para mim. Ele fumava.
- E aí, eles vêm ou não? - jogou o cigarro no chão e macetou ele com o pé. Acendeu outro.
- Não sei, acho que não - respondi. - Tem mais um cigarro?
Não fumava fazia um ano, mas achei bem propício naquela hora.
Ele acenou com a cabeça e me deu o que acabara de acender. Agradeci. Tirou o maço do bolso e pegou outro cigarro para si. Acendeu-o.


Como tinha previsto, Sebastião e Júlio ficaram no carro. Eu e Johan nos aproximamos do casarão, andando pela grama alta e desviando de galhos caídos e das raízes de árvores. A casa grande emanava um aura irreal, que fazia você se sentir em outro mundo. Parecia as típicas mansões mal-assombradas de filmes. A fúria e adrenalina que tinha sentido outrora estavam se atenuando, dando espaço para o medo.
Mas, o pior, era o cheiro do lugar! Diabos, fedia como naquele beco onde a noiva de Johan fora assassinada! Porém bem mais forte.
Quando chegamos perto o bastante do casarão, subimos a escada para o estrado, onde ficava uma grande porta na frente. Ouvíamos guinchos e movimentos de ratos.
- E agora? - eu disse. Me envolvi com os próprios braços - a mão com o cigarro ficou em meu ombro - sentia bastante frio ali.
Coloquei o cigarro novamente na boca e soltei a fumaça ao mesmo tempo que Johan. Contudo, ele foi o primeiro a jogá-lo no chão e pisar.
- Batemos na porta? Procuramos uma campainha? Ou…
- Nada disso - ele me interrompeu. - Vamos entrar na surdina! Pegar o safado no flagra com alguma coisa!
Mesmo não querendo, me forcei a se livrar do cigarro.
- Mas, e essa porta? Está aberta? - perguntei.
- Não sei, vamos testar.
Fomos mais próximo dela e Johan deu tapa na minha mão quando fui pegar na maçaneta. Ele queria abri-la. Sua mão estava nua, sem luva. Demorei, mas entendi que queria usar de seu poder.
Estendeu a mão e me olhou.
Não adiantava questionar, aquiesci com a cabeça.
Johan tocou na maçaneta…

Ele se afastou e esbarrou em mim. Sua expressão era de como tivesse comido merda. Jogou a cabeça para trás, parecia segurar um grito.
- O que foi? O que você viu? - eu disse, alarmado.
- Ah, meu Deus! Que nojo! - seus olhos lacrimejaram.
Afastou-me com os ombros.
- Nada - inspirou e expirou profundamente -, nada de mais - suspirou. - Por que sempre o mesmo amarelo? - não tinha entendido essa parte. - É aqui mesmo, vi ele abrir a porta. O estranho é que ele a abriu uma única vez.
Senti que estava tenso demais, tentei relaxar:
- Droga, Caio… seu merda…
Johan me observou com olhos furiosos. E eu disse:
- Não é melhor colocar as luvas? Tocar em tudo o que há lá dentro vai ser meio difícil.
- Quer saber? Por que você não volta e fica com aqueles merdas? Já que gosta tanto assim desse seu amigo.
- Ele era meu amigo, Johan. E era seu também.
- Era o caralho!
- Era sim. Mas, não importa, vamos resolver isso juntos!
Ele ficou quieto.
- Qual é o seu plano? Você quer mesmo matar ele?
Johan deu um sorriso sarcástico.
- Sim. Eu quero matá-lo.
Então, eu disse:
- Coloque as luvas, meu amigo.


Me aproximei da porta um pouco mais e girei a maçaneta velha. A porta rangeu terrivelmente. Meu coração quase saiu pela boca.
- Tome mais cuidado, porra! - Johan exclamou em tom extremamente baixo. Estava acabando de ajeitar a luva de couro.
- A culpa não foi minh…
Me silenciou com o dedo, e fez sinal para prosseguir.
Entramos na escuridão e horrível fedor. Os guinchos de ratos ficaram mais altos, até mesmo alguns saíram pela porta que ficara aberta. Não fechamos-a porque um pouco de luz iria iluminar o caminho até certa parte. Mas, não tinha nada ali, onde a luz chegava. Sem nenhum móvel ou decoração, apenas a madeira velha e quebradiça do assoalho. Talvez fosse uma espécie de vestíbulo.
Seguimos em frente, pois mais adiante havia um salão, entregue a quase total escuridão - se não fosse m os lugares em que a madeira estava quebrada, e um ocasional raio de sol passava, seria o breu completo. Dava para ver já a grande escada que levava até os cômodos superiores. O lugar era mesmo grandioso! Apesar de estar totalmente entregue à sujeira e aos ratos.
- Johan… você acha que ele ouviu a porta ranger, e se escondeu? - falei ao pé de seu ouvido, num tom baixo.
- Mas é lógico! - respondeu da mesma forma. - Mas, não tem problema, posso achar ele bem facilmente. Mostrou suas mãos enquanto sorria.
Naquele momento, sem nenhum motivo específico, desejei estar em casa.

Quando chegamos no salão de fato, a luz do dia mal chegava até lá. Várias madeiras velhas, vidros, e porcelanas estavam espalhados pelo chão. Tudo quebrado. Talvez um dia tivessem sido um ótima decoração.
O medonho, era os vários ratos mortos pelo chão. Seus cadáveres fediam demais. Os pequenos corpos abertos, as tripas saindo e o sangue seco banhando o chão. E, em todo espaço de parede, havia desenhos e mensagens, tudo sem completamente nenhum significado que eu sabia, mas igualmente horroroso, senão mais.
CARCOSA
REI AMARELO - YELLOW KING
Essas eram umas das mensagens mais frequentes. E em certos pontos existiam citações ao famoso livro Necronomicon - a única coisa que já tinha ouvido falar. Mas, nada fazia muito sentido. Havia criaturas que eu nunca poderia achar que uma pessoa pudesse conceber: monstros cruéis com chifres, outro que tinha uma boca coberta por tentáculos de polvo, um que o corpo sem articulações inteiro era preenchido por olhos fechados e aberto. Uma infinidade de criaturas desenhadas em tom sombrio.
- Que merda de lugar é esse? - Johan perguntou-se, parecia aterrorizado.
A atmosfera do lugar estava cinza e escura.
Amarelo.
Continuamos a seguir até a escada.
Johan havia dito que queria tocar no corrimão e era por isso que íamos para lá - além da sensação de obviedade. Antes de chegar, não sei por ele, mas eu fiquei virando a cabeça em todos os sentidos, visualizando os horrores. Tudo emanava um aura irreal… eu diria cósmica. Me estremeci vendo uma caveira grandiosa desenhada no teto, na cabeça tinha uma coroa de ouro.
Como se não bastasse, acabei quase tropeçando em um rato. A coisa era gigante, tinha uns vinte centímetros de comprimento facilmente. O rato guinchou tão alto - pelo menos para mim - que quase saí correndo pelo caminho de volta… se Johan não tivesse me segurado.
- Não consegue simplesmente ficar quieto?! - ele disse, raivoso, controlando a voz.
Eu ia comentar alguma coisa…
- Por que voc…
…quando houve um barulho, assustadoramente alto, atrás ou em baixo da escada. Parecia vidros e máquinas que quebravam. Me perguntava onde aquele desgraçado do Caio estava e o que estaria fazendo.
Nós paramos de andar e ouvimos o silêncio que se seguiu.
Johan chegou bem perto de mim e disse:
- Acho que esse filho-da-puta está num porão, ou qualquer porra assim.
Confirmei com a cabeça, ainda meio assustado. Apontei para o lado esquerdo da escada. Tinha uma espécie de pequena porta ali, uma entrada em grades de ferro, talvez fora uma masmorra.
Vi seus olhos brilharem quando acompanhou com a cabeça na direção que eu apontava. Afinal, Johan pouco se importava para aquilo tudo, apenas queria sua vingança.
Começou a andar novamente, e puxou meu braço que ainda segurava, como que para me guiar.
Me livrei dele e continuei o seguindo.
Mas que merda tinha na cabeça? Está certo que não sabia o que tinha por vir…

Meu olhar sempre voltava para as palavras CARCOSA e YELLOW KING. Essas palavras despertavam minha curiosidade, e minha angústia. Me davam fascínio!
Ainda que a passos lentos e trêmulos, chegamos perto da pequena entrada. Nada se via dentro, apenas escuridão. Tinha de estar com as costas curvadas para ficar ali, do lado esquerdo da escada.
- Meu Deus, é daí que vem o fedor! - disse.
- Sim - ele confirmou, pouco ligando.
Tirou as luvas, iria tocar na grade.
Olhou para mim e sorriu.
- Faça o que bem quiser - eu disse.
Percebi, no ato em que ele fazia de estender o braço, que tremia bastante. Provavelmente sentia o mesmo medo, misturado ainda com o que vira naquela vez que tocou sua mulher. Nunca perguntara para ele o que vira, mas aquilo o tinha deixado insano, com toda certeza.
Então, tocou…

… e se eu não tivesse posto minha mão na boca dele logo em seguida, teria saído dali o grito mais alto que qualquer homem já deu. Mesmo assim, abafado, foi alto o bastante. Vi nos seus olhos o terror. O simples e puro terror.
Num segundo, Johan se largou das minha mãos e me envolveu com os braços. Estava me abraçando, sem nenhum motivo que eu compreendia.
Ele chorava:
- T-t-temos que s-sa…
Subitamente, duas mãos cravam nos seus pés como alicates firmes. Elas saiam da entrada, através dos espaços de uma grade para outra.
- NÃO! NÃO! - ele gritou. Seu terror, medo, eram palpáveis.
Comecei a puxá-lo com toda força que tinha, desesperado. Mas, aquelas duas mão sujas, encardidas e em carne viva, o puxaram com mais força para baixo.
Tive a terrível certeza de que era Caio. Vi seu sorriso de sempre brilhar na escuridão da masmorra.
- MEU DEUS! ME SALVE, AMIGO!
- ESTOU TENTANDO FAZER O POSSÍVEL! - berrei. - ARRRGH!
As duas mãos de Caio deram um puxão numa força tão incrível e onipotente que eu caí no chão, e Johan bateu a face com tudo no solo. Talvez já tivesse morrido ali mesmo. Logo, a coisa o começou a arrastar, a afunilá-lo pelas pequenas hastes de ferro enferrujado.
As grades se quebraram.
- NÃO! AGUENTE FIRME, JOHAN! - tentei puxá-lo com toda minha força pelas mão que escorregavam no chão, os tendões de meus músculos trabalhados na roça apareceram. Contudo, nada, nada aconteceu.
O demônio conseguiu puxá-lo de tudo, só restava a mim.
- NÃO FAÇA NADA COM ELE, CAIO! - gritei com todas as minhas forças, batendo as mãos na parede.
Como resposta, eu ouvi o som inconfundível de carne rasgando. Um som alto e explícito demais, provavelmente tinha-o aberto no meio só com as mãos! E ele o comia, tenho certeza! A coisa morria de fome!
- JOHAN! - gritei mais uma vez.
Então, eu corri. Corri para sempre enquanto novas mãos obstruíam o assoalho, milhares delas.







- Essa é a história - concluiu José, após uns minutos de completo silêncio.
Todos estavam ainda paralisados, com olhos arregalados, tentando engolir tudo.
- Mas, é assim? Assim que termina? - perguntou uma moça, na segunda fileira dos que estavam sentado no chão.
- A história, história mesmo, termina aí.
Deu mais uma vez aquele sorriso melancólico, que fora tão comum durante toda sua narrativa.
- E o que aconteceu depois?
José coçou a barba.
- Se você quer saber…



Quando saí do casarão - consegui sair, é claro, vocês ainda podem me ver aqui - dei no pé o mais rápido que pude, sem me importar com Johan, de início. Sebastião e Júlio ainda estavam lá, pálidos pelo que pude observar pelo retrovisor. Saímos correndo de lá. Como um trovão. Só mais tarde percebi que havia deixado meu amigo, deixado-o morrer sozinho.
Desde aquele dia, nunca mais ouvi algo sobre Caio ou Johan. Os dois haviam sumido do mapa, e ninguém parecia se importar. Era mesmo estranho que nem mesmo o delegado fora perguntar a mim alguma vez sobre Johan.
Nosso grupo se separou e se dispersou. Nenhum deles quiseram acreditar em mim, então eu mesmo dera o pé deles. Ainda amo-os, pensando hoje em dia, mas na hora os odiei.
Passei daquele tempo, até hoje, investigando sobre isso. Sobre o Yellow King, sobre Carcosa. Virei um insano… como Johan tinha virado. E para ser sincero, a única coisa definitiva que encontrei estão em livros velhos, classificados como ficção. Um deles tem o nome de The King in Yellow, de Robert W. Chambers. Mas, tudo o que está escrito na maioria desses livros é muito subejtivo. O mistério absurdo ainda caminha sobre as páginas.
Enfim, eu peço que vocês acreditem em mim, por favor. Nem mesmo minha família sabia disso. Não queria que ninguém do mundo vivesse essa loucura. Mas, depois de tanto pensar, acho que todos nós - todo o planeta terra - tem de saber disso, procurar solucionar esse mistério, a verdade do universo.
Vocês, jovens com mais coragem, talvez possam ir sem medo para aquela casa novamente. Nunca tive coragem suficiente para voltar. Acho que é lá que estão as verdadeiras provas…
Hoje eu revelei isso para vocês… Espero, como no Matrix, que escolham a pílula certa, a vermelha.



- Alguma pergunta? - ele disse. Olhava com dor no coração para as crianças que estavam ali, embora achasse que elas não haviam entendido nada.
Todos demonstravam silêncio.
- Se não quiserem acreditar… tudo bem. Mas peço, que por favor, façam um esforço…
A família Coelho se levantou. Estavam em dez, cinco homens, cinco mulheres. Era ainda curioso ver as roupas todas amarelas das cinco mulheres.
- Senhor… - começou Marcos Coelho, o chefe e ancião da família Coelho.
- José, José Amorim - respondeu Seu Zé.
- Isso, claro - seu sorriso era malicioso. - Sr. Amorim…
Os outros quatro homens da família foram para porta, para a saída. Todos eram fortes e robustos. José ainda não compreendia.
- …era melhor você ter ficado de boca fechada.
Mãos saíram do assoalho, e a matança começou.




3 comentários:

  1. Cara, eu vou elogiar esse conto, mas não leia esse elogio como você costuma ler os outros... Preste bastante atenção nele.

    Eu leio muito. Muitos livros. Leio clássicos, leio best sellers. Aprecio a leitura e sei classificar uma boa história.

    Esse conto está entre os melhores contos que já li. Tem MUITA coisa publicada que possui menos da metade do valor literário desse conto. Obrigado por me proporcionar essa leitura. Desculpa pela demora.

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    1. CARA, meu Deus! Não sei como aceitar um elogio desses... mas, eu fui, digamos, "profissional", quando escrevi esse conto. Foi umas 18 horas escrevendo, revisando e reescrevendo. Escrevi ele inteiro num sábado e revisei, depois no domingo eu reescrevi.

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    2. Mesmo assim, pra mim, não ficou de todo bom. Algumas partes podiam estar melhores, eu acho. Mas, se eu for mandar para algum concurso, vou reescrevê-lo novamente.

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