Shadow
Person
Reparei que esses dias, meus dois cachorros olhavam para
um ponto fixo - sempre a noite - e não
havia nada lá. Já ouvi de outras pessoas alguma coisa parecida, mas nada assim
acontecera comigo antes: você acorda no meio da noite, e vê seus dois cachorros
olhando para a parede, fixamente. Algo pra te deixar realmente com medo. Mas,
minha mente sempre buscou a solução lógica
e depois de um tempo, passava a crer nessas soluções fielmente. Apenas
bichos; um mosquito, uma lagartixa. Enfim, quem dera eu pudesse resolver as
coisas tão facilmente como naquelas vezes.
Hoje estou assustado, a luz do meu quarto está acesa juntamente
com a luminária perto do computador. Meus cachorros estão lá fora, latindo.
Tenho pena deles, mas - pode soar egoísta - tenho ainda mais medo por mim. A
única explicação lógica é que eu esteja insano. Tento me aferra a ela, sem
nenhum sucesso. Se considerar que estou louco, é aí que realmente vou ficar. Não
querer aceitar o que vi é estar cego, o cúmulo do ceticismo.
Mesmo assim, não sei o que fazer. Minhas mãos tremem
enquanto escrevo. Meu corpo se arrepia.
Talvez seja melhor eu contar o que vem acontecendo e no
que culminou hoje.
Há exatamente um mês atrás, foi a primeira vez que vi ele. Tinha chegado do trabalho e já era
noite porque passara no mercado pra comprar comida. Minha vó e minha mãe
estavam em casa, tinham ido me visitar naquele pequeno e bagunçado casebre.
Minhas roupas estavam jogadas pela casa e meus originais escritos ocupavam
qualquer lugar que tinha espaço.
De qualquer forma, elas sorriam para mim. Eu amava as
duas e elas me amavam.
Iam dormir em casa, na passagem de sexta para sábado. Não
me importava. Aliás, isso acontecia de tempos em tempos e eu adorava comer a
comida preparada pela minha vó e a limpeza - que mesmo eu discordando sem parar
- minha mãe fazia na casinha.
Nunca cheguei a sentir nenhuma energia estranha lá, pelo menos não até aquele dia.
Quando todos iam dormir, exceto eu, minha vó foi me dar
boa noite, como sempre a velhinha fazia. Estava escrevendo algum conto na hora
que ouvi o barulho na porta.
- Pode entrar -
disse, me levantando.
Ela abriu a porta bem devagar. Percebi que a luz da
cozinha ainda estava acesa e que minha mãe terminava de arrumá-la.
Os cachorros não paravam de latir lá fora, algo normal
até aquele momento.
- Oi, Evandro.
- Oi, vó.
Tinha aberto quase toda a porta e eu a via, aquela
coisinha pequena que amava. Nós dois sorriamos.
- Por que a dona-limpa-tudo ainda está lá? - me inclinei para ver se conseguia olhar minha
mãe dali. - Fale para ela qu...
Fiquei paralisado.
- Que foi, Eva? - minha vó me chamava assim de vez em
quando. - Eu tinha um negócio importante pra te fal...
Ela também virou a cabeça e viu. Viu ele.
Uma sombra de mais ou menos 1,80 a 1,90 metros de altura.
Era a sombra de um homem, no final do corredor, onde estava minha mãe. Como se
os dois estivessem na cozinha juntos.
Mesmo com o medo supersticioso, minha mente escolheu a
explicação lógica, e eu gritei:
- Mãe?! - saí
correndo para lá.
A sombra foi se distanciando, andava ainda mais perto do
que provavelmente era minha mãe. Até que ficou fora do meu raio de visão.
- O que foi, Evandro?! - disse minha mãe, ainda mais assustada,
aparecendo onde a sombra tinha ficado.
Quase me esbarrei nela, mas deu tempo de recuperar todos
os sentidos. Graças a Deus ela estava ótima. Segurava um prato e uma pequena
toalha na outra mão.
- V-v-você não viu
nenhum homem? - perguntei balbuciando. Ainda tentava achar a explicação lógica.
Não tinha. Também não queria acreditar, mas, diabos, até
mesmo minha vó vira!
- Não - ela respondeu, suspirando. - Você está louco?
- Não... não - estava desnorteado.
Virei a cabeça para minha vó, ela estava pálida.
Depois daquele acontecimento, passei a associar ele com meu cachorros - segundo alguma
crenças os animas são mais sensíveis para este tipo de coisa.
Minha mãe e minha vó rezaram várias vezes em voz alta no
meu casebre e até mesmo outros tipos de coisa. Algo como exorcismo, para tirar
o demônio de lá.
Mesmo assim, eu vi ele
mais vezes. Não como antes, apenas um vulto que eu percebia que era uma sombra.
Talvez também possa ter sido tudo da minha cabeça essa parte, já que eu estava
mesmo acreditando que a coisa devia existir.
Mas, eu devia ter pesquisado mais, me preocupado mais. Ter
buscado alguma solução. Porque, depois de um tempo sem ver ele - só apenas aqueles vultos que comecei achar que eram alucinações
-, aquilo pegou uma certa textura de sonho e eu passei novamente para o papel
de cético.
Como pude ser tão cego! Sentia todo dia algo muito
estranho no apartamento. Meu cachorros cada vez mais latiam e fitavam um ponto
fixo, no meio da noite. Gostaria ter sido um cagão, talvez assim eu tivesse
realmente acreditado.
Então, tudo culminou hoje. Ainda me arrepio, tenho mesmo
de contar?
Sim, tenho. Escrever é meio terapêutico, embora também
seja meio esquizofrênico.
Acordei às 3 horas da manhã. Estava todo suado, tivera um
pesadelo terrível, como se não bastasse o que iria acontecer. Os cachorros
estavam quietos. O ar gelado. O silêncio da noite. Sentia a textura da cama
enquanto ofegava. Tinha sonhado com minha mãe degolando meu pai, algo horrível
de se ver. Os dois ainda eram jovens no sonho. Meu pai tinha provavelmente a
idade que possuía quando morreu. Nunca cheguei a vê-lo, fui criado pela minha
mãe e vó.
A janela estava aberta e o luar passava por ali,
iluminando um pouco meu quarto. Sentei com as costas na cabeceira da cama, tirando
a blusa. Estava pensando no trabalho, no sistema, e que dali algumas horas
teria de acordar. Como na hora quis com toda força viver do que escrevia!
De qualquer forma,
comecei a sentir o medo do desconhecido novamente. Uma ânsia gelada dentro da
barriga.
Mas o cético, o egocêntrico, nunca quer enxergar algumas
coisas, não é mesmo? Os filmes já nos
ensinaram que, aquele que não acredita, é o primeiro que vai.
Vi uma sombra, de um homem alto, passar pelo armário. Fosse
o que fosse estava lá fora, e o luar fazia dele
real.
No momento, passei acreditar em tudo. Tudo aquilo que eu
ocultava do sobrenatural em mim mesmo, explodiu. Passei a ser uma criançinha
novamente, graças a Deus, senão talvez as coisas teriam sido diferente. As
crianças estão certas quanto aos seus armários, certas quanto ao o que há
embaixo das suas cama, certas quanto ao
escuro.
Então, meus cachorros começaram a latir. Latir
ferozmente, como nunca antes. Deuses, senti meus pelos se eriçarem!
E a sombra apareceu de novo, sua imagem se projetava no
meu armário. Ficou algum tempo ali, com se me observasse.
- Meu Deus!
- Saia daqui, demônio!
Puxei a coberta, me cobrindo inteiro, só não a cabeça. Me
senti um pouco mais protegido.
Não sei como, mas senti que ele sorria, um sorriso sarcástico. Sua silhueta era enorme e
robusta, teria sido um monstro em vida humana. Apavorado, nem me dei ao
trabalho de olhar pela janela, ver se havia realmente alguma coisa. A sombra já
era mais do que suficiente.
Foi aí que ele
começou andar para frente, como se a sombra tivesse vindo ao meu encontro. Ah, como
ele foi cruel!
Perdi por um tempo os sentidos, estava totalmente
paralisado. Me forcei a recuperar, pelo
menos a voz, e mesmo não tendo religião, rezei. Rezei o pai nosso.
Mas, não aconteceu nada, a sombra ainda vinha me ceifar.
Achei que era meu fim...
...quando - graças, não a Deus, mas à invenção dos homens
- acendi a luz do quarto. O interruptor ficava ao lado da cama.
E aqui estou eu, sem dormir, esperando o dia raiar para
que possa sair de casa. Escrevo isso porque realmente não sei meu destino.
Ainda vejo ele no meu quintal. Meu
carrasco.
Vou fechar a janela e esperar aqui.
Terei
de me mudar...
Mas, talvez a sombra me acompanhe.
Gostei muito!!
ResponderExcluirEsse blog é o blog literário com a maior incidência de personagens chamados Evandro hahahahahha