sexta-feira, 2 de maio de 2014

Requiescat in pace

Quando recobrei os sentidos, me encontrei totalmente imobilizado, estirado em uma daquelas velhas camas hospitalares.
Luzes brancas fortíssimas ao meu lado agrediam minhas retinas, de modo que passaram-se mais alguns minutos antes de voltar a enxergar com clareza. Meu estômago doía e revirava, sentia enjoos e todos os movimentos do meu corpo pareciam ter sido cortados. Não conseguia sentir nem mover as pontas de meus dedos.  Quando finalmente analisei minha situação, tentei escanear mentalmente o ambiente em que me encontrava, porém, só conseguia enxergar o que estava diretamente à minha frente.
Fixado acima de mim havia um televisor, um modelo um tanto quanto atual, que parecia ter custado uma fortuna. Torpe, tentava entender o que estava fazendo ali, sentia-me leve, deslocado, tonto. Passei a imaginar se o que via era real. Porque não podia me mover?
Como mágica, o aparelho foi ligado.
Imagens de pessoas amordaçadas presas com algemas nas paredes, sustentando todo seu peso apenas com as mãos - mesmo que não parecessem pesadas, a maioria havia as costelas destacadas e a maçã dos rostos num formato côncavo devido à magreza – começaram a surgir na tela. Os gritos e gemidos sôfregos ecoavam pelo recinto.
Após alguns minutos de sadismo, a câmera parou de mostrar os corpos moribundos, e um homem corpulento dirigiu-se ao que parecia ser um homem de aparência desgraçada, com os cabelos longos sujos e desgrenhados, olheiras profundas e um olhar vazio, e desprendeu-o.
O ser caiu ao chão como um pedaço de carne, e não se moveu.
O sujeito o agarrou pelos cabelos e vociferou alguma coisa em uma linguagem que não consegui entender claramente. Naquele estado não conseguia distinguir o russo do português.
Enquanto surrava-o e grunhia, o gigante dava gargalhadas e olhava fixamente pra a tela.
Passado mais alguns minutos de tortura, a câmera voltou a se mover e seguia o brutamontes num corredor estreito e comprido. Meu coração à essa altura batia num frenesi absurdo, e a vontade de desligar o televisor e fugir dali exalava por meus poros. Pela primeira vez em muito tempo estava sentindo medo de verdade. Não podia sequer mexer a cabeça para desviar do filme, mesmo que ainda assim não houvesse como fugir do áudio.
O homenzinho foi jogado numa cadeira de ferro, e teve suas mãos e pernas atadas ao móvel, mal conseguindo manter sua cabeça erguida e os olhos abertos diante tanta fraqueza que tentava a todo o custo superar.
O gigante, de repente, sumiu da tela.
Como se me preparasse para um susto, esvaziei meus pulmões e enchi-os numa respiração profunda quase que imediatamente, como a reação de um garoto de oito anos que se aventura pelo labirinto da Samara pela segunda vez.
Porém, sua reaparição foi tão suave e repentina como seu sumiço. Desta vez, carregava consigo uma caixa enorme.
Abriu-a, e antes de tirar qualquer coisa que fosse de lá de dentro, aproximou-se da tela e esboçou um sorriso de ponta a ponta, exibindo dentes pontudos e afiados artificialmente e um rosto completamente marcado de cicatrizes e escoriações, como se houvesse participado de um combate. Havia sangue em seus dentes e roupas. Após algum tempo encarando a lente da câmera, como se pudesse enxergar minha alma na profundeza de meus olhos, ele pronunciou algo que eu consegui entender quase perfeitamente como “Sinta o perfume da carne”.
Em meu peito, meu coração bombeava terror e aflição por entre meus órgãos e sentia uma estranha queimação tomar conta de mim. Minha respiração estava cada vez mais acelerada.
A atenção agora estava novamente voltada ao ser humano franzino e moribundo na cadeira e à caixa. Dela, o sujeito macabro retirou um facão serenamente, como um pai retira o filho do berço. Desembainhou-a e dirigiu-se para trás do pobre coitado. Aproximou-se dele e parecia dizer coisas ao seu ouvido, enquanto lambia seus lóbulos e ria. Ria como louco.
E então, repentinamente, a orelha foi decepada.
O sangue escorria e enquanto um gritava, o outro quase chorava de rir. O foco foi novamente voltado ao sádico, e surpreendentemente, a expressão em sua face não era nada feliz, como sua reação sugeria. Em seu rosto, era notável a tristeza e as lágrimas a escorrer.
“Que Artemis o tenha, meu pai.”, disse.
Um turbilhão de ideias e informações sendo processados ao mesmo tempo em minha cabeça contribuía para uma confusão tremenda, mas aquilo havia sido demais. Como alguém tivera coragem de torturar o próprio pai? Porque as lágrimas, depois de uma exibição de tanta frieza? Que porra estava acontecendo, e o que ia acontecer comigo?
O pior ainda estava por vir.
A atenção voltou ao pai.
Ele parecia suplicar ao filho que parasse, mas ele não lhe dava ouvidos. Da caixa, retirou então um machado.
Enquanto um chorava, o outro juntava forças para um golpe. Gritos de desespero puderam ser ouvidos, quando um braço caiu ao chão. A força aplicada havia sido tão monstruosa que fora capaz de romper ligamentos, tendões, e ossos como se fossem feitos de areia. O sangue jorrava e novamente o monstro gargalhava.
“Perdoe-me, Alastor!”
A atenção foi dada totalmente ao aleijado, agora sem uma orelha e um braço, mas no canto da imagem podia-se ver um vulto remexendo a caixa, determinado.
De lá, tirou um galão que presumi que estivesse cheio de gasolina.
Jogou em cima do pai, que agora sangrava, sufocava e estava quase morto, e bebeu o resto que havia no recipiente. Secou a boca com a manga de seu casaco, tirou de seu bolso um fósforo e acendeu-o. Ajoelhou e pôs-se a chorar enquanto seu pai queimava. Não passou-se nem dez segundos quando o chuveiro automático foi acionado e apagou o fogo. O corpo carbonizado ainda exibia alguns espasmos, mostrando que ainda estava vivo, depois de tanta tortura.
O filho, ajoelhado, parecia rezar antes de pôr-se de pé novamente.
Tirou da caixa o que parecia ser um último objeto. O sofrimento do pai iria findar.
Nesse momento, já não conseguia fechar a boca, a baba escorria e sentia-me um retardado mental por inteiro. Conseguia ouvir o fluxo de meu sangue pelas minhas veias, e cada batida de meu coração. Meu braço e orelha esquerdos latejavam, como se eu houvesse sofrido os golpes.
Empunhando um isqueiro, aproximou-se do pai. Porém já havia o incendiado antes, questionei se iria fazê-lo novamente, quase que tão depressa obtive minha resposta em negativa.
Acendeu-o com tanta força que o gatilho emperrou. Engoliu o isqueiro como um animal, puxou o pedaço de carvão vivo da cadeira e abocanhou seu pescoço. Os espasmos encerraram instantaneamente. Arrancando a cabeça de seu pai, jogou-a para um lado e o corpo para outro.
Virou-se para a câmera, as imagens agora totalmente focadas em seu rosto, os olhos inchados de tantas lágrimas, a boca ensanguentada. Seu corpo começou a falhar, e então, estava jogado ao solo. Enquanto suas entranhas queimavam, gritava, e pronunciou suas últimas palavras enquanto as imagens esmaeciam.
“O fogo purifica, enquanto a estadia na Terra denigre – Pai, tende piedade a nós, leve-nos à luz!”
E assim que o filme acabou, senti minha cabeça livre para fazer movimentos curtos e ouvi palmas ao meu lado.
Sentado em uma cadeira havia um homem, aparentemente um doutor, não conseguia enxergar seu rosto devido às luzes fortes do local, porém conseguia ver que trajava um jaleco branco impecável, calças pretas e batia palmas euforicamente.
-Bravo, bravo!
Levantou-se de um salto e pôs-se a falar, enquanto andava inquietamente pela sala.
“A mãe natureza é linda, não é? Nos dá tudo e o que damos à ela? Nada! A renegamos e a queimamos, insultamos aos céus e a terra, rasgamos suas entranhas, assim como o homem que você viu na televisão.”
Deu uma volta por mim e voltou ao ponto inicial. Pegou a cadeira e precisamente a girou de modo que ficasse voltado diretamente à mim.
“Reconhece-o? Fale, fale, fale! Ó, pelo amor de Deus, que falta de educação a minha! Perdoe-me, perdoe-me...” dizia mexendo e entrelaçando os dedos como um paciente sofrendo de esquizofrenia. Levava em sua voz um tom de calmaria, como quem fala com um amigo querido.
“Meu nome, meu nome... me chamo Bal---“
Sua frase foi interrompida como se houvesse levado um soco no êstomago, levantou-se e me encarou violentamente, fuzilando-me com os olhos.
“FODA-SE COMO EU ME CHAMO. VOCÊ NÃO MERECE SABER DE PORRA NENHUMA, SEU VERME!”
Pude sentir meu sangue esquentar. Quanta vontade sentia de desatar minhas mãos e destruí-lo com minhas próprias mãos. Com que tipo de maníaco estava lidando? O que iria fazer comigo? Como havia parado aqui?
“Desculpe-me, meu querido. Acredito ter sido um pouco rude em minhas palavras. Sou conhecido como professor Balmung Cubit, e atualmente dirijo um estudo sobre a relação entre as substâncias que o corpo de um ser humano libera ao enfrentar diversas reações no cotidiano. Porém, como fui expulso da universidade por utilizar de meios MUITO eficazes, mas não tão... éticos.., tive de continuar por conta própria.”
Ele não conseguia se conter. Corria para todos os cantos, abria e fechava gavetas, o barulho de metais retinia no ambiente.
“E é por isso que está deitado nessa maca, no meio de meu laboratório subterrâneo. Para que eu possa lhe monitorar. Talvez, fosse de seu interesse saber que durante essas últimas duas horas que passou aqui, seu corpo gerou tanto substâncias tão venenosas numa quantidade tão fenomenal que seria capaz de matar vinte pessoas de maneira dolorosa e cruel. Seus lapsos de raiva contribuíram fortemente pra formação de substâncias capazes de criar uma droga que vai alterar os rumos da medicina – anestesia em creme, maravilha!”
O louco havia fugido do meu capo de visão e não conseguia mais enxergar o que estava fazendo. Sabia que o perigo já havia passado do limite. Ouvia batidas fracas em algum recipiente, e os passos foram direcionados a mim.
“Porquê, deve estar querendo perguntar? O que têm de tão magnífico nessa descoberta? Nada! Simplesmente, seu corpo não conseguiria fazer nada disso sozinho, não nessa quantidade. Desenvolvi uma droga que consegue aumentar a quantidade de reações em disparate. Porque, talvez agora, o homem não necessite mais usufruir da mãe natureza! Usufruam do homem! Dos próprios corpos!“
Encontrava-se parado do meu lado, segurando o que parecia ser uma seringa com um líquido estranho. Dava fracas batidas para retirar bolhas de ar e se aproximava cada vez mais de mim. O desespero e a agonia destruíam meu interior. O choque havia sido tão grande que decidi que era apenas um pesadelo. Um pesadelo sádico.
“Agora, para findar o teu sofrimento também, meu amigo! Afinal, minha droga ainda está em fase de desenvolvimento... as alucinações são um maldito empecilho para a ciência. Imagino que esteja cansado, não é? Cultuou vários deuses essa noite... confundiu um plebeu qualquer com o próprio pai... quem era que você enxergava naquela hora? Era egípcio, grego, romano, Deus, Jesus Cristo, Cthulhu? Pobrezinha... me deu trabalho te manter vivo, depois da cagada que você fez em engolir um isqueiro e foder todos seus órgãos internos. Um isqueiro, pode acreditar?! Quem em sã consciência faz isso? Minha criação é realmente demais!
Agradeço-lhe do fundo do coração sua espontânea colaboração com meu trabalho. É uma pena que você não vai querer créditos por sua participação. De longe foi a melhor das minhas cobaias. Adeus, senhor Diretor.”
Quando terminou de falar, deu um beijo em minha testa e injetou a substância em minhas veias. Não pude processar tanta informação. A última visão que tive foi quando fitei profundamente a tela do televisor desligado. Na escuridão pude ver a minha imagem refletida: o rosto completamente desfigurado, os dentes afiados e pontiagudos à mostra, o peito aberto ao meio, vários tubos e máquinas conectados ao meu corpo.

Acredito que a mim, só sobra “Requiescat in pace”.

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