quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Galo de Briga

Duvido que ainda tenha alguém acompanhando o clubinho... De qualquer forma, eu comecei a escrever mais um conto e queria testá-lo antes de seguir em Frente...

 RESUMO

No estado de decadência em que o Velho Mundo se encontra, levar uma vida tranquila é uma opção inexistente. Ninguém escapa à degradação e o esporte que mais movimenta dinheiro neste planeta é a rinha, luta sem regras entre garotos de dez a quinze anos, que muitas vezes só acaba com a morte de um dos participantes. O esporte movimenta muito dinheiro, mas mesmo os galos mais famosos vivem em condições deploráveis. O galo Enrico não quer um futuro esplendoroso, mas irá lutar arduamente para conquistar o que todos os habitantes do Velho Mundo já desistiram: viver em paz.


1
"O primeiro no campo de batalha
  espera a vinda do inimigo,
e está descansado para a luta;
o que chega depois no campo,
  tem que se apressar para batalha;
e  estará exausto".
Suz Tzu – A arte da Guerra

A luz do sol refletia nas incontáveis gotas de suor que pontilhavam as costas de um dos galos. Sua pele negra parecia querer romper cada vez que seus músculos deslizavam por sob ela. Seu corpo inteiro se movimentava a cada respiração ofegante, mas apesar da exaustão, ele se esforçava para se manter alerta, o outro galo, apesar do rosto ensanguentado e do caco de vidro espetado na coxa, levantava mais uma vez.
Um rugido de surpresa e admiração tomou conta do círculo de homens sujos e descamisados que cercavam os dois galos, servindo como um ringue móvel, pois a cada movimento dos lutadores, o círculo de homens também se movimentava de maneira a deixar os jovens lutarem livremente e ao mesmo tempo impedir que um deles fugisse.
O galo negro podia ter atacado o outro enquanto ele se levantava, mas apesar de seu esforço para controlar o cansaço, apenas se afastou, colocou as mãos no joelho e aproveitou a pausa para recuperar o fôlego. A cerca de homens rugia, pedindo sangue.  O galo de pele bronzeada levantava lentamente, sangue e suor se misturavam formando um líquido vermelho e ralo que escorria pela perna e molhava o chão. Um de seus olhos mal se abria de tão inchado, o outro revelava um misto de sofrimento e determinação. Uma das mãos estava fechada, a outra cutucava o vidro, tentando tirá-lo da perna sem que este se quebrasse. O vidro soltou de sua coxa e o galo de pele bronzeada deu um bote com o que sobrava de suas forças na direção do galo negro. O galo negro deu um passo para trás e para o lado para evitar o vidro, no mesmo instante em que seu adversário fazia um movimento rápido com a outra mão, lançando sujeira e pó em seu rosto. Por apenas um instante seus olhos se fecharam, mas isso foi o suficiente para que sentisse sua barriga sendo cortada. Mais uma vez a cerca humana urrava e aplaudia. Por puro reflexo, o galo negro, ao invés de se encolher e mesmo de olhos fechados, desferiu um soco preciso que atingiu o maxilar de seu adversário. Ouviu-se um estalo alto de osso partindo. O galo atingido ficou parado, em pé, por um segundo, antes de desmoronar inconsciente.
Um homem de chapéu entrou no círculo e ergueu o braço do galo negro:
- Jentomen, temos um vencedor! Enrico! Essa foi a única rinha de hoje, recolham o dinheiro de suas apostas, amanhã as lutas acontecerão na Ponte por Sobre o Rio, espero que tenham gostado do espetáculo!
Em poucos minutos a multidão se dispersou, revelando o local da luta: Uma rua de asfalto esburacado, carros abandonados tomados pela hera, prédios cobertos de pichações e com as vitrines espatifadas, ou seja, um lugar como qualquer outro do Velho Mundo.

O Velho Mundo, que um dia foi a capital da Confederação Planetária, e por quase mil anos foi o mais esplendoroso país do universo. O Velho Mundo, outrora chamado de Planeta Terra, origem de toda a vida humana. Não passa de um planeta periférico, esquecido até mesmo pelas duas grandes forças que bipolarizam o universo: A República Imperial e a Colaboração Interestelar. Com a expansão dos seres humanos pelo universo, o Planeta Terra mostrou-se longínquo de qualquer eixo comercial, aos poucos outros planetas se fortaleceram e passaram a exigir uma posição de destaque na Confederação Planetária, até que perceberam que ela havia se tornado uma organização simbólica. O esplendor do Planeta Terra se degradou, o planeta passou a ser chamado de Velho Mundo e para muitos humanos, aceitar que toda a vida universal teve origem em um planeta tão decadente é uma vergonha. O Velho Mundo se tornou a terra dos esquecidos.

Enrico segurava um tecido sujo em seu abdômen enquanto escorava Shahid, que passado o calor da batalha, tinha dificuldade para apoiar o peso na perna machucada. Apesar de estarem cercados pelo homem de chapéu, com um martelo preso no coldre, e três homens armados com pistolas laser, nenhum deles parecia se importar com a dificuldade dos garotos.
O homem de chapéu, andando a frente do grupo, falava sem olhar para trás:
- Lutaram bem... Enrico, parece que tem um futuro promissor.
Neste momento o homem de chapéu parou de caminhar e se virou para os jovens. Enrico, sustentando Shahid, também para, os dois jovens mostravam olhares apreensivos.
- Parece que tem um futuro promissor... Preciso garantir que você tenha, quem ganha com seu futuro sou eu. Mas você ainda tem um grande defeito e para corrigi-lo, terei o prazer de lhe ensinar algo.
Com um movimento rápido, o homem de chapéu puxou o martelo de sua cintura e com um rugido, cravou o martelo na cabeça de Shahid. Enrico, sem entender direito o que estava acontecendo, tentava em vão sustentar o peso crescente de seu colega. Antes que o corpo caísse, o homem de chapéu puxou o martelo, que ao sair emitiu um barulho de sucção. Enrico, ainda tentando segurar o peso do corpo de Shahid, sentava no chão, o outro garoto em seu colo com uma expressão surpresa em seu rosto, os olhos estáticos.
- Compaixão! Esse é seu problema Enrico! Compaixão não te trará nada de bom! O bom combate é aquele que termina com a morte! O bom lutador é aquele que não sabe o que é misericórdia! Para que gastar energia carregando esse peso? Como este galo morreu, a ração dele passará a ser sua!
Enquanto falava, o homem de chapéu limpava o martelo com um lenço encardido e prendia novamente no coldre em sua cintura. Após uma pausa, ainda olhando Enrico que segurava o cadáver em seu colo e chorava, desafivelou o coldre e estendeu-o ao garoto.
- Toma, este martelo é seu! Tudo o que estiver no alojamento desse galo também! E mais! Tudo que estiver no alojamento de cada galo que você matar será seu! Nocauteando o inimigo você não ganha nada, matando você ganha! Levanta! Esse galo está morto, não vê?
Dois dos homens armados forçaram Enrico a se levantar e todos voltaram a caminhar. Enrico olhava fixamente para a nuca do homem de chapéu, balbuciando:
- Não terei misericórdia de ninguém, nem de você!
- O que você disse, galo?
- Não terei misericórdia de ninguém.
E com o olhar fixo na nuca do homem de chapéu, complementou mentalmente, nem de você.

2 comentários:

  1. Bacana. Sinceramente, não tenho vontade de ler mais sobre a história, eu fiquei mais fascinado pelo universo que você está desenvolvendo. Mas esse sou eu, né, eu adoro universos. Curti a narrativa bastante, apesar de tudo, cara, faça mais!

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  2. Continua a escrever ele se você quiser, eu gostei bastante. Me relembrou várias coisas., tipo torre negra. Peguei pra ler de madrugada e caiu como uma luva . Se tivesse mais eu teria continuado lendo pra ver a história do garoto.

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