RESUMO
No estado de decadência em que o Velho Mundo se encontra, levar uma vida
tranquila é uma opção inexistente. Ninguém escapa à degradação e o esporte que
mais movimenta dinheiro neste planeta é a rinha,
luta sem regras entre garotos de dez a quinze anos, que muitas vezes só acaba
com a morte de um dos participantes. O esporte movimenta muito dinheiro, mas
mesmo os galos mais famosos vivem em
condições deploráveis. O galo Enrico
não quer um futuro esplendoroso, mas irá lutar arduamente para conquistar o que
todos os habitantes do Velho Mundo já
desistiram: viver em paz.
1
"O primeiro
no campo de batalha
espera
a vinda do inimigo,
e está
descansado para a luta;
o que chega
depois no campo,
tem que se apressar para batalha;
e estará exausto".
Suz Tzu – A arte
da Guerra
A
luz do sol refletia nas incontáveis gotas de suor que pontilhavam as costas de
um dos galos. Sua pele negra parecia querer romper cada vez que seus músculos
deslizavam por sob ela. Seu corpo inteiro se movimentava a cada respiração
ofegante, mas apesar da exaustão, ele se esforçava para se manter alerta, o
outro galo, apesar do rosto ensanguentado e do caco de vidro espetado na coxa,
levantava mais uma vez.
Um
rugido de surpresa e admiração tomou conta do círculo de homens sujos e
descamisados que cercavam os dois galos, servindo como um ringue móvel, pois a
cada movimento dos lutadores, o círculo de homens também se movimentava de
maneira a deixar os jovens lutarem livremente e ao mesmo tempo impedir que um
deles fugisse.
O
galo negro podia ter atacado o outro enquanto ele se levantava, mas apesar de
seu esforço para controlar o cansaço, apenas se afastou, colocou as mãos no
joelho e aproveitou a pausa para recuperar o fôlego. A cerca de homens rugia,
pedindo sangue. O galo de pele bronzeada
levantava lentamente, sangue e suor se misturavam formando um líquido vermelho
e ralo que escorria pela perna e molhava o chão. Um de seus olhos mal se abria
de tão inchado, o outro revelava um misto de sofrimento e determinação. Uma das
mãos estava fechada, a outra cutucava o vidro, tentando tirá-lo da perna sem
que este se quebrasse. O vidro soltou de sua coxa e o galo de pele bronzeada
deu um bote com o que sobrava de suas forças na direção do galo negro. O galo
negro deu um passo para trás e para o lado para evitar o vidro, no mesmo
instante em que seu adversário fazia um movimento rápido com a outra mão,
lançando sujeira e pó em seu rosto. Por apenas um instante seus olhos se
fecharam, mas isso foi o suficiente para que sentisse sua barriga sendo
cortada. Mais uma vez a cerca humana urrava e aplaudia. Por puro reflexo, o
galo negro, ao invés de se encolher e mesmo de olhos fechados, desferiu um soco
preciso que atingiu o maxilar de seu adversário. Ouviu-se um estalo alto de
osso partindo. O galo atingido ficou parado, em pé, por um segundo, antes de
desmoronar inconsciente.
Um
homem de chapéu entrou no círculo e ergueu o braço do galo negro:
-
Jentomen, temos um vencedor! Enrico! Essa foi a única rinha de hoje, recolham o
dinheiro de suas apostas, amanhã as lutas acontecerão na Ponte por Sobre o Rio,
espero que tenham gostado do espetáculo!
Em
poucos minutos a multidão se dispersou, revelando o local da luta: Uma rua de
asfalto esburacado, carros abandonados tomados pela hera, prédios cobertos de
pichações e com as vitrines espatifadas, ou seja, um lugar como qualquer outro
do Velho Mundo.
O
Velho Mundo, que um dia foi a capital da Confederação Planetária, e por quase
mil anos foi o mais esplendoroso país do universo. O Velho Mundo, outrora
chamado de Planeta Terra, origem de toda a vida humana. Não passa de um planeta
periférico, esquecido até mesmo pelas duas grandes forças que bipolarizam o
universo: A República Imperial e a Colaboração Interestelar. Com a expansão dos
seres humanos pelo universo, o Planeta Terra mostrou-se longínquo de qualquer
eixo comercial, aos poucos outros planetas se fortaleceram e passaram a exigir
uma posição de destaque na Confederação Planetária, até que perceberam que ela
havia se tornado uma organização simbólica. O esplendor do Planeta Terra se
degradou, o planeta passou a ser chamado de Velho Mundo e para muitos humanos,
aceitar que toda a vida universal teve origem em um planeta tão decadente é uma
vergonha. O Velho Mundo se tornou a terra dos esquecidos.
Enrico
segurava um tecido sujo em seu abdômen enquanto escorava Shahid, que passado o
calor da batalha, tinha dificuldade para apoiar o peso na perna machucada.
Apesar de estarem cercados pelo homem de chapéu, com um martelo preso no
coldre, e três homens armados com pistolas laser, nenhum deles parecia se
importar com a dificuldade dos garotos.
O
homem de chapéu, andando a frente do grupo, falava sem olhar para trás:
-
Lutaram bem... Enrico, parece que tem um futuro promissor.
Neste
momento o homem de chapéu parou de caminhar e se virou para os jovens. Enrico,
sustentando Shahid, também para, os dois jovens mostravam olhares apreensivos.
-
Parece que tem um futuro promissor... Preciso garantir que você tenha, quem
ganha com seu futuro sou eu. Mas você ainda tem um grande defeito e para
corrigi-lo, terei o prazer de lhe ensinar algo.
Com
um movimento rápido, o homem de chapéu puxou o martelo de sua cintura e com um
rugido, cravou o martelo na cabeça de Shahid. Enrico, sem entender direito o
que estava acontecendo, tentava em vão sustentar o peso crescente de seu
colega. Antes que o corpo caísse, o homem de chapéu puxou o martelo, que ao
sair emitiu um barulho de sucção. Enrico, ainda tentando segurar o peso do corpo
de Shahid, sentava no chão, o outro garoto em seu colo com uma expressão
surpresa em seu rosto, os olhos estáticos.
-
Compaixão! Esse é seu problema Enrico! Compaixão não te trará nada de bom! O
bom combate é aquele que termina com a morte! O bom lutador é aquele que não
sabe o que é misericórdia! Para que gastar energia carregando esse peso? Como
este galo morreu, a ração dele passará a ser sua!
Enquanto
falava, o homem de chapéu limpava o martelo com um lenço encardido e prendia
novamente no coldre em sua cintura. Após uma pausa, ainda olhando Enrico que
segurava o cadáver em seu colo e chorava, desafivelou o coldre e estendeu-o ao
garoto.
-
Toma, este martelo é seu! Tudo o que estiver no alojamento desse galo também! E
mais! Tudo que estiver no alojamento de cada galo que você matar será seu!
Nocauteando o inimigo você não ganha nada, matando você ganha! Levanta! Esse
galo está morto, não vê?
Dois
dos homens armados forçaram Enrico a se levantar e todos voltaram a caminhar.
Enrico olhava fixamente para a nuca do homem de chapéu, balbuciando:
-
Não terei misericórdia de ninguém, nem de você!
-
O que você disse, galo?
-
Não terei misericórdia de ninguém.
E
com o olhar fixo na nuca do homem de chapéu, complementou mentalmente, nem de você.
Bacana. Sinceramente, não tenho vontade de ler mais sobre a história, eu fiquei mais fascinado pelo universo que você está desenvolvendo. Mas esse sou eu, né, eu adoro universos. Curti a narrativa bastante, apesar de tudo, cara, faça mais!
ResponderExcluirContinua a escrever ele se você quiser, eu gostei bastante. Me relembrou várias coisas., tipo torre negra. Peguei pra ler de madrugada e caiu como uma luva . Se tivesse mais eu teria continuado lendo pra ver a história do garoto.
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