5
- Como vai, Gu? -
disse Ed, cumprimentando seu amigo, este que foi entrando pela porta como se a
casa já fosse sua.
- Bem, cara. E você?
Onde eu coloco isso aqui? - tirou um presente embrulhado da mochila.
- Bem também. Ah, nem devia ter comprado
nada... - sorriu.
- Ok ... pera aí ... - Gustavo abria
a mochila novamente para colocar o presente de volta.
- Não, caralho! Coloca encima da
minha cama, depois eu vejo. - Ed riu.
- Ah, é assim? Com esse desprezo,
acho melhor eu voltar pra casa com essa merda,
então.
A campainha tocou novamente. Os dois
se entreolharam, Gustavo fez um gesto rápido e abraçou Ed:
- Feliz aniversário, mano. Vou
colocar isso na sua cama, fale com a sua garota.
- Obrigado, cara.
Os amigos se desvencilharam e Ed foi
a caminho da porta, enquanto ouvia atrás de si seu amigo falar com a mãe.
- Oi, dona Maria.
- Ah, oi Gustavo!
(
provavelmente os dois estão se abraçando, como sempre )
Ouviu
o som do embrulho que o presente fazia, provavelmente Gustavo o levava para o
seu quarto.
Estava feliz naquele dia. Se sentia
leve, como se pudesse flutuar. Era o dia do seu aniversário e chamara apenas
duas pessoas para comemorar, Gustavo e Júlia. A mãe queria que meio mundo -
aqueles que tinham ido visitá-lo quando estava de cama - fosse naquela humilde
festa de aniversário, mas Ed conseguiu persuadi-la para que isso não
acontecesse. E daquele jeito era muito melhor. Somente as pessoas que mais gostava e que lhe eram mais íntimas.
Abriu a porta e fitou a coisa mais
linda que já havia visto na vida. Júlia.
- Olá, minha senhorita - pegou na
mão dela de um jeito delicado - deseja entrar?
- Oi, Ed. E pare com isso, olhe a
vergonha alheia que você me faz passar, ainda nem entrei na sua casa - ela tinha um sorriso radiante e divertido,
bem parecido com o espírito de Ed naquele dia. - Parece bem feliz hoje.
- E porque não haveria de estar?
Tudo está correndo muito bem na minha vida, minha princesa. - justificou.
- Oh, sim, me conduza até seus
aposentos, então, meu grande príncipe
magricela-que-não-come-nada.
- Mas é claro. Segure-se em mim,
madame.
Ela colocou seu braço entre o dele:
- Ou deveria chamá-lo de meu grande
príncipe educado-só-que-não?
- Bom, pode denominar-me do que
vossa majestade desejar.
- Desse jeito aqui a pouco eu vou
ser quem? Sua dona do mundo?
Ed não aguentou se manter na atuação
e gargalhou. Os dois riram e se beijaram ali mesmo. Havia pouco tempo que
tinham começado o relacionamento, mas já se pareciam muito confortáveis um com
o outro.
Entraram na casa. O dia estava bem
frio, porém, ali dentro, fazia calor. O aquecedor se garantia disso. Assim, Ed
ajudou Júlia a tirar seu casaco jeans. Ela usava uma camiseta preta do Ramones
por baixo e nas pernas, uma calça jeans como sempre.
- Simplesmente linda - disse Ed
olhando-a.
- Não sei se tanto quanto você
pensa, mas acho que sim.
- Não minta, Júlia. O que você
acabou de dizer foi um grande eufemismo, tem que ser sincera, lembra-se?
- Cara, vai cagar. Tá muito meloso
pro meu gosto.
(Cara...
vai cagar ... palavras feias, mas tão bonitas quando ela diz)
- É - refletiu por um segundo - acho
que eu to mesmo, mas tem a ver com minha felicidade e às vezes isso vem sozinho
por conta disso. Senta aí no sofá, um pouco. Parece cansada.
Júlia foi até o sofá e desmoronou:
- Era bom demais pra que fosse
verdade ... meu pai ia me levar até aqui, mas ontem o carro dele quebrou...
então tive que vir a pé...
- Que merda! Por que não ligou pra
cá?
- Não, preferi vir sozinha do que
azucrinar sua mãe.
- Cara, você não ia azucrinar minha
mãe, ela já não te disse que qualquer coisa é só ligar pra ela?
- Sim. Mas tudo bem, agora já foi,
já passou. Vamos comemorar o aniversário do senhor educado-só-que-não. -
levantou do sofá.
- Ok, então, senhora
tudo-bem-já-passou.
Mesmo parecendo que eles haviam
amadurecido um pouco, algumas coisas simplesmente não mudam, como o amor.
Se beijaram novamente. Com mais
ardor dessa vez.
6
- Oi, Maria.
- Oi, Júlia. Tudo certo?
As duas pessoas mais importantes da
vida dele se beijaram no rosto.
- Tudo e você, conseguindo aturar
esse canalha?
Sua mãe riu.
- Um pouco difícil, mas tá indo.
- Ok, vocês duas, podem planejar
seus planos malignos de acabar comigo. Vou lá com o Gustavo.
- Espera aí, vou com você. Tchau
dona Maria, eu te amo!
- Eu também! - ela riu, ainda
fazendo as coisas para a ceia do aniversário.
Como parecia tudo lindo, pensava Ed.
Nunca na vida se sentira tão feliz. Podia morrer ali que tudo estaria bem. O
presidente do país podia morrer, que nem ligaria. Aquela depressão frequente
que vinha, parara abruptamente. As
paranoias também haviam parado, como também pouco usava de seus poderes
paranormais.
O que tinha acontecido?
Ed parara de pensar. Fugia
inconscientemente dos pensamentos. Aqueles que sempre vinham.
Devaneios.
Eles tinham acabado, mas talvez
fossem de alguma importância, afinal de contas.
7
Parabéns pra você!
Nessa data querida!
Muitos
anos de paz!
MUITOS
ANOS DE VIDA!
Eles cantaram a clássica canção de
aniversário. Com direito a ''Com quem será''. Júlia ficara vermelha
naquela parte, Ed percebera. Fora sempre comum para ele achar as comemorações
de aniversário uma merda, provavelmente por conta das pessoas que nem tinha
tanto relacionamento, que compareciam apenas pela ''boas aparências''. Desde que
Ed se lembra era capaz de ver a hipocrisia nos outros, talvez fosse algo que
tinha a ver com seu poder paranormal.
Mas, naquele dia sorriu. Estava
feliz.
Quando acabou aquela segunda canção,
''Com quem será'', abraçou Júlia e deu-lhe um beijo. Na frente do
amigo e da mãe. Podia sentir a quentura do rosto enrubescido da sua namorada.
Também sentia o prazer e a felicidade que ela tinha. E viu Gustavo e a mãe
felizes por eles.
Mas foi aí que o telefone da casa
tocou. Um toque agourento. Fez Ed despertar, como se estivesse num sonho pouco
tempo antes.
O coração começou a bater mais
forte. O que era aquilo? Olhou para Júlia, que parecia extremamente feliz, viu
as covinhas dela vermelhas, porque tinham se beijado em ''público'', mas de um
jeito estranho, pareceu de repente que estava numa realidade paralela. Como se
estivesse numa janela vendo a sua vida passar.
Então, sem nem mais nem menos, veio aquela
frase perturbadora cutucar sua mente. O que o estranho dissera e ficara na sua
cabeça por pouco tempo. E ela veio forte.
Gosta
de coisas mortas, Ed? Sempre tive prazer...
Parecia
com o choque de realidade quando se acorda. De um jeito repentino, passara a
ver aqueles últimos meses em terceira pessoa. Como se tudo que havia passado,
não era ele de verdade ali.
Ouviu a mãe ir atender o telefone,
os passos ecoando.
O rosto se contraiu numa careta, a
enxaqueca veio novamente, como que para
confirmar a suspeita que tinha.
- O que foi, Ed? - disseram em
uníssono, seu melhor amigo e sua namorada. Provavelmente vendo seu rosto.
- Nada... - a voz era distante.
Estava pensando. Lembrando da visão
que tivera, com a mãe morta. E o cara estranho e seu sorriso por trás da touca
preta. O corpo lívido e magro. O peito peludo com pelos castanho-escuros.
E o rosto da mãe...
Correu para onde ficava o telefone. Seus
amigos correram juntos, preocupados e perguntando por ele.
Maria ouviu os passos e olhou
assustada para o filho que atravessava a sala correndo. Ed não dava atenção pra
nada, tinha alguma coisa agourenta martelando na sua cabeça. Tinha algo a ver
com aquela ligação?
(
Merda, o que eu fiz?! Será que isso é um aviso para eu jamais esquecer dele... do
estranho? )
Ed
parou na frente da mãe e perguntou:
- O que foi? O que aconteceu?
Ela não disse nada, estava distante
agora. O semblante sombrio.
- Fala alguma coisa, mãe! - Ed não
teve sucesso. - FALA ALGUMA COISA, CARALHO!
Maria fitou o filho com olhos
arregalados o coração batendo a milhão.
- S-s-seu pai, Ed.... Seu pai,
morreu...
Ed, a primeiro momento, não soube
como reagir. Que aviso era aquele? E não sentiu nada pela perda. Tinha de
sentir alguma coisa? Pensava que sim, mas não vinha ao caso agora. Pensou na mãe, sabia que ela amava ainda
Jorge - seu pai. Sabia que ela choraria, muito, provavelmente. Mas também não
era o que estava no topo da sua mente, transbordando os pensamentos. Era o
estranho. Não entendia o porquê.
(
O que isso tem a ver com ele? )
Lembrava
de tudo que não queria lembrar pouco tempo antes. Mas e agora? O que tinha de fazer?
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