terça-feira, 15 de abril de 2014

Ed - Capítulo 2 - Parte 3

5
                        - Como vai, Gu? - disse Ed, cumprimentando seu amigo, este que foi entrando pela porta como se a casa já fosse sua.
                        - Bem, cara. E você? Onde eu coloco isso aqui? - tirou um presente embrulhado da mochila.
            - Bem também. Ah, nem devia ter comprado nada... - sorriu.
            - Ok ... pera aí ... - Gustavo abria a mochila novamente para colocar o presente de volta.
            - Não, caralho! Coloca encima da minha cama, depois eu vejo. - Ed riu.
            - Ah, é assim? Com esse desprezo, acho melhor eu voltar pra casa com essa merda, então.
            A campainha tocou novamente. Os dois se entreolharam, Gustavo fez um gesto rápido e abraçou Ed:
            - Feliz aniversário, mano. Vou colocar isso na sua cama, fale com a sua garota.
            - Obrigado, cara.
            Os amigos se desvencilharam e Ed foi a caminho da porta, enquanto ouvia atrás de si seu amigo falar com a mãe.
            - Oi, dona Maria.
            - Ah, oi Gustavo!
            ( provavelmente os dois estão se abraçando, como sempre )
            Ouviu o som do embrulho que o presente fazia, provavelmente Gustavo o levava para o seu quarto.
            Estava feliz naquele dia. Se sentia leve, como se pudesse flutuar. Era o dia do seu aniversário e chamara apenas duas pessoas para comemorar, Gustavo e Júlia. A mãe queria que meio mundo - aqueles que tinham ido visitá-lo quando estava de cama - fosse naquela humilde festa de aniversário, mas Ed conseguiu persuadi-la para que isso não acontecesse. E daquele jeito era muito melhor. Somente as pessoas que  mais gostava e que lhe eram mais íntimas.
            Abriu a porta e fitou a coisa mais linda que já havia visto na vida. Júlia.
            - Olá, minha senhorita - pegou na mão dela de um jeito delicado - deseja entrar?
            - Oi, Ed. E pare com isso, olhe a vergonha alheia que você me faz passar, ainda nem entrei na sua casa -  ela tinha um sorriso radiante e divertido, bem parecido com o espírito de Ed naquele dia. - Parece bem feliz hoje.
            - E porque não haveria de estar? Tudo está correndo muito bem na minha vida, minha princesa. - justificou.
            - Oh, sim, me conduza até seus aposentos, então, meu  grande príncipe magricela-que-não-come-nada.
            - Mas é claro. Segure-se em mim, madame.
            Ela colocou seu braço entre o dele:
            - Ou deveria chamá-lo de meu grande príncipe educado-só-que-não?
            - Bom, pode denominar-me do que vossa majestade desejar.
            - Desse jeito aqui a pouco eu vou ser quem? Sua dona do mundo?
            Ed não aguentou se manter na atuação e gargalhou. Os dois riram e se beijaram ali mesmo. Havia pouco tempo que tinham começado o relacionamento, mas já se pareciam muito confortáveis um com o outro.
            Entraram na casa. O dia estava bem frio, porém, ali dentro, fazia calor. O aquecedor se garantia disso. Assim, Ed ajudou Júlia a tirar seu casaco jeans. Ela usava uma camiseta preta do Ramones por baixo e nas pernas, uma calça jeans como sempre.
            - Simplesmente linda - disse Ed olhando-a.
            - Não sei se tanto quanto você pensa, mas acho que sim.
            - Não minta, Júlia. O que você acabou de dizer foi um grande eufemismo, tem que ser sincera, lembra-se?
            - Cara, vai cagar. Tá muito meloso pro meu gosto.
            (Cara... vai cagar ... palavras feias, mas tão bonitas quando ela diz)
            - É - refletiu por um segundo - acho que eu to mesmo, mas tem a ver com minha felicidade e às vezes isso vem sozinho por conta disso. Senta aí no sofá, um pouco. Parece cansada.
            Júlia foi até o sofá e desmoronou:
            - Era bom demais pra que fosse verdade ... meu pai ia me levar até aqui, mas ontem o carro dele quebrou... então tive que vir a pé...
            - Que merda! Por que não ligou pra cá?
            - Não, preferi vir sozinha do que azucrinar sua mãe.
            - Cara, você não ia azucrinar minha mãe, ela já não te disse que qualquer coisa é só ligar pra ela?
            - Sim. Mas tudo bem, agora já foi, já passou. Vamos comemorar o aniversário do senhor educado-só-que-não. - levantou do sofá.
            - Ok, então, senhora tudo-bem-já-passou.
            Mesmo parecendo que eles haviam amadurecido um pouco, algumas coisas simplesmente não mudam, como o amor.

            Se beijaram novamente. Com mais ardor dessa vez.

6
            - Oi, Maria.
            - Oi, Júlia. Tudo certo?
            As duas pessoas mais importantes da vida dele se beijaram no rosto.
            - Tudo e você, conseguindo aturar esse canalha?
            Sua mãe riu.
            - Um pouco difícil, mas tá indo.
            - Ok, vocês duas, podem planejar seus planos malignos de acabar comigo. Vou lá com o Gustavo.
            - Espera aí, vou com você. Tchau dona Maria, eu te amo!
            - Eu também! - ela riu, ainda fazendo as coisas para a ceia do aniversário.
            Como parecia tudo lindo, pensava Ed. Nunca na vida se sentira tão feliz. Podia morrer ali que tudo estaria bem. O presidente do país podia morrer, que nem ligaria. Aquela depressão frequente que vinha, parara abruptamente.  As paranoias também haviam parado, como também pouco usava de seus poderes paranormais.            
            O que tinha acontecido?
            Ed parara de pensar. Fugia inconscientemente dos pensamentos. Aqueles que sempre vinham.
            Devaneios.

            Eles tinham acabado, mas talvez fossem de alguma importância, afinal de contas.

7
            Parabéns pra você!
             Nessa data querida!
            Muitos anos de paz!
            MUITOS ANOS DE VIDA!
            Eles cantaram a clássica canção de aniversário. Com direito a  ''Com quem será''. Júlia ficara vermelha naquela parte, Ed percebera. Fora sempre comum para ele achar as comemorações de aniversário uma merda, provavelmente por conta das pessoas que nem tinha tanto relacionamento, que compareciam apenas pela ''boas aparências''. Desde que Ed se lembra era capaz de ver a hipocrisia nos outros, talvez fosse algo que tinha a ver com seu poder paranormal.
            Mas, naquele dia sorriu. Estava feliz.
            Quando acabou aquela segunda canção, ''Com quem será'',  abraçou Júlia e deu-lhe um beijo. Na frente do amigo e da mãe. Podia sentir a quentura do rosto enrubescido da sua namorada. Também sentia o prazer e a felicidade que ela tinha. E viu Gustavo e a mãe felizes por eles.
            Mas foi aí que o telefone da casa tocou. Um toque agourento. Fez Ed despertar, como se estivesse num sonho pouco tempo antes.
            O coração começou a bater mais forte. O que era aquilo? Olhou para Júlia, que parecia extremamente feliz, viu as covinhas dela vermelhas, porque tinham se beijado em ''público'', mas de um jeito estranho, pareceu de repente que estava numa realidade paralela. Como se estivesse numa janela vendo a sua vida passar.
             Então, sem nem mais nem menos, veio aquela frase perturbadora cutucar sua mente. O que o estranho dissera e ficara na sua cabeça por pouco tempo. E ela veio forte.
            Gosta de coisas mortas, Ed? Sempre tive prazer...
            Parecia com o choque de realidade quando se acorda. De um jeito repentino, passara a ver aqueles últimos meses em terceira pessoa. Como se tudo que havia passado, não era ele de verdade ali.
            Ouviu a mãe ir atender o telefone, os passos ecoando.
            O rosto se contraiu numa careta, a enxaqueca veio novamente, como que  para confirmar a suspeita que tinha.
            - O que foi, Ed? - disseram em uníssono, seu melhor amigo e sua namorada. Provavelmente vendo seu rosto.
            - Nada... - a voz era distante. Estava pensando. Lembrando da visão que tivera, com a mãe morta. E o cara estranho e seu sorriso por trás da touca preta. O corpo lívido e magro. O peito peludo com pelos castanho-escuros.
            E o rosto da mãe...
            Correu para onde ficava o telefone. Seus amigos correram juntos, preocupados e perguntando por ele.
            Maria ouviu os passos e olhou assustada para o filho que atravessava a sala correndo. Ed não dava atenção pra nada, tinha alguma coisa agourenta martelando na sua cabeça. Tinha algo a ver com aquela ligação?           
            ( Merda, o que eu fiz?! Será que isso é um aviso para eu  jamais esquecer dele... do estranho? )
            Ed parou na frente da mãe e perguntou:
            - O que foi? O que aconteceu?
            Ela não disse nada, estava distante agora. O semblante sombrio.   
            - Fala alguma coisa, mãe! - Ed não teve sucesso. - FALA ALGUMA COISA, CARALHO!
            Maria fitou o filho com olhos arregalados o coração batendo a milhão.
            - S-s-seu pai, Ed.... Seu pai, morreu...
            Ed, a primeiro momento, não soube como reagir. Que aviso era aquele? E não sentiu nada pela perda. Tinha de sentir alguma coisa? Pensava que sim, mas não vinha ao caso agora.     Pensou na mãe, sabia que ela amava ainda Jorge - seu pai. Sabia que ela choraria, muito, provavelmente. Mas também não era o que estava no topo da sua mente, transbordando os pensamentos.  Era o estranho. Não entendia o porquê.
            ( O que isso tem a ver com ele? )

            Lembrava de tudo que não queria lembrar pouco tempo antes. Mas e agora?  O que tinha de fazer? 

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