sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ed - Capítulo 2 - Parte 1

Capítulo 2

           


 1

            Ed  não sabia como chegara até ali. Não entendia. Era um sonâmbulo ou alguma coisa do gênero? Nenhuma lembrança de que havia levantado da cama vinha a sua mente e a visão ainda era meio turva para saber o que realmente acontecia. Mas tinha conhecimento que estava no corredor de casa, onde seu quarto, o banheiro e o quarto da mãe ficavam.
            As mãos apoiavam na parede, sustento a maior parte de seu peso, e era fácil entender o porquê. Sentia-se dolorido e realmente tonto, tonto no sentido de desajeitado, pois o discernimento parecia impecável. Estava lúcido, porém tudo aparentava estar envolto em névoas.    
            A visão abruptamente foi melhorando; focando. Como se tivesse acabado de acordar, ou melhor, como se não olhasse para luz a algum bom tempo e depois a fitasse, o cenário ia clareando, se mostrando nítido. Conseguia, agora, distinguir as cores: o marrom escuro das portas, o branco límpido do linóleo que estava em seu quarto - a poucos metros dele -, o azul claro da parede ao lado. Mesmo assim, não era dia, ele percebeu agora, era noite. E nenhuma luz estava acesa, somente o luar clareava o lugar, passando pela janela do quarto aberto.
            Um chiado também começou a ficar nítido. Antes era apenas algo parecido com uma TV bem distante, mas agora ia crescendo. Para ser mais exato, era um estrépito, esse que ouve-se quando se esta num quarto, quase adormecendo ou fazendo nada,  e ele bate na janela, seja de vidro ou qualquer outra coisa, e te faz sorrir - um sorriso melancólico, mas ainda assim, um sorriso. Água. Estava chovendo. Nada tão forte nem fraco, apenas um meio termo.
            No entanto, Ed lembrou do quarto, a janela aberta. Isso veio como um soco pra mente.  Jogou o corpo pra fora daquela maluquice. O que estivera esperando? Uma inundação no quarto?
            Mas foi aí que bateu a cabeça na parede oposta, se lembrando de que estava dolorido e tonto. Não era possível andar sem nenhum apoio.
            ( Mas que merda é essa? )
            A resposta veio rápida. Andou mais alguns passos se segurando na parede e olhou dentro do quarto. Nada de água. Nenhuma inundação. Nada de chuva. Mesmo assim, Ed ainda ouvia o estrépito inconfundível da chuva. Isso confirmava sua suspeita.
            ( Claro que sim! O que mais haveria de ser, burro?!)
            Tinha a certeza de que aquilo era uma visão do futuro. Tudo era muito vívido. Exatamente igual como nas vezes anteriores. Mas agora ele estava dentro do próprio mundinho, onde a relação mãe e filho não era das melhores. Sabia com clareza, nesse momento, que estava na cama, dormindo. Sentia o cheiro do travesseiro, o vento da noite e o pior, a água da chuva o atingindo. Realmente ''inundando o quarto''. Será que sua mãe acordaria para controlar aquela situação? Tinha suas dúvidas. Era basicamente uma paralisia do sono, contudo, não queria se esforçar para sair antes de ver o que preveria ali.
            Voltou para o corredor, ainda recostado na parede. E o que viu não era muito agradável.
            Sangue
            De quem? Não era seu. Mas o via agora em profusão no chão, fazendo um rastro que seguia até o quarto da mãe, que estava com uma fresta aberta naquele momento,  e na parede à direita, em borrifos que escorriam.
            Um arrepio começou na sua nuca e desceu até percorrer todo o corpo.  Aquilo o deixou inquietante.
            Sangue da mãe
            O coração pulsava mais rápido.
            - Por que, deus? - murmurou com a voz rouca, como se não tivesse falado a anos.
            Com o coração entoando sua música agonizante no ouvido, Ed seguiu a passos lentos em direção ao quarto da mãe. Engoliu a própria saliva olhando o sangue, angustiado. Já não estava bom apenas os problemas que passava ultimamente?           
            O pé escorregou um pouco no líquido viscoso vermelho, mas se segurou. Foi nesse momento em que ouviu um raio ribombar, bem próximo da casa real. De qualquer modo, se congelou naquele instante, esperando o pior.
                        ( Que merda foi acontecer com você, hein, mãe? )
            Então, nada aconteceu. Só que no passo seguinte ouviu uma risada, que veio do quarto de Maria. Porém, Ed a sentiu na mente, ecoando em vários espaços do cérebro. Algo terrível e medonho. A voz era fina e perturbadora, difícil dizer se era de homem ou de uma mulher. Ed apostava num homem, torturando sua mãe.
             E se simplesmente não avançasse mais? Acordasse na cama, na vida real?
            Era tentador.
            ( A negligência sempre é )
            No entanto, ele não podia. Tinha de ver.
            Continuo, passo ante passo. O sangue da mãe grudando nos pés. Tentava fingir não sentir, fingir não ver. Ainda tentava se agarrar a solução de que tudo aquilo era apenas um sonho mais vívido, que quando acordasse  teria a sensação de que tivera um sonho, mas não iria conseguir se lembrar sobre o que exatamente.
            Mas aí chegou na frente do quarto, apertando forte os dedos contra a palma da mão, num punho rígido.  Viu a maçaneta da porta, que antes era de uma cor marrom e agora avermelhada, cheia do sangue rubro.
            Suspirou. Os olhos tentaram encontrar algum indício pela fresta que a porta fazia, mas sem muito sucesso. Ainda apoiado na parede, bateu na porta com as mão tremendo:
            - M-mãe?
            - Entre, rapaz - disse uma voz esganiçada, perturbadora, irritante. Reconhecia ser de quem dera aquela risada. E era realmente um homem, pelo que pode perceber de alguma forma.
            Ed sentiu medo, um medo assustador. Mesmo assim, abriu a porta, devagar e tentando se manter calmo. Os olhos queriam se fechar, mas ele os forçou a ficarem abertos. Nada de medo, era apenas algo da sua mente, nada real. Tinha a chance de depois mudar o que quer que fosse ver.  O rangido que a porta fazia, lhe trouxe algumas memórias. Das vezes que, quando criança, tentara assustar os pais à noite, com o pretexto de que não conseguia dormir direito, quando na verdade só queria ficar ali, junto com eles. Entretanto, o assustado era ele agora.
            Entrou. Sustentando o peso do corpo na porta, a mão na maçaneta cheia de sangue.
            Mesmo com um pouco luz entrando pela maior abertura da porta agora, Ed não viu, de começo, nada lá dentro. Apenas escuridão. Mas percebeu duas silhuetas na cama de casal da mãe, onde ironicamente ela dormia, com frequência, sozinha. Viu um tipo de movimento sutil ali.
            Não disse nada, continuou parado, ciente de que, quem estivesse ali, estaria o vendo um pouco mais claramente.
            - Ah, me desculpe, Ed. Acho que você não esta vendo nada, não é mesmo? Assim você vai perder toda a brincadeira. Ligue a luz, rapaz.
            Ed se manteve parado.
            - Mas é claro! - disse o estranho, parecendo se lembrar de algo - Não precisa se mover meu caro amigo, fique onde está, tenho algo mais imersível aqui para nós! Deixe me ver...
            Ouviu-se o barulho da gaveta da cômoda sendo aberta. Logo depois, o barulho de um  palito de fósforo correndo a própria caixa para se fazer o fogo. A luz se formou quando este acendeu uma vela de cera.
            Ed desviou olhar, certo de não querer ver o que acontecia ali. Ou o que acontecera...
            O estranho riu.
            - Rapaz, por que o medo? Um pouco de sangue não é nada de mais! - e riu mais ainda.
            Então, ele se forçou a ver, era algo que tinha de ser feito, para que pudesse depois consertar. Primeiro olhou o chão e viu mais sangue, mas que estranhamente, o rastro deste ia até banheiro do quarto, não até a cama. Logo mais ia descobrir o porquê.
            Foi avançando a visão, lentamente porque ainda estava relutante em ver a cena, mas viu. Divisou Maria e o estranho nus, na cama, numa posição obscena onde ela se encontrava deita e ele de joelhos sobre ela na cama, segurando a vela numa das mãos.
            - Quer se juntar a brincadeira? - disse o estranho, que era branco e magro como um palito. Tinha o rosto encoberto por uma touca negra, igual àquelas de assaltantes, não deixando o rosto transparecer.
            - Mas que merda! - disse Ed sussurrando, virando o rosto mais uma vez, enojado.
            - O que, vai me dizer agora que nunca viu mamãe pelada? Ou sexo explícito? -  o maluco gargalhou sonoramente.
            Ed estava intrigado, pois vira a cama limpa, sem vestígio de sangue. Até a mão estava limpa. Sentiu o estômago revirando. As mãos que agarravam a maçaneta em busca de suporte, apertaram-na mais firmemente.
            - Mãe? - arriscou dizer, num tom de voz audível. O rosto dela estava virado para a parede e ele não o via.
            - Rapaz, vai me ignorar assim mesmo? Pois bem, acho que você prefere falar com a sua mãe, considere-se sortudo por atender seu pedido. Vai ficar me devendo essa.
            Ele fez algum movimento na cama. Ed virou na mesma hora para ver, sentia um aperto no coração que não saberia explicar o que era exatamente. Viu o estranho tirar o pênis de dentro da mãe, uma visão simplesmente horrível e indescritível. Sentiu vontade de fugir novamente, despertar. Mas continuou a fitar, com a total certeza de que estava certo, mesmo com aquele sentimento de medo e agonia crescendo sem parar dentro dele.
            O homem magro e de peito peludo - castanho escuro, uma informação que viria a ser importante -, colocou a vela, com sua chamas alaranjadas que bruxuleavam, na cômoda. Com as suas duas mãos grandes, fez uma espécie de carinho do braço da mulher. A mulher que Ed tinha a terrível certeza de que estava...
            Morta
            Podia ver que a pele dela estava extremamente pálida, que os cabelos perderam um pouco a cor, que não reagia a nada. Queria ira até lá e matar... matar com as mãos o estranho, mas estava completamente limitado a ficar ali, segurando na porta, cada vez mais tonto e dolorido. Se desse um passo cairia e provavelmente iria acordar. Não queria que aquilo acontecesse, então se esforçava ao máximo para se manter em pé. Além do mais, o barulho da chuva, o cheiro dela e do travesseiro molhado, estavam cada vez mais forte, informando que logo a visão acabaria.
            O homem desconhecido beijou sua mãe na bochecha que era visível.
            - Ela é uma doce mulher, não acha, Ed?
            Ed não disse nada, esperava que tudo terminasse rápido.
            - Sabe, amigo, eu te conheço muito bem, mais do que você imagina, se é que me entende.
            - Quem é você?! - ele se ouviu dizer. Não queria falar nada, mais a pergunta saiu de qualquer jeito, porque aquilo iria acontecer no futuro.
            - Oh, finalmente disse alguma coisa, hein? Pensei que era tímido demais. Mas antes de te responder, você não quer falar com sua mãe? Ela me disse aqui, sussurrando, que ama muito você. Que não queria que ultimamente, as coisas com vocês tivessem tão mal. Ela só queria falar com o seu pai sobre outras coisas...
            - ARGH! CALE A BOCA, MALDITO! - de novo se sentiu surpreso pela fala, embora se sentisse do mesmo jeito e fosse capaz de falar a mesma coisa. Agora via em relances o seu quarto, onde estava dormindo. Aquilo estava para acabar.
            - Sabe ficar nervoso também? - o estranho gargalhou, com aquela voz esganiçada. - Ok, mamãe disse que é hora de falar com você. 
              O homem foi virando, com um sorriso estampado no rosto coberto pela touca, o corpo dela para cima e Ed percebeu que a mão esquerda dele tinha vestígios de sangue.
            - Gosta de coisas mortas, Ed? Sempre tive prazer...
            - CANALHA!
            Ed ouviu sua própria voz e a do outro, mais baixas, cada vez mais. Aquele mundo se desvanecia.
            Mas teve tempo, teve tempo de Ed ver o rosto da mãe quando ela acabou de ser virada. Foi como uma facada no coração, caro leitor, como uma facada no coração. Nada se comparava àquilo. Tem coisas que até alguém como eu não tem coragem de descrever e essa é uma delas. Só posso dizer que Ed ficou chocado, enquanto ainda ouvia as gargalhadas perturbadoras do estranho.

            Gosta de coisas mortas, Ed? Sempre tive prazer...

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