Capítulo 2
1
Ed
não sabia como chegara até ali. Não
entendia. Era um sonâmbulo ou alguma coisa do gênero? Nenhuma lembrança de que
havia levantado da cama vinha a sua mente e a visão ainda era meio turva para
saber o que realmente acontecia. Mas tinha conhecimento que estava no corredor
de casa, onde seu quarto, o banheiro e o quarto da mãe ficavam.
As mãos apoiavam na parede, sustento
a maior parte de seu peso, e era fácil entender o porquê. Sentia-se dolorido e
realmente tonto, tonto no sentido de desajeitado, pois o discernimento parecia
impecável. Estava lúcido, porém tudo aparentava estar envolto em névoas.
A visão abruptamente foi melhorando;
focando. Como se tivesse acabado de acordar, ou melhor, como se não olhasse
para luz a algum bom tempo e depois a fitasse, o cenário ia clareando, se
mostrando nítido. Conseguia, agora, distinguir as cores: o marrom escuro das
portas, o branco límpido do linóleo que estava em seu quarto - a poucos metros
dele -, o azul claro da parede ao lado. Mesmo assim, não era dia, ele percebeu
agora, era noite. E nenhuma luz estava acesa, somente o luar clareava o lugar,
passando pela janela do quarto aberto.
Um chiado também começou a ficar
nítido. Antes era apenas algo parecido com uma TV bem distante, mas agora ia
crescendo. Para ser mais exato, era um estrépito, esse que ouve-se quando se
esta num quarto, quase adormecendo ou fazendo nada, e ele bate na janela, seja de vidro ou
qualquer outra coisa, e te faz sorrir - um sorriso melancólico, mas ainda
assim, um sorriso. Água. Estava chovendo. Nada tão forte nem fraco, apenas um
meio termo.
No entanto, Ed lembrou do quarto, a
janela aberta. Isso veio como um soco pra mente. Jogou o corpo pra fora daquela maluquice. O
que estivera esperando? Uma inundação no quarto?
Mas foi aí que bateu a cabeça na
parede oposta, se lembrando de que estava dolorido e tonto. Não era possível
andar sem nenhum apoio.
(
Mas que merda é essa? )
A
resposta veio rápida. Andou mais alguns passos se segurando na parede e olhou
dentro do quarto. Nada de água. Nenhuma inundação. Nada de chuva. Mesmo assim,
Ed ainda ouvia o estrépito inconfundível da chuva. Isso confirmava sua
suspeita.
(
Claro que sim! O que mais haveria de ser, burro?!)
Tinha
a certeza de que aquilo era uma visão do futuro. Tudo era muito vívido.
Exatamente igual como nas vezes anteriores. Mas agora ele estava dentro do
próprio mundinho, onde a relação mãe e filho não era das melhores. Sabia com
clareza, nesse momento, que estava na cama, dormindo. Sentia o cheiro do
travesseiro, o vento da noite e o pior, a água da chuva o atingindo. Realmente
''inundando o quarto''. Será que sua mãe acordaria para controlar aquela
situação? Tinha suas dúvidas. Era basicamente uma paralisia do sono, contudo,
não queria se esforçar para sair antes de ver o que preveria ali.
Voltou para o corredor, ainda
recostado na parede. E o que viu não era muito agradável.
Sangue
De
quem? Não era seu. Mas o via agora em profusão no chão, fazendo um rastro que
seguia até o quarto da mãe, que estava com uma fresta aberta naquele
momento, e na parede à direita, em
borrifos que escorriam.
Um arrepio começou na sua nuca e
desceu até percorrer todo o corpo. Aquilo
o deixou inquietante.
Sangue
da mãe
O
coração pulsava mais rápido.
- Por que, deus? - murmurou com a
voz rouca, como se não tivesse falado a anos.
Com o coração entoando sua música
agonizante no ouvido, Ed seguiu a passos lentos em direção ao quarto da mãe.
Engoliu a própria saliva olhando o sangue, angustiado. Já não estava bom apenas
os problemas que passava ultimamente?
O pé escorregou um pouco no líquido
viscoso vermelho, mas se segurou. Foi nesse momento em que ouviu um raio
ribombar, bem próximo da casa real.
De qualquer modo, se congelou naquele instante, esperando o pior.
( Que merda foi acontecer com você, hein, mãe? )
Então,
nada aconteceu. Só que no passo seguinte ouviu uma risada, que veio do quarto
de Maria. Porém, Ed a sentiu na mente, ecoando em vários espaços do cérebro.
Algo terrível e medonho. A voz era fina e perturbadora, difícil dizer se era de
homem ou de uma mulher. Ed apostava num homem, torturando sua mãe.
E se simplesmente não avançasse mais?
Acordasse na cama, na vida real?
Era tentador.
(
A negligência sempre é )
No
entanto, ele não podia. Tinha de ver.
Continuo, passo ante passo. O sangue
da mãe grudando nos pés. Tentava fingir não sentir, fingir não ver. Ainda
tentava se agarrar a solução de que tudo aquilo era apenas um sonho mais
vívido, que quando acordasse teria a
sensação de que tivera um sonho, mas não iria conseguir se lembrar sobre o que
exatamente.
Mas aí chegou na frente do quarto, apertando
forte os dedos contra a palma da mão, num punho rígido. Viu a maçaneta da porta, que antes era de uma
cor marrom e agora avermelhada, cheia do sangue rubro.
Suspirou. Os olhos tentaram
encontrar algum indício pela fresta que a porta fazia, mas sem muito sucesso. Ainda
apoiado na parede, bateu na porta com as mão tremendo:
- M-mãe?
- Entre, rapaz - disse uma voz esganiçada,
perturbadora, irritante. Reconhecia ser de quem dera aquela risada. E era
realmente um homem, pelo que pode perceber de alguma forma.
Ed sentiu medo, um medo assustador.
Mesmo assim, abriu a porta, devagar e tentando se manter calmo. Os olhos queriam
se fechar, mas ele os forçou a ficarem abertos. Nada de medo, era apenas algo
da sua mente, nada real. Tinha a chance de depois mudar o que quer que fosse
ver. O rangido que a porta fazia, lhe
trouxe algumas memórias. Das vezes que, quando criança, tentara assustar os
pais à noite, com o pretexto de que não conseguia dormir direito, quando na
verdade só queria ficar ali, junto com eles. Entretanto, o assustado era ele
agora.
Entrou. Sustentando o peso do corpo
na porta, a mão na maçaneta cheia de sangue.
Mesmo com um pouco luz entrando pela
maior abertura da porta agora, Ed não viu, de começo, nada lá dentro. Apenas
escuridão. Mas percebeu duas silhuetas na cama de casal da mãe, onde
ironicamente ela dormia, com frequência, sozinha. Viu um tipo de movimento
sutil ali.
Não disse nada, continuou parado,
ciente de que, quem estivesse ali, estaria o vendo um pouco mais claramente.
- Ah, me desculpe, Ed. Acho que você
não esta vendo nada, não é mesmo? Assim você vai perder toda a brincadeira.
Ligue a luz, rapaz.
Ed se manteve parado.
- Mas é claro! - disse o estranho,
parecendo se lembrar de algo - Não precisa se mover meu caro amigo, fique onde
está, tenho algo mais imersível aqui para nós! Deixe me ver...
Ouviu-se o barulho da gaveta da
cômoda sendo aberta. Logo depois, o barulho de um palito de fósforo correndo a própria caixa
para se fazer o fogo. A luz se formou quando este acendeu uma vela de cera.
Ed desviou olhar, certo de não
querer ver o que acontecia ali. Ou o que acontecera...
O estranho riu.
- Rapaz, por que o medo? Um pouco de
sangue não é nada de mais! - e riu mais ainda.
Então, ele se forçou a ver, era algo
que tinha de ser feito, para que pudesse depois consertar. Primeiro olhou o
chão e viu mais sangue, mas que estranhamente, o rastro deste ia até banheiro
do quarto, não até a cama. Logo mais ia descobrir o porquê.
Foi avançando a visão, lentamente
porque ainda estava relutante em ver a cena, mas viu. Divisou Maria e o
estranho nus, na cama, numa posição obscena onde ela se encontrava deita e ele
de joelhos sobre ela na cama, segurando a vela numa das mãos.
- Quer se juntar a brincadeira? -
disse o estranho, que era branco e magro como um palito. Tinha o rosto
encoberto por uma touca negra, igual àquelas de assaltantes, não deixando o
rosto transparecer.
- Mas que merda! - disse Ed
sussurrando, virando o rosto mais uma vez, enojado.
- O que, vai me dizer agora que
nunca viu mamãe pelada? Ou sexo explícito? - o maluco gargalhou sonoramente.
Ed estava intrigado, pois vira a
cama limpa, sem vestígio de sangue. Até a mão estava limpa. Sentiu o estômago
revirando. As mãos que agarravam a maçaneta em busca de suporte, apertaram-na
mais firmemente.
- Mãe? - arriscou dizer, num tom de
voz audível. O rosto dela estava virado para a parede e ele não o via.
- Rapaz, vai me ignorar assim mesmo?
Pois bem, acho que você prefere falar com a sua mãe, considere-se sortudo por
atender seu pedido. Vai ficar me devendo essa.
Ele fez algum movimento na cama. Ed
virou na mesma hora para ver, sentia um aperto no coração que não saberia
explicar o que era exatamente. Viu o estranho tirar o pênis de dentro da mãe, uma
visão simplesmente horrível e indescritível. Sentiu vontade de fugir novamente,
despertar. Mas continuou a fitar, com a total certeza de que estava certo,
mesmo com aquele sentimento de medo e agonia crescendo sem parar dentro dele.
O homem magro e de peito peludo -
castanho escuro, uma informação que viria a ser importante -, colocou a vela,
com sua chamas alaranjadas que bruxuleavam, na cômoda. Com as suas duas mãos
grandes, fez uma espécie de carinho do braço da mulher. A mulher que Ed tinha a
terrível certeza de que estava...
Morta
Podia
ver que a pele dela estava extremamente pálida, que os cabelos perderam um
pouco a cor, que não reagia a nada. Queria ira até lá e matar... matar com as
mãos o estranho, mas estava completamente limitado a ficar ali, segurando na
porta, cada vez mais tonto e dolorido. Se desse um passo cairia e provavelmente
iria acordar. Não queria que aquilo acontecesse, então se esforçava ao máximo
para se manter em pé. Além do mais, o barulho da chuva, o cheiro dela e do
travesseiro molhado, estavam cada vez mais forte, informando que logo a visão
acabaria.
O homem desconhecido beijou sua mãe
na bochecha que era visível.
- Ela é uma doce mulher, não acha,
Ed?
Ed não disse nada, esperava que tudo
terminasse rápido.
- Sabe, amigo, eu te conheço muito
bem, mais do que você imagina, se é
que me entende.
- Quem é você?! - ele se ouviu
dizer. Não queria falar nada, mais a pergunta saiu de qualquer jeito, porque
aquilo iria acontecer no futuro.
- Oh, finalmente disse alguma coisa,
hein? Pensei que era tímido demais. Mas antes de te responder, você não quer
falar com sua mãe? Ela me disse aqui, sussurrando, que ama muito você. Que não
queria que ultimamente, as coisas com vocês tivessem tão mal. Ela só queria
falar com o seu pai sobre outras coisas...
- ARGH! CALE A BOCA, MALDITO! - de
novo se sentiu surpreso pela fala, embora se sentisse do mesmo jeito e fosse
capaz de falar a mesma coisa. Agora via em relances o seu quarto, onde estava dormindo.
Aquilo estava para acabar.
- Sabe ficar nervoso também? - o
estranho gargalhou, com aquela voz esganiçada. - Ok, mamãe disse que é hora de
falar com você.
O homem foi virando, com um sorriso estampado no rosto coberto pela touca, o corpo dela para cima e Ed percebeu que a mão esquerda dele tinha vestígios de sangue.
O homem foi virando, com um sorriso estampado no rosto coberto pela touca, o corpo dela para cima e Ed percebeu que a mão esquerda dele tinha vestígios de sangue.
- Gosta de coisas mortas, Ed? Sempre
tive prazer...
- CANALHA!
Ed ouviu sua própria voz e a do
outro, mais baixas, cada vez mais. Aquele mundo se desvanecia.
Mas teve tempo, teve tempo de Ed ver
o rosto da mãe quando ela acabou de ser virada. Foi como uma facada no coração,
caro leitor, como uma facada no coração. Nada se comparava àquilo. Tem coisas
que até alguém como eu não tem coragem de descrever e essa é uma delas. Só
posso dizer que Ed ficou chocado, enquanto ainda ouvia as gargalhadas perturbadoras
do estranho.
Gosta
de coisas mortas, Ed? Sempre tive prazer...
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