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3. Open Letter to Duke.
Nos primeiros ensaios a presença da
Clarisse em nossa casa foi uma dádiva. Todos sentimos isso, ela chegava e abria
as janelas, dizia que se o Welly não parasse de fumar todos nós morreríamos de
câncer no esôfago. O Welly levava numa boa, dava umas risadas e acendia outro
cigarro, só de sacanagem. Ele é o cara mais sacana da banda, não um cara sacana
que faz maldades, mas é sacana por estar sempre tentando irritar alguém. Se
você diz que aquele pedaço de melão na geladeira é seu, mesmo que ele não goste
de melão ele espera um tempo, vai lá e come, mas isso não é o pior, o pior é
que quando você perguntar quem comeu seu melão ele vai responder “ah, era seu?
Foi mal”. Pra todo mundo que não for o dono do melão, a cena sempre é muito
engraçada, ele faz essas coisas porque sabe disso. Bom, voltando ao assunto, a
Clarisse mudou algumas coisas em casa e gostamos disso, acho que no fim das
contas sangue novo sempre é bom pra dar uma reanimada no ambiente.
A Clarisse começou a ensaiar conosco na
mesma época em que comecei a sair com a Elisa, uma mulher que freqüentava os
mesmos eventos que eu, ou seja, já saiamos juntos muito antes de nos
conhecermos, engraçado pensar assim, a primeira mudança em nossas vidas, foi
que, começamos a chegar no mesmo horário e sentar um ao lado do outro. Foi só
quando comecei a sair sério com a Elisa que alguém voltou a utilizar o quarto
do Marcus, como a casa tinha quatro quartos, eu costumava dividir com o Hélio,
mas agora eu queria ter um pouco mais de privacidade. As duas, a Clarisse e a
Elisa, se deram muito bem, o mais importante pra saúde da casa sempre foi isso,
todos que moram nela e a freqüentam assiduamente amam a música em muitas de
suas formas.
Até a apresentação no Newport Brasil, a casa estava uma
maravilha, todo mundo descontraído. O clima tinha voltado a ser o mesmo de
antes do Marcus se tornar um alcoólatra, entre nós, pairava sempre um clima de
brincadeira e até um descaso com o futuro. A apresentação no Newport foi bem diferente do que eu
imaginava, eu nunca havia visto, e ainda não vi de novo, uma casa, onde fosse
tocar jazz, tão cheia. Muitos rostos diferentes do que aqueles que estávamos
acostumados, ficamos sabendo que a divulgação do evento, feita pela casa, havia
sido pesada e que um apresentador de programa de uma emissora de televisão,
fanático por jazz, havia vindo nos assistir. A presença anunciada dele é que
havia feito a casa encher. Por um lado isso é bom, faz muito bem pro ego tocar
em uma casa cheia, por outro lado, tocar para um monte de gente que não está
nem aí para o jazz faz você se sentir um pouco como um bobo da corte.
Quando terminamos de preparar nosso
equipamento, antes de começar a tocar, olhamos uns para os outros, e foi como
se tivéssemos realizado um pacto ou estipulado um objetivo: não seriamos os
bobos da corte, fazendo música de fundo enquanto todos paparicavam um
apresentador de televisão. Fizemos disso nosso objetivo e posso dizer com toda
certeza que o cumprimos, nunca havíamos tocado de forma tão complexa, nem nos
ensaios mais ousados, aquele álbum. Não que a harmonia me permitisse fazer
grandes coisas, queria ter me exibido bem mais, mas na medida do possível eu
fiz minha parte. Quanto a Clarisse, foi a que menos pode aproveitar, seu grande
mérito foi ter mostrado uma incrível resistência sem sair do tempo nenhuma vez.
Já o Welly, eu juro que em alguns momentos eu achei que ele iria explodir,
nunca tinha visto o cara tocar com tanto vigor, tocamos o primeiro tema em
quase quinze minutos. O Hélio e o Wilsão também foram impecáveis e isso nos
abriu algumas portas, hoje posso dizer isso com toda certeza.
O sucesso na apresentação do Newport fez com que criássemos, o Hélio
querendo ou não, um vínculo com a Clarisse, que, mesmo sem a certeza de
continuar fazendo parte da banda, continuou comparecendo freqüentemente em
nossa casa. Já não podíamos mais excluí-la, e todos sabiam disso, inclusive
ela. Foi nesse ponto que a casa mais parecia nitroglicerina, explodia ao maior
descuido. Ninguém jamais podia tratar a banda como “quinteto” perto do Hélio,
tampouco como “quarteto” perto da Clarisse, o primeiro explodia com a menor
alusão à garota como integrante da banda, enquanto a garota esbravejava se
qualquer um desse a entender que ela ainda não fazia parte da banda, foram
tempos difíceis. A Elisa, que estava de fora, achava tudo muito engraçado,
coisa que me deixava chateado.
Certo dia estávamos os cinco na sala
pensando em possibilidades para um novo repertório, quando a Clarisse fez sua
primeira sugestão, não tenho como me esquecer desse dia, muita coisa mudou
depois dele:
- E se tocássemos Mingus?
Pra quem não entende, Charles Mingus foi
um renomado jazzista, o seu diferencial em relação aos outros é que geralmente
o líder da banda é o trompetista, e Mingus era líder e tocava contra-baixo,
para mim, não há problema nenhum nisso, acontece que não podemos esquecer que
para o Hélio, quem toca jazz é homem e negro, e nesse momento havia uma mulher
e branca ameaçando tomar a liderança da banda que ele havia formado.
- E quem você acha que é para sugerir
que toquemos alguma música? Não me
lembro de você fazer parte dessa banda, não é só porque você quebra um galho
pra gente que já pode se achar no direito de decidir qualquer coisa aqui.
Achei que a Clarisse fosse discutir, ela
sempre discutia conosco, mas dessa vez não, ela apenas se levantou, pegou suas
coisas e saiu. Ficamos todos pasmos, Wilsão foi o primeiro que saiu da sala,
foi para seu quarto, sem dizer nada e não saiu mais de lá, o Welly apenas
abaixou a cabeça e pousou as mãos entrelaçadas na nuca, ele sempre fazia isso
quando não sabia o que fazer. E pela segunda vez, nessa história, eu senti que
precisava fazer alguma coisa, foi então que antes de sair de casa eu disse:
- Sinceramente, meu amigo, esperava mais
de você...
Fui pra casa da Elisa que morava em um
apartamento não muito longe de casa, fiquei uns dias por lá, não queria ver a
cara do Hélio. Não foram muitos dias, foram quatro para ser mais preciso, eu
queria ficar mais tempo fora mas não agüentei. Ficar fora de casa, para mim,
não é simplesmente ficar longe do Hélio, ou do Wilsão, ou do Welly, ficar fora
de casa é ao mesmo tempo ficar longe da família e longe do emprego. Tudo o que
eu faço da vida está ali, as pessoas com quem me relaciono, meus companheiros
de trabalho e minha bateria. Ficar longe de casa é ficar sozinho. Durante a
noite foi muito bom estar sempre por perto da Elisa, ela é uma excelente
mulher, gosta de conversar sobre qualquer coisa, sempre tem bons conselhos e é
uma namorada muito carinhosa. Agora, durante o dia, enquanto ela estava
trabalhando, era o inferno, não nasci para apreciar a televisão ou essas artes
visuais, meu negócio é tocar, e quando não estou tocando, tenho que estar
conversando com alguém, ficar sozinho e sem minha bateria é a mesma coisa que
estar em outra galáxia, fico totalmente perdido.
E foi por esse motivo que depois de
infinitos quatro dias eu resolvi voltar para o quartel general dos Melancólicos
Azuis.
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