8
Júlia
não sabia o que podia fazer por Ed. Ele não gostava muito de conversar sobre o
pai, nem daquilo que parecia o perturbar mais ainda. Tinha ficado um pouco
taciturno desde o que ocorrera naquela noite e ela não entendia e não parecia que
era só o pai, aparentava ser algo pior.
Colocou o livro de lado e ligou o monitor do computador, não
conseguia estudar. Ficava pensando no seu namorado. Teria que de alguma forma,
fazer ele compartilhar aquilo com ela. Não eram um casal? Ela mesma não
compartilhava tudo com ele? Por que não podia ser o mesmo com Ed?
Abriu a página do facebook e, em vão, tentou ver se ele
estava online. Selecionou Ed, o chat
se abriu e Júlia viu que a última conversa que tivera com ele ali, havia sido
em 11 de Junho, um dia antes da festa de aniversário e 3 semanas anteriores
àquela. Tinham conversado pessoalmente, é claro, mas fazia tempo que Ed não
entrava no computador, ele mesmo já havia falado. E outra coisa, as férias já
tinham chegado e ela queria se divertir e de preferência com seu namorado. Mas
Ed parecia sombrio demais, ainda que ria e fazia piadas - porém, de alguma
forma, Júlia sentia que ele fazia por obrigação. O que realmente havia
acontecido?
Desligou o computador e respirou
profundamente. Ia dormir naquela hora. Talvez sonhasse com ele, nos seus dias
alegres. Quase chorou, mas ficou apenas
no quase. Esparramou-se na cama.
(
Acho que eu vou conversar com a mãe dele... Ele mesmo não disse que tava
preocupado com ela? Provavelmente ela sabe de algo que eu não sei... Maria
gosta de mim... acho que vai contar... e assim eu vou ajudar Ed, custe o que
custar )
Dormiu,
com um sorriso no rosto. Um travesseiro sob a cabeça e outro entre os braços.
9
A
coisa ficou realmente difícil quando Gustavo perguntava... questionava do
porque Ed estar se afastando dele. E Ed dizia estar doente e não querendo que
ele fosse lá, pelo menos até ele se recuperar e os dois poderem fazer as coisas juntos. Uma grande mentira. Ele se
sentia muito ruim por conta disso, mas o que podia fazer? Era necessário,
sentia que a qualquer desleixo sua mãe acabaria como naquela visão.
Morta.
Ainda mantinha certo contato pessoal
com Júlia, porque era foda fazer merda com ela, logo naqueles primeiros
momentos de namoro, embora sentisse sua chateação e preocupação para com ele.
Mas não tinha o que fazer, no mínimo por enquanto. Depois acertaria tudo com
todos. A grande merda era que Ed, não sabia como ia reagir. Havia pensado em
ligar para a polícia quando visse o cara, mas aí lembrou que não tinha visto o
rosto do estranho, apenas saberia o identificar se estivesse nu, o peito
peludo, o corpo magro. O único plano que tinha no momento era ficar acordado
todas as madrugadas... e isso podia fazer, já que eram férias. Na hora em que o
visse, ligaria pra polícia. O difícil era que não sabia o momento exato, mas
tinha quase certeza que era mesmo de madrugada, umas três horas. Também
apostava um pouco no efeito borboleta, parecia um esperança boba, porém,
continuava com ela.
Essa era uma das noites em que
estava de vigia, fingia ler um livro no sofá - até lia mesmo, de vez em quando
-, contudo, sua atenção estava na porta do quarto da mãe e mais ainda na janela
que dava pra rua, atrás de si. Do lado do braço do sofá que estava, havia um
telefone sem fio sobre uma mesinha. O número 190 preenchia sua mente.
Mas Ed sabia de uma coisa. Talvez
não desse tempo da polícia chegar. Por isso havia uma faca de cortar carne
encima da pia. Embora não tivesse certeza de que conseguiria usá-la contra o
assassino, pensava que para salvar a mãe, encontraria coragem suficiente.
Cogitava em ligar para o vizinho, o senhor Turco, e era provável fosse fazer
isso.
Parecia um bom plano... que talvez salvasse a mãe.
10
As férias tinham acabado. Gustavo se
sentia frustrado e ao mesmo tempo feliz. Era fácil ver porque estava feliz,
tinha ido na casa do amigo no dia anterior e ia mais uma vez ainda naquele dia.
Mas estava frustrado, uma vez que passara as férias inteiras sem o vê-lo, nem
ao menos pela internet e sabia que era mentira aquela porra dele estar doente.
Tinha conversado com Maria e ela concordara que era estranho, prometendo
conversar com Ed.
Parecia que tinha dado certo, graças
a deus. Odiaria perder o melhor amigo, por conta de uma menina, talvez. Sabia
que ele ainda se encontrava com Júlia nas férias.
Neste momento o via, prestando
atenção na aula de matemática.
- Ed?
- Huh?
- Como anda o namoro com a Júlia?
- Posso falar depois? To prestando
atenção nessa aula, você também deveria estar. Parece bem importante.
Então, Gustavo ficou quieto. Mas continuou
vendo a cara séria do amigo.
Estava feliz afinal de contas.
11
Ed,
uns tempos atrás, tinha sido bombardeado por questionamentos da mãe, que ele
sabia com total certeza, virem 90% de Júlia e Gustavo. E por exortação dela,
passara a vê-los mais, até porque aquele sentimento de mau agouro cessara. Mas
ainda tinha seus receios, não podia deixar-se desleixar mais do que aquilo.
Começava a dar cada vez mais
credibilidade ao efeito borboleta. Tinha quase certeza de que ele estava
funcionando, ou já funcionara.
(
Aqui é meu limite, porque minhas visões sempre ocorreram. Não posso deixar essa
porra de negligência me consumir. Tenho de ficar atento ... )
Olhou
para Júlia e sorriu. Deu uma olhadela no relógio de pulso que agora usava e
disse:
- Tenho de ir, são seis e meia da
tarde.
- Hum, não vejo razão para isso...
Não está gostando de passar um tempo com a sua namorada?
Eles estavam num parque ao ar livre,
perto da escola, acima de um rio. Se Ed olhasse para trás veria o nome da escola,
bem no alto do prédio: Colégio Era;
nas cores azuis, dois jovens sorrindo na foto mais acima.
- Não, realmente não.
- Ok, vou indo nessa.
-Não, sua boba! Eu tenho de estudar
pra Gramática, to meio mal. - os dois estavam deitados na grama sobre a sombra
das árvores, olhavam o ocaso, Ed abraçou ela e beijou seu pescoço.
- Mentira, você nunca foi mal em
Gramática.
- Verdade, se quiser pode ir comigo,
estudar - sabia que ela não aceitaria, por isso fizera o convite.
- Não, não... to afim não.
- Então, tá beleza - ele se levantou
e estendeu a mão pra ela se apoiar. Júlia se mostrou relutante, como alguém que
faz birra pra acordar.
- Vamos logo - disse Ed.
- Que merda, hein! Tava tão gostoso.
Ed riu. Ela mostrou um sorriso e o deixou
levantá-la.
- Quer que eu a leve para casa?
- Não precisa. Sei me cuidar.
- Ok, estou indo, então - Ed a
beijou de novo e virou na direção da casa, dando passos rápidos, o ocaso já
caía e queria estar em casa antes de escurecer. Sentiu o olhar que a namorada
pousava nas suas costas, mas não chegou a dar alguma importância relevante.
(
Mãe...)
12
Nada aconteceu até acabar o ano de
2010 e mesmo Ed não querendo, se dera ao desleixo de ultrapassar àquele limite
antes imposto por ele próprio. Nunca uma visão fora tão longe, então agora ele
passara a crer 99% que o efeito borboleta funcionava, que ele mudara o futuro
com coisas que normalmente não faria. Conversando e dando mais atenção pra mãe.
Talvez quando dissera a mãe sobre o estranho, tempos atrás...
Então, por favor, me diga que nunca vai sair
com um cara magro e... e... de peito peludo.
...
e ela respondera que não - não iria fazer isso -, mesmo que desconfiando do
filho. Talvez aquilo tivesse mudado o futuro.
Mas Ed havia esquecido algo
primordial, que o futuro era obstinado e não mudava tão facilmente.
Assim, mas um ano se passou, Ed fez
17 anos. Tinha finalmente se tornado mais social e agora ele e Gustavo possuíam
um grupo de amigos que curtiam as mesmas coisas. Bola, Luquinha, Gustavo e ele
próprio. Esses dois caras eles haviam conhecido a partir de um mmorpg, e eram da mesma cidade, logo
tudo se encaixou. Não era que Ed nunca tivera mais amigos, mas a maioria eram
só colegas - amigos que só encontrava na escola, não tinha maior intimidade com
eles. Esses não, eram melhores amigos.
A relação com Júlia estava cada vez
mais concreta e os dois mais maduros. Pensavam em se casar, porém, era algo que
por enquanto não havia saído do ''pensar''.
Ed aos poucos, desde de a separação
da mãe e do pai e todos aqueles problemas de alcoolismo de Jorge, foi se
inserindo na sociedade novamente. Isso tinha muita contribuição da namorada - a
qual agradecia muito -, do psiquiatra que ele antes frequentara, e da própria
mãe, é lógico, que agora saia também com umas amigas, dentre elas a mãe de Gustavo.
Ed até mesmo participara, no ano de
2012, de alguns protestos na cidade, que reclamavam do comportamentos policial
com as classes mais pobres.
Naquele mesmo ano, já com 18 de
existência, Ed descobrira seu verdadeiro talento. Escrever. Tinha escrito antes
algumas coisas, umas curtas e outras mais longas, como aventuras que ia havia mestrado
nos rpgs de mesa que seu grupinho
frequentemente jogava. Mas nada se comparava àquele momento, tinha se tornado
algo mais sério e de longe mais profissional, uma vez que, alguns meses depois
- por meio de uns contatos malucos -, conseguira ter um coluna só sua num
importante jornal da cidade (Aimara, no estado de São Paulo, a cidade onde
sempre esteve), Jornal Bom Dia! Onde passara
escrever crônicas curtas e geralmente humorísticas duas vezes por semana, nas
terças e quintas. Por uma tremenda
sorte, quem ele havia conhecido fora o diretor-executivo do jornal, um homem
chamo Silvio Machado, e o cara gostara muito de Ed e sua escrita, tanto que
acabou o contratando!
Também estava se dedicando bastante
a um romance, que por enquanto não tinha nenhum nome em específico, era algo
que estava fazendo com muito carinho e satisfação. Ainda era 2012 e Ed, já fora
da escola, não prestara nenhum
vestibular, queria aquele ano para ver se conseguiria se manter só da escrita -
caso não conseguisse, naquele mesmo ano iria prestar vestibular, contudo não
era o que realmente desejava -, e fora isto que tinha dito à sua mãe. Por outro lado, Júlia já estava na faculdade,
prestando letras, queria ser professora de português, Ed apoiava muito a
decisão dela e se sentia orgulhoso da namorada - algo que ela não achara na
família.
Como podia se lembrar com precisão
dos receios antigos, depois de tudo isso?
13
Seus amigos foram entrando pela
porta da frente. Um a um. Primeiro Gustavo, com a mochila nas costas e
segurando o notebook na mão esquerda,
este sorriu e foi se instalando na sala. Depois veio Bola - como a próprio
apelido dizia, era o gordo da turminha, apesar de que o Luquinha não fosse tão
magro -, não levava nada. Por último
veio Luquinha, ostentando a maior barba e trazendo algumas merdas para comer.
Era sexta à noite, e sempre naquele momento Ed
se sentia mal por provavelmente aborrecer a mãe - embora ela não falasse nada
sobre aquele evento que tinha se tornado um ritual, pelo contrário, parecia
ficar feliz por ver os amigos do filho. Mesmo assim, para Ed era vergonhoso não
ter sua própria casa, ainda viver às custas da mãe e continuar fazendo aquelas
coisas que tiravam a privacidade dela. Ele mesmo achava que era um sentimento
bobo, mas sentia isso quando olhava toda sexta, à noite, - desde fizera 18 anos
- os amigos entrando pela porta.
Pelo menos passava rápido.
Tinha um sorriso no rosto, era
sempre bom ver os amigos na sexta e fazerem coisas juntos. Então, quando já
estavam todos acomodados na sala, Ed perguntou:
- E aí, o que vamos fazer hoje? -
olhou de um para o outro.
- Cara, tava pensando de a gente
assistir uns filme hoje, hein! To sentido falta da sessão de filmes! - disse
Bola.
- Verdade! - exclamou Luquinha.
- Por mim, pode ser isso! - comentou
Gustavo.
- Ok... então, que filmes vamos ver?
- perguntou Ed.
- Que tal uns filmes do Hitchcock?
- Boa, cara. Realmente uma boa
pedida! Alguém discorda? - falou Gustavo.
Ninguém se manifestou contra e assim
ocorreu uma sessão de filmes do Hitchcock.
Primeiro viram Psicose, o maior
clássico do diretor. Depois passaram para Janela
indiscreta, um filme que era extremamente genial na opinião de Ed, era
mágico como se desenvolviam as tramas, não somente a principal! Assistiram Um corpo que cai, belo e perturbador
filme. Terminou com Festim diabólico,
que na opinião de Ed, mesmo sendo um filme bom, era o pior dos quatro que
viram.
Ed já tinha visto todos aquele
filmes, mas fora legal ver tudo de novo, compartilhando as reações com os
amigos. Discutindo a cada término de um filme sobre o enredo do mesmo.
Eram quatro horas da manhã - parecia pouco tempo, depois de tantas
discussões e filmes - e, como os amigos não moravam tão longe uns dos outros,
resolveram voltar para casa, dormir na própria cama. Era algo que normalmente
não acontecia nesses eventos de sexta. Normalmente dormiam todos lá, na casa de
Ed. Mas ele não se preocupou demais, nem deixou aquilo martelar na cabeça.
Arrumou o melhor que pôde a sala no cansaço e sono que sentia após aquela boa
diversão e foi para o quarto, também dormir. Ouviu o ronco suave da mãe antes
de fechar a porta e essa foi a última coisa que passou na sua mente antes
deitar e dormir imediatamente, como num passe de mágica.
14
Gustavo chegara em casa com sono, um
sono gigante. Entretanto, havia prometido a si mesmo que terminaria de ler Novembro de 63, um livro do Stephen
King. Faltavam apenas 30 páginas e era uma posição que não podia mais suportar.
Por isso tomou banho, um banho
consideravelmente gelado por conta do frio da noite, ajudando-o a ficar de pé.
Quando acabara de se trocar, acendeu
a luminária perto da cama e deitou-se nela, puxou o cobertor até a metade do
corpo e o livro até o peito.
Foi quando começou a chover. O que
passou na sua cabeça foi que Luquinha tomaria um pouco de chuva e se não se
apreçasse, iria se encharcar.
Nunca passara pela sua mente que o
fim de sua amizade com Ed começaria ali. Que a mãe do amigo seria assassinada
brutalmente por um louco dali a alguns minutos.
15
Não
estava dolorido, nem mesmo tonto. Era uma boa desculpa... para que pudesse se
agarrar. Mas ele sabia,
sabia
que o estranho estava lá, à espreita. Na verdade, naquele momento, sua mãe já estava morta....
Foi
difícil aceitar. Porém, a certeza era gigantesca.
A
mãe estava morta.
Como
qualquer um naquele tipo de situação, colocou toda a culpa em si mesmo. Para
dizer a verdade, uma boa parte era de qualquer forma. Deveria fazer aquilo?
Não, não naquele momento, pelo menos.
As lágrimas saíram, mas foram
forçadas a isso.
Por
quê?
Por que elas não haviam saído
sozinhas? A pessoa morta não era porra da
mãe dele?
Elas precisaram ser forçadas, pois
Ed, acima de tudo, sentia raiva. Raiva de si mesmo. Raiva do estranho. Era
triste ver que não chorava desesperadamente pela mãe. Não se debatia como um
louco, ou, até mesmo, não tinha um fio de esperança que uma pessoa normalmente
teria.
E isso era triste.
Mas o que podia fazer? Tudo fora
construído malignamente. Nada era totalmente inédito. Ed já tinha sentido
aquilo - ou melhor, tinha visto. A
raiva superava todas as emoções. Queria matar o estranho, e desejava ainda mais matar a si mesmo. Um sentimento
desesperador.
Muito relutantemente, ficou em pé.
Os pés descalços tocando o chão gelado, como no sonho que tivera. Viu o luar
entrando pela janela. A lua parecia ter um certo tipo de tom sangrento. Algo
agourento.
Tentava com todas as forças aguentar
a raiva. Não pirar de vez. Ainda tinha um último trabalho, algo que sustentava
seus pés no chão. Uma morte, para ser mais exato. Abriu a porta do quarto de
forma bem devagar. Não tinha medo. O escuro
não dava medo. Porque ele sabia o que o esperava. Em Ed havia somente o
sentimento da raiva, selvagem e animalesco. A essência do homem. Aquela seria
sua verdadeira face? Ou a verdadeira de qualquer humano?
Quando fitou o corredor, a porta já
escancarada, viu o sangue. A substância primordial vermelha e viscosa. Avançou,
sem qualquer tipo de nojo do toque do pé no chão rubro, sangrento. Mas agora,
em vez de seguir direto para o destino, o destino final, virou para o lado
contrário à porta do cômodo onde Maria jazia. Indo em direção à cozinha, onde a
velha faca de cortar carne o esperava.
Ao primeiro passo que deu na sala, a
enxaqueca veio subitamente, sentindo-se tonto. Mesmo assim, prosseguiu. Massageava
as têmporas com força, sentido uma espécie de alívio. Mas, nunca tivera nenhuma
enxaqueca igual àquela, que a cada passo, sentia uma dor pungente na cabeça,
mais especificamente nas têmporas. De
qualquer maneia foi, à passos rápidos - ainda com cuidado pra que o
estranho não o escutasse -, até a cozinha. Quando estava olhando para a
faca, reluzente por conta do luar - algo
que estremeceu sua cabeça -, virou a cabeça para o lado e viu o telefone, se
lembrando imediatamente que podia ligar para o senhor Turco, seu vizinho.
Então, teve uma ideia. Voltou a
direção para o cozinha, onde um objeto afiado de uns 20 centímetros, o cabo de
manejar na cor preta, o esperava. Pegou rapidamente a faca, com os olhos
semicerrados por causa do luar que fazia reflexo na lâmina. Em seguida, foi
indo para a sala e parou somente para olhar o relógio de parede que tinha acima
da entrada para a cozinha.
6:00
da manhã
Não tinha dormido nem duas horas
direito. Lembrou do dia da visão, recordando que, quando estava no corredor,
dolorido e tonto, tinha esquecido de como viera parar lá - como havia saído da
cama. Será que aconteceria alguma coisa antes de chegar até o quarto da mãe? Ia
bater a cabeça ou alguma coisa assim?
Ed pensava que não, era madrugada
ainda na premonição que tivera, só se o desmaio fosse muito breve, pois pouco
mais o sol ia raiar. Mesmo assim, ia tomar cuidado.
Foi quando sentiu algo muito
estranho. Talvez agourento. Abruptamente, sentiu a faca ficar tremendamente
mais pesada na mão direita. Que merda era aquela?
O peso foi aumento de tal modo que
quase não podia carregá-la direito, quem dirá manusea-la. Tentou segurá-la com
as duas mãos, entretanto ela ia escorregando das mãos de qualquer forma, as mãos que tremiam agora.
De repente, pensou que talvez tudo
fosse acabar - nos mínimos detalhes - como no que tinha vaticinado. Ia perder a
faca no meio do caminho por conta de seu peso cada vez mais insuportável,
bateria cabeça na parede e de algum modo, provavelmente por algum impulso,
despertaria com as mão na parede azul-claro, cheia de borrifos de sangue da
mãe, tonto e extremamente dolorido, mas ainda sim são.
(
Então.. talvez ela não esteja morta... não é? Se for ser daquele jeito,
talvez... )
Contudo,
estava. Sua mãe já estava morta. As coisas não seriam como no sonho vívido e
real que tivera. Ed sabia disso, não podia se dar a desleixos de novo.
Fitou a faca que escorregava das
mãos. A enxaqueca cada vez mais crescente, assim com o impulso de massagear as
têmporas. Olhou para o relógio novamente, que tocava sua canção maligna.
Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac,
Tic-tac
Os
ponteiros se moviam numa calma que enfureceu Ed.
6:02
O
que ia fazer? Pensou em, num gesto derradeiro utilizando todas suas forças, se
matar com aquela faca.
Não, não podia. Tinha um objetivo
ainda para cumprir. Um objetivo sério. Depois poderia se encontrar com a mãe,
na sua vida após a morte.
Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac,
Tic-tac
Então a raiva
explodiu. Sentia o gosto da bílis na boca.
Encontrou forças de um lugar
desconhecido e atirou a faca contra o relógio. Fazendo um baque fraco contra
ele, mas, mesmo assim, o fez cair. Num estrondo alto que encheu a casa e
ocultou o som da faca que se espatifara no chão também. As peças voaram para tudo o que é lado.
Ed segurou um berrou.
Suava muito e a enxaqueca do mesmo
modo explodiu. Como uma bomba relógio. Bizarramente, sentia o cérebro latejar.
Mas que merda era tudo aquilo?
(
HEIN?!)
Era
o futuro praticando sua obstinação ou alguma outra força?
Não sabia, mas iria matar o estranho e depois se encontraria com a
mãe, feliz e com paz de espírito.
Atravessou a entrada da cozinha,
desviando dos restos do relógio. A raiva ainda o consumindo. Pelo menos, não
sentia medo - medo de que o estranho
pudesse ter ouvido o relógio se quebrar e agora tivesse pensando em com fugir
(o que era lógico).
Porque sabia, na verdade sempre
soube, que ele estaria o esperando. Ed tinha a certeza de que tudo o que
acontecera fora para aquela conversa se realizar. Algo que o deixava mais
irritado ainda. Mais com ódio de si mesmo e do outro.
Seria porque Ed tinha poderes
sobrenaturais?
Começava a apostar nisso. Mas, tudo
acabaria logo. As forças voltaram.
16
Dormia
tranquilamente quando ouviu um barulho estranho. Turco acordou.
- Érica, você ouviu alguma coisa? -
disse num tom ameno na escuridão do quarto, com
a voz embargada por conta do sono. A janela estava fechada pois não
gostava nem mesmo na luz do luar.
- Hum...
Suspirou.
- Deixe quieto, volte a dormir. Eu
resolvo isso.
Acendeu a luminária do seu lado da
cama, fazendo com que Érica virasse rosto da luz, resmungando.
- Não posso fazer nada, quem mandou se casar com um velho? - murmurou alto suficiente para ela ouvir.
Calçou os chinelos e se levantou da
cama. O corpo inteiro estalou.
- Ai!
- Hã?! O que foi? - disse Érica,
assustada se virando para o marido.
- Nada, nada. Volte a dormir meu bem.
Tudo sobre controle.
Ele viu o sorriso no rosto dela
quando fechou os olhos e se esparramou de novo na cama, puxando a coberta até o
ombro. Mas que diabos de sono ela tinha? Se pegou sorrindo consigo mesmo. Amava
aquela mulher apesar de tudo. Mesmo ela sendo 11 anos mais nova que ele. Algo
que antigamente nunca aceitaria. Mas lá estava ele. Aguentando os olhares
acusadores que, em pleno século XXI, as pessoas ainda davam. Entretanto, não
podia recrimina-las tanto. Ainda tinha certo preconceito contra casais gays.
O barulho veio da sua casa ou do
vizinho? Não sabia responder. Resolveu conferir a casa. Embora achasse
que não era nada, como na maioria das vezes, não podia deixar de resolver
aquele empecilho. Era o trabalho de um homem; manter a esposa
confortável e em segurança.
Desceu o pequeno lance de escadas do
seu sobrado com um cabo de vassoura nas mãos. Guardava o objeto que tinha como
arma no banheiro, para casos como aquele.
(
De qualquer maneira, quem é o desgraçado que faz um estrondo daqueles a plena 6
horas da manhã, hein?!)
Pensou
nisto quando olhou para o relógio de parede que tinha na sala. Não lembrou na hora ,
mas era bem parecido com o de Ed. A borda dourada e as horas em números
romanos, num estilo antigo. E o mesmo tique-taque. Um tique-taque que acalmava
os neurônios de Turco.
Passou pela grande sala ligando
todas as luzes. Olhando tudo com cuidado. Não viu nada - pelos menos não ali.
Espantará quem quer que estivesse? Achava que não, se esse alguém havia fugido
ele provavelmente teria escutado algum barulho, seja das porta ou das janelas,
até mesmo do assoalho. Aquela velha casa rangia alto ante a qualquer movimento,
principalmente na madrugada, quando tudo fica quieto. Um mecanismo de segurança
natural, dissera Turco a sua amada quando esta reclamara dos rangidos. Mas, já
haviam se habituado aos rangidos. Tanto que talvez não vivessem mais sem eles.
Agora ele realmente achava que não
era nada. Passara por todos os cômodos, acendendo as luzes, olhando atentamente
para cada móvel e peça de decoração, procurando algum possível roubo ou algum
vestígio do que fizera o barulho. Mas não havia nada.
Suando um pouco, com as juntas
doendo e ainda estalando de vez em quando, voltou para a sala.
O tique-taque do relógio.
Fitou o relógio novamente e teve certeza
de que se o estrondo tivesse realmente acontecido ali, teria vindo daquele
velho objeto. Os pedaços se espalhando para tudo quanto lado.
Uma certeza estranha.
Algum conhecido seu não tinha um
relógio semelhante?
(
Sim, ah, sim! De quem era...........
SIM! Não,não .......... Ah, claro! Velho burro! Era ...)
Era
da sua vizinha. Maria, que tinha um filho de dezoito anos, chamado Eduardo,
mais conhecido como Ed. Quantos anos ela tinha? Bom, não sabia. Mas chutava uns
44.
É, a velhice estava mostrando seu
grande rosto feio e desagradável. Como não podia lembrar? Fora ele mesmo que
dera o relógio para a moça, quando alguns anos atrás, chegara como nova
vizinha. Agora lembrava que seu primo
Carlos havia feito dois relógios parecidos e lhe dado de presente, num natal
longínquo. E ele, por falta de alguém para dar o outro relógio no feriado
movimentado, resolvera dá-lo a nova vizinha. Lembrava-se de que tinha tido
certa afeição pela moça. Talvez alguma paixão. Bom, de qualquer modo não estava
com Érica ainda, só a tinha visto algumas vezes.
Turco se sentou no sofá, respirando
fundo. Pensava que o estrondo, aquele estrondo alto, havia mesmo acontecido.
Ainda não estava louco.
Mas
quanto tempo falta para não ficar?
Não,
não. Aquela merda de voz da consciência enchendo o saco novamente. Então, o que
iria fazer para provar a si mesmo que não estava louco?
Puxou o telefone para si e começou a
digitar os números.
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