quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ed - Capítulo 2 - parte 4/5

8
           
                        Júlia não sabia o que podia fazer por Ed. Ele não gostava muito de conversar sobre o pai, nem daquilo que parecia o perturbar mais ainda. Tinha ficado um pouco taciturno desde o que ocorrera naquela noite e ela não entendia e não parecia que era só o pai, aparentava ser algo pior.
            Colocou o livro de lado  e ligou o monitor do computador, não conseguia estudar. Ficava pensando no seu namorado. Teria que de alguma forma, fazer ele compartilhar aquilo com ela. Não eram um casal? Ela mesma não compartilhava tudo com ele? Por que não podia ser o mesmo com Ed?
            Abriu a página do facebook e, em vão, tentou ver se ele estava online. Selecionou Ed, o chat se abriu e Júlia viu que a última conversa que tivera com ele ali, havia sido em 11 de Junho, um dia antes da festa de aniversário e 3 semanas anteriores àquela. Tinham conversado pessoalmente, é claro, mas fazia tempo que Ed não entrava no computador, ele mesmo já havia falado. E outra coisa, as férias já tinham chegado e ela queria se divertir e de preferência com seu namorado. Mas Ed parecia sombrio demais, ainda que ria e fazia piadas - porém, de alguma forma, Júlia sentia que ele fazia por obrigação. O que realmente havia acontecido?
            Desligou o computador e respirou profundamente. Ia dormir naquela hora. Talvez sonhasse com ele, nos seus dias alegres. Quase chorou, mas ficou  apenas no quase. Esparramou-se na cama.
            ( Acho que eu vou conversar com a mãe dele... Ele mesmo não disse que tava preocupado com ela? Provavelmente ela sabe de algo que eu não sei... Maria gosta de mim... acho que vai contar... e assim eu vou ajudar Ed, custe o que custar )
            Dormiu, com um sorriso no rosto. Um travesseiro sob a cabeça e outro entre os braços.

9
            A coisa ficou realmente difícil quando Gustavo perguntava... questionava do porque Ed estar se afastando dele. E Ed dizia estar doente e não querendo que ele fosse lá, pelo menos até ele se recuperar e os dois poderem fazer as coisas juntos. Uma grande mentira. Ele se sentia muito ruim por conta disso, mas o que podia fazer? Era necessário, sentia que a qualquer desleixo sua mãe acabaria como naquela visão.
            Morta.
            Ainda mantinha certo contato pessoal com Júlia, porque era foda fazer merda com ela, logo naqueles primeiros momentos de namoro, embora sentisse sua chateação e preocupação para com ele. Mas não tinha o que fazer, no mínimo por enquanto. Depois acertaria tudo com todos. A grande merda era que Ed, não sabia como ia reagir. Havia pensado em ligar para a polícia quando visse o cara, mas aí lembrou que não tinha visto o rosto do estranho, apenas saberia o identificar se estivesse nu, o peito peludo, o corpo magro. O único plano que tinha no momento era ficar acordado todas as madrugadas... e isso podia fazer, já que eram férias. Na hora em que o visse, ligaria pra polícia. O difícil era que não sabia o momento exato, mas tinha quase certeza que era mesmo de madrugada, umas três horas. Também apostava um pouco no efeito borboleta, parecia um esperança boba, porém, continuava com ela.
            Essa era uma das noites em que estava de vigia, fingia ler um livro no sofá - até lia mesmo, de vez em quando -, contudo, sua atenção estava na porta do quarto da mãe e mais ainda na janela que dava pra rua, atrás de si. Do lado do braço do sofá que estava, havia um telefone sem fio sobre uma mesinha. O número 190 preenchia sua mente.
            Mas Ed sabia de uma coisa. Talvez não desse tempo da polícia chegar. Por isso havia uma faca de cortar carne encima da pia. Embora não tivesse certeza de que conseguiria usá-la contra o assassino, pensava que para salvar a mãe, encontraria coragem suficiente. Cogitava em ligar para o vizinho, o senhor Turco, e era provável fosse fazer isso.
            Parecia um bom plano...  que talvez salvasse a mãe.
           
10
            As férias tinham acabado. Gustavo se sentia frustrado e ao mesmo tempo feliz. Era fácil ver porque estava feliz, tinha ido na casa do amigo no dia anterior e ia mais uma vez ainda naquele dia. Mas estava frustrado, uma vez que passara as férias inteiras sem o vê-lo, nem ao menos pela internet e sabia que era mentira aquela porra dele estar doente. Tinha conversado com Maria e ela concordara que era estranho, prometendo conversar com Ed.
            Parecia que tinha dado certo, graças a deus. Odiaria perder o melhor amigo, por conta de uma menina, talvez. Sabia que ele ainda se encontrava com Júlia nas férias.
            Neste momento o via, prestando atenção na aula de matemática.
            - Ed?
            - Huh?
            - Como anda o namoro com a Júlia?
            - Posso falar depois? To prestando atenção nessa aula, você também deveria estar. Parece bem importante.
            Então, Gustavo ficou quieto. Mas continuou vendo a cara séria do amigo.
            Estava feliz afinal de contas.

11
         Ed, uns tempos atrás, tinha sido bombardeado por questionamentos da mãe, que ele sabia com total certeza, virem 90% de Júlia e Gustavo. E por exortação dela, passara a vê-los mais, até porque aquele sentimento de mau agouro cessara. Mas ainda tinha seus receios, não podia deixar-se desleixar mais do que aquilo. 
           Começava a dar cada vez mais credibilidade ao efeito borboleta. Tinha quase certeza de que ele estava funcionando, ou já funcionara.
            ( Aqui é meu limite, porque minhas visões sempre ocorreram. Não posso deixar essa porra de negligência me consumir. Tenho de ficar atento ... )
            Olhou para Júlia e sorriu. Deu uma olhadela no relógio de pulso que agora usava e disse:
            - Tenho de ir, são seis e meia da tarde.
            - Hum, não vejo razão para isso... Não está gostando de passar um tempo com a sua namorada?
            Eles estavam num parque ao ar livre, perto da escola, acima de um rio. Se Ed olhasse para trás veria o nome da escola, bem no alto do prédio: Colégio Era; nas cores azuis, dois jovens sorrindo na foto mais acima.
            - Não, realmente não.
            - Ok, vou indo nessa.
            -Não, sua boba! Eu tenho de estudar pra Gramática, to meio mal. - os dois estavam deitados na grama sobre a sombra das árvores, olhavam o ocaso, Ed abraçou ela e beijou seu pescoço.
            - Mentira, você nunca foi mal em Gramática.
            - Verdade, se quiser pode ir comigo, estudar - sabia que ela não aceitaria, por isso fizera o convite.
            - Não, não... to afim não.
            - Então, tá beleza - ele se levantou e estendeu a mão pra ela se apoiar. Júlia se mostrou relutante, como alguém que faz birra pra acordar.
            - Vamos logo - disse Ed.
            - Que merda, hein! Tava tão gostoso.
            Ed riu. Ela mostrou um sorriso e  o deixou  levantá-la.
            - Quer que eu a leve para casa?
            - Não precisa. Sei me cuidar.
            - Ok, estou indo, então - Ed a beijou de novo e virou na direção da casa, dando passos rápidos, o ocaso já caía e queria estar em casa antes de escurecer. Sentiu o olhar que a namorada pousava nas suas costas, mas não chegou a dar alguma importância relevante.
            ( Mãe...)
           
12
            Nada aconteceu até acabar o ano de 2010 e mesmo Ed não querendo, se dera ao desleixo de ultrapassar àquele limite antes imposto por ele próprio. Nunca uma visão fora tão longe, então agora ele passara a crer 99% que o efeito borboleta funcionava, que ele mudara o futuro com coisas que normalmente não faria. Conversando e dando mais atenção pra mãe. Talvez quando dissera a mãe sobre o estranho, tempos atrás...
             Então, por favor, me diga que nunca vai sair com um cara magro e... e... de peito peludo.
            ... e ela respondera que não - não iria fazer isso -, mesmo que desconfiando do filho. Talvez aquilo tivesse mudado o futuro. 
            Mas Ed havia esquecido algo primordial, que o futuro era obstinado e não mudava tão facilmente.
            Assim, mas um ano se passou, Ed fez 17 anos. Tinha finalmente se tornado mais social e agora ele e Gustavo possuíam um grupo de amigos que curtiam as mesmas coisas. Bola, Luquinha, Gustavo e ele próprio. Esses dois caras eles haviam conhecido a partir de um mmorpg, e eram da mesma cidade, logo tudo se encaixou. Não era que Ed nunca tivera mais amigos, mas a maioria eram só colegas - amigos que só encontrava na escola, não tinha maior intimidade com eles. Esses não, eram melhores amigos.
            A relação com Júlia estava cada vez mais concreta e os dois mais maduros. Pensavam em se casar, porém, era algo que por enquanto não havia saído do ''pensar''.    
            Ed aos poucos, desde de a separação da mãe e do pai e todos aqueles problemas de alcoolismo de Jorge, foi se inserindo na sociedade novamente. Isso tinha muita contribuição da namorada - a qual agradecia muito -, do psiquiatra que ele antes frequentara, e da própria mãe, é lógico, que agora saia também com umas amigas, dentre elas a mãe de Gustavo.  Ed até mesmo participara, no ano de 2012, de alguns protestos na cidade, que reclamavam do comportamentos policial com as classes mais pobres.
            Naquele mesmo ano, já com 18 de existência, Ed descobrira seu verdadeiro talento. Escrever. Tinha escrito antes algumas coisas, umas curtas e outras mais longas, como aventuras que ia  havia mestrado nos rpgs de mesa que seu grupinho frequentemente jogava. Mas nada se comparava àquele momento, tinha se tornado algo mais sério e de longe mais profissional, uma vez que, alguns meses depois - por meio de uns contatos malucos -, conseguira ter um coluna só sua num importante jornal da cidade (Aimara, no estado de São Paulo, a cidade onde sempre esteve), Jornal Bom Dia! Onde passara escrever crônicas curtas e geralmente humorísticas duas vezes por semana, nas terças e quintas.  Por uma tremenda sorte, quem ele havia conhecido fora o diretor-executivo do jornal, um homem chamo Silvio Machado, e o cara gostara muito de Ed e sua escrita, tanto que acabou o contratando!
            Também estava se dedicando bastante a um romance, que por enquanto não tinha nenhum nome em específico, era algo que estava fazendo com muito carinho e satisfação. Ainda era 2012 e Ed, já fora da escola, não prestara  nenhum vestibular, queria aquele ano para ver se conseguiria se manter só da escrita - caso não conseguisse, naquele mesmo ano iria prestar vestibular, contudo não era o que realmente desejava -, e fora isto que tinha dito à sua mãe.  Por outro lado, Júlia já estava na faculdade, prestando letras, queria ser professora de português, Ed apoiava muito a decisão dela e se sentia orgulhoso da namorada - algo que ela não achara na família.
            Como podia se lembrar com precisão dos receios antigos, depois de tudo isso?


13
            Seus amigos foram entrando pela porta da frente. Um a um. Primeiro Gustavo, com a mochila nas costas e segurando o notebook na mão esquerda, este sorriu e foi se instalando na sala. Depois veio Bola - como a próprio apelido dizia, era o gordo da turminha, apesar de que o Luquinha não fosse tão magro -,  não levava nada. Por último veio Luquinha, ostentando a maior barba e trazendo algumas merdas para comer.
             Era sexta à noite, e sempre naquele momento Ed se sentia mal por provavelmente aborrecer a mãe - embora ela não falasse nada sobre aquele evento que tinha se tornado um ritual, pelo contrário, parecia ficar feliz por ver os amigos do filho. Mesmo assim, para Ed era vergonhoso não ter sua própria casa, ainda viver às custas da mãe e continuar fazendo aquelas coisas que tiravam a privacidade dela. Ele mesmo achava que era um sentimento bobo, mas sentia isso quando olhava toda sexta, à noite, - desde fizera 18 anos - os amigos entrando pela porta.
            Pelo menos passava rápido.
            Tinha um sorriso no rosto, era sempre bom ver os amigos na sexta e fazerem coisas juntos. Então, quando já estavam todos acomodados na sala, Ed perguntou:
            - E aí, o que vamos fazer hoje? - olhou de um para o outro.
            - Cara, tava pensando de a gente assistir uns filme hoje, hein! To sentido falta da sessão de filmes! - disse Bola.
            - Verdade! - exclamou Luquinha.
            - Por mim, pode ser isso! - comentou Gustavo.
            - Ok... então, que filmes vamos ver? - perguntou Ed.
            - Que tal uns filmes do Hitchcock?
            - Boa, cara. Realmente uma boa pedida! Alguém discorda? - falou Gustavo.
            Ninguém se manifestou contra e assim ocorreu uma sessão de filmes do Hitchcock. Primeiro viram Psicose, o maior clássico do diretor. Depois passaram para Janela indiscreta, um filme que era extremamente genial na opinião de Ed, era mágico como se desenvolviam as tramas, não somente a principal! Assistiram Um corpo que cai, belo e perturbador filme. Terminou com Festim diabólico, que na opinião de Ed, mesmo sendo um filme bom, era o pior dos quatro que viram.
            Ed já tinha visto todos aquele filmes, mas fora legal ver tudo de novo, compartilhando as reações com os amigos. Discutindo a cada término de um filme sobre o enredo do mesmo.
             Eram quatro horas da manhã - parecia pouco tempo, depois de tantas discussões e filmes - e, como os amigos não moravam tão longe uns dos outros, resolveram voltar para casa, dormir na própria cama. Era algo que normalmente não acontecia nesses eventos de sexta. Normalmente dormiam todos lá, na casa de Ed. Mas ele não se preocupou demais, nem deixou aquilo martelar na cabeça. Arrumou o melhor que pôde a sala no cansaço e sono que sentia após aquela boa diversão e foi para o quarto, também dormir. Ouviu o ronco suave da mãe antes de fechar a porta e essa foi a última coisa que passou na sua mente antes deitar e dormir imediatamente, como num passe de mágica.

14
            Gustavo chegara em casa com sono, um sono gigante. Entretanto, havia prometido a si mesmo que terminaria de ler Novembro de 63, um livro do Stephen King. Faltavam apenas 30 páginas e era uma posição que não podia mais suportar. Por isso tomou banho, um  banho consideravelmente gelado por conta do frio da noite, ajudando-o a ficar de pé.
            Quando acabara de se trocar, acendeu a luminária perto da cama e deitou-se nela, puxou o cobertor até a metade do corpo e o livro até o peito.
            Foi quando começou a chover. O que passou na sua cabeça foi que Luquinha tomaria um pouco de chuva e se não se apreçasse, iria se encharcar.
            Nunca passara pela sua mente que o fim de sua amizade com Ed começaria ali. Que a mãe do amigo seria assassinada brutalmente por um louco dali a alguns minutos.

15
            Não estava dolorido, nem mesmo tonto. Era uma boa desculpa... para que pudesse se agarrar. Mas ele sabia,
            sabia que o estranho estava lá, à espreita. Na verdade, naquele momento,  sua mãe já estava morta....
            Foi difícil aceitar. Porém, a certeza era gigantesca.
            A mãe estava morta.
            Como qualquer um naquele tipo de situação, colocou toda a culpa em si mesmo. Para dizer a verdade, uma boa parte era de qualquer forma. Deveria fazer aquilo? Não, não naquele momento, pelo menos.
            As lágrimas saíram, mas foram forçadas a isso.
            Por quê?
            Por que elas não haviam saído sozinhas? A pessoa morta não era porra da mãe dele?
            Elas precisaram ser forçadas, pois Ed, acima de tudo, sentia raiva. Raiva de si mesmo. Raiva do estranho. Era triste ver que não chorava desesperadamente pela mãe. Não se debatia como um louco, ou, até mesmo, não tinha um fio de esperança que uma pessoa normalmente teria.
            E isso era triste.
            Mas o que podia fazer? Tudo fora construído malignamente. Nada era totalmente inédito. Ed já tinha sentido aquilo - ou melhor, tinha visto. A raiva superava todas as emoções. Queria matar o estranho, e desejava ainda mais matar a si mesmo. Um sentimento desesperador.
            Muito relutantemente, ficou em pé. Os pés descalços tocando o chão gelado, como no sonho que tivera. Viu o luar entrando pela janela. A lua parecia ter um certo tipo de tom sangrento. Algo agourento.
            Tentava com todas as forças aguentar a raiva. Não pirar de vez. Ainda tinha um último trabalho, algo que sustentava seus pés no chão. Uma morte, para ser mais exato. Abriu a porta do quarto de forma bem devagar. Não tinha medo. O escuro  não dava medo. Porque ele sabia o que o esperava. Em Ed havia somente o sentimento da raiva, selvagem e animalesco. A essência do homem. Aquela seria sua verdadeira face? Ou a verdadeira de qualquer humano?
            Quando fitou o corredor, a porta já escancarada, viu o sangue. A substância primordial vermelha e viscosa. Avançou, sem qualquer tipo de nojo do toque do pé no chão rubro, sangrento. Mas agora, em vez de seguir direto para o destino, o destino final, virou para o lado contrário à porta do cômodo onde Maria jazia. Indo em direção à cozinha, onde a velha faca de cortar carne o esperava.
            Ao primeiro passo que deu na sala, a enxaqueca veio subitamente, sentindo-se tonto. Mesmo assim, prosseguiu. Massageava as têmporas com força, sentido uma espécie de alívio. Mas, nunca tivera nenhuma enxaqueca igual àquela, que a cada passo, sentia uma dor pungente na cabeça, mais especificamente nas têmporas.  De qualquer maneia foi, à passos rápidos - ainda com cuidado pra que  o estranho não o escutasse -, até a cozinha. Quando estava olhando para a faca,  reluzente por conta do luar - algo que estremeceu sua cabeça -, virou a cabeça para o lado e viu o telefone, se lembrando imediatamente que podia ligar para o senhor Turco, seu vizinho.
            Então, teve uma ideia. Voltou a direção para o cozinha, onde um objeto afiado de uns 20 centímetros, o cabo de manejar na cor preta, o esperava. Pegou rapidamente a faca, com os olhos semicerrados por causa do luar que fazia reflexo na lâmina. Em seguida, foi indo para a sala e parou somente para olhar o relógio de parede que tinha acima da entrada para a cozinha.
            6:00 da manhã
            Não tinha dormido nem duas horas direito. Lembrou do dia da visão, recordando que, quando estava no corredor, dolorido e tonto, tinha esquecido de como viera parar lá - como havia saído da cama. Será que aconteceria alguma coisa antes de chegar até o quarto da mãe? Ia bater a cabeça ou alguma coisa assim?
            Ed pensava que não, era madrugada ainda na premonição que tivera, só se o desmaio fosse muito breve, pois pouco mais o sol ia raiar. Mesmo assim, ia tomar cuidado.
            Foi quando sentiu algo muito estranho. Talvez agourento. Abruptamente, sentiu a faca ficar tremendamente mais pesada na mão direita. Que merda era aquela?
            O peso foi aumento de tal modo que quase não podia carregá-la direito, quem dirá manusea-la. Tentou segurá-la com as duas mãos, entretanto ela ia escorregando das mãos de  qualquer forma, as mãos que tremiam agora.
            De repente, pensou que talvez tudo fosse acabar - nos mínimos detalhes - como no que tinha vaticinado. Ia perder a faca no meio do caminho por conta de seu peso cada vez mais insuportável, bateria cabeça na parede e de algum modo, provavelmente por algum impulso, despertaria com as mão na parede azul-claro, cheia de borrifos de sangue da mãe, tonto e extremamente dolorido, mas ainda sim são.
            ( Então.. talvez ela não esteja morta... não é? Se for ser daquele jeito, talvez... )
            Contudo, estava. Sua mãe já estava morta. As coisas não seriam como no sonho vívido e real que tivera. Ed sabia disso, não podia se dar a desleixos de novo.
            Fitou a faca que escorregava das mãos. A enxaqueca cada vez mais crescente, assim com o impulso de massagear as têmporas. Olhou para o relógio novamente, que tocava sua canção maligna.
            Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac
            Os ponteiros se moviam numa calma que enfureceu Ed.
            6:02
            O que ia fazer? Pensou em, num gesto derradeiro utilizando todas suas forças, se matar com aquela faca.
            Não, não podia. Tinha um objetivo ainda para cumprir. Um objetivo sério. Depois poderia se encontrar com a mãe, na sua vida após a morte.
            Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac, Tic-tac
            Então a raiva explodiu. Sentia o gosto da bílis na boca.
            Encontrou forças de um lugar desconhecido e atirou a faca contra o relógio. Fazendo um baque fraco contra ele, mas, mesmo assim, o fez cair. Num estrondo alto que encheu a casa e ocultou o som da faca que se espatifara no chão também.  As peças voaram para tudo o que é lado.
            Ed segurou um berrou.
            Suava muito e a enxaqueca do mesmo modo explodiu. Como uma bomba relógio. Bizarramente, sentia o cérebro latejar.
            Mas que merda era tudo aquilo?
            ( HEIN?!)
            Era o futuro praticando sua obstinação ou alguma outra força?
            Não sabia, mas iria matar o estranho e depois se encontraria com a mãe, feliz e com paz de espírito.
            Atravessou a entrada da cozinha, desviando dos restos do relógio. A raiva ainda o consumindo. Pelo menos, não sentia medo - medo de que o estranho pudesse ter ouvido o relógio se quebrar e agora tivesse pensando em com fugir (o que era lógico).
            Porque sabia, na verdade sempre soube, que ele estaria o esperando. Ed tinha a certeza de que tudo o que acontecera fora para aquela conversa se realizar. Algo que o deixava mais irritado ainda. Mais com ódio de si mesmo e do outro.
            Seria porque Ed tinha poderes sobrenaturais?
            Começava a apostar nisso. Mas, tudo acabaria logo. As forças voltaram.
           
16
                        Dormia tranquilamente quando ouviu um barulho estranho. Turco acordou.
            - Érica, você ouviu alguma coisa? - disse num tom ameno na escuridão do quarto, com  a voz embargada por conta do sono. A janela estava fechada pois não gostava nem mesmo na luz do luar.
            - Hum...
            Suspirou.        
            - Deixe quieto, volte a dormir. Eu resolvo isso.
            Acendeu a luminária do seu lado da cama, fazendo com que Érica virasse rosto da luz, resmungando.
            - Não posso fazer nada, quem mandou se casar com um velho? - murmurou alto suficiente para ela ouvir.
            Calçou os chinelos e se levantou da cama. O corpo inteiro estalou.
            - Ai!
            - Hã?! O que foi? - disse Érica, assustada se virando para o marido.
            - Nada, nada. Volte a dormir meu bem. Tudo sobre controle.
            Ele viu o sorriso no rosto dela quando fechou os olhos e se esparramou de novo na cama, puxando a coberta até o ombro. Mas que diabos de sono ela tinha? Se pegou sorrindo consigo mesmo. Amava aquela mulher apesar de tudo. Mesmo ela sendo 11 anos mais nova que ele. Algo que antigamente nunca aceitaria. Mas lá estava ele. Aguentando os olhares acusadores que, em pleno século XXI, as pessoas ainda davam. Entretanto, não podia recrimina-las tanto. Ainda tinha certo preconceito contra casais gays.       
            O barulho veio da sua casa ou do vizinho? Não sabia responder. Resolveu conferir a casa. Embora achasse que não era nada, como na maioria das vezes, não podia deixar de resolver aquele empecilho. Era o trabalho de um homem; manter a esposa confortável e em segurança.
            Desceu o pequeno lance de escadas do seu sobrado com um cabo de vassoura nas mãos. Guardava o objeto que tinha como arma no banheiro, para casos como aquele.
            ( De qualquer maneira, quem é o desgraçado que faz um estrondo daqueles a plena 6 horas da manhã, hein?!)
            Pensou nisto quando olhou para o relógio de parede que tinha na sala. Não lembrou na hora , mas era bem parecido com o de Ed. A borda dourada e as horas em números romanos, num estilo antigo. E o mesmo tique-taque. Um tique-taque que acalmava os neurônios de Turco.
            Passou pela grande sala ligando todas as luzes. Olhando tudo com cuidado. Não viu nada - pelos menos não ali. Espantará quem quer que estivesse? Achava que não, se esse alguém havia fugido ele provavelmente teria escutado algum barulho, seja das porta ou das janelas, até mesmo do assoalho. Aquela velha casa rangia alto ante a qualquer movimento, principalmente na madrugada, quando tudo fica quieto. Um mecanismo de segurança natural, dissera Turco a sua amada quando esta reclamara dos rangidos. Mas, já haviam se habituado aos rangidos. Tanto que talvez não vivessem mais sem eles.
            Agora ele realmente achava que não era nada. Passara por todos os cômodos, acendendo as luzes, olhando atentamente para cada móvel e peça de decoração, procurando algum possível roubo ou algum vestígio do que fizera o barulho. Mas não havia nada.
            Suando um pouco, com as juntas doendo e ainda estalando de vez em quando, voltou para a sala.
            O tique-taque do relógio.
            Fitou o relógio novamente e teve certeza de que se o estrondo tivesse realmente acontecido ali, teria vindo daquele velho objeto. Os pedaços se espalhando para tudo quanto lado.
            Uma certeza estranha.
            Algum conhecido seu não tinha um relógio semelhante?
            ( Sim, ah, sim!  De quem era........... SIM! Não,não .......... Ah, claro! Velho burro! Era ...)
            Era da sua vizinha. Maria, que tinha um filho de dezoito anos, chamado Eduardo, mais conhecido como Ed. Quantos anos ela tinha? Bom, não sabia. Mas chutava uns 44.
            É, a velhice estava mostrando seu grande rosto feio e desagradável. Como não podia lembrar? Fora ele mesmo que dera o relógio para a moça, quando alguns anos atrás, chegara como nova vizinha.  Agora lembrava que seu primo Carlos havia feito dois relógios parecidos e lhe dado de presente, num natal longínquo. E ele, por falta de alguém para dar o outro relógio no feriado movimentado, resolvera dá-lo a nova vizinha. Lembrava-se de que tinha tido certa afeição pela moça. Talvez alguma paixão. Bom, de qualquer modo não estava com Érica ainda, só a tinha visto algumas vezes.
            Turco se sentou no sofá, respirando fundo. Pensava que o estrondo, aquele estrondo alto, havia mesmo acontecido. Ainda não estava louco.
            Mas quanto tempo falta para não ficar?
            Não, não. Aquela merda de voz da consciência enchendo o saco novamente. Então, o que iria fazer para provar a si mesmo que não estava louco?

            Puxou o telefone para si e começou a digitar os números. 

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