- Resumo
Todo mundo tem uma história de amor pra
contar, a de algumas pessoas está atrelada há algum fato específico, uma troca
de olhares, um encontrão em uma estação de metro, um telefonema para o número
errado. O amor é assim, quando ele aparece, ele simplesmente aparece, não
precisa receber convite nem bater na porta, basta que haja uma janela aberta.
Thomas também conhece uma história de amor, que ele teve o prazer de acompanhar
de perto. A história se desenvolve em meio à trajetória de um quinteto de jazz
chamado Melancólicos Azuis, seus fracassos e seus sucessos são acompanhados de
uma sutil história de amor que vai se tornando cada vez mais presente, até
culminar em... Bom... Em que essa história culmina, só lendo pra saber.
01- Basin
Street Blues
Hoje é um dia especial, não que seja
um dia especial meu, é que me sinto parte disso tudo, aliás, me sinto
responsável por tudo que tem acontecido. Meu nome é Thomás e toco bateria em um
pequeno grupo de Jazz. Geralmente os bateristas só tocam, é muito difícil
vermos por aí um baterista querendo mandar em uma banda... Tem o Phil Collins,
né, mas depois que ele começou a mandar ele foi pra frente do palco... Mas
enfim, eu não sou esse tipo de baterista, gosto de ficar lá no fundo mesmo, na
minha, gosto de tocar e ponto. A diferença é que sei reconhecer um talento
quando escuto um tocar e é aí que começou tudo... Tudo começou quando comecei
uma briga com o arranjador e trompetista, Hélio, sobre alguém que tocava contra
baixo...
O Hélio é assim, pra tocar Jazz tem
que ser negro e homem. Se for algum tema cantado até vai lá uma mulher, negra
ou branca, mas se é pra tocar, a regra é essa, negro e homem. Tem seu lado
positivo, a banda adquiriu um certo renome, não é todo dia que aparecem cinco
negrões em um barzinho aqui na capital e saem tocando um bop. Se acontecesse, a
chance de sermos nós era cem por cento, sério mesmo. O nome ajudou bastante,
Melancólicos Azuis, sugestão do sax, Welly, o nome original dado pelo Hélio era
Melancholic Blues, mas aí o Welly fez uma brincadeira com o nome em português e
o fato de sermos todos negrões, a brincadeira foi longe mesmo cara, e agora
meio mundo de gente, mesmo que nunca tenha ouvido nosso som sabe que existe uma
banda chamada Melancólicos Azuis cujos integrantes são (eram) cinco negrões.
Esse “eram” em parênteses é a introdução da história que tenho pra contar.
Os Melancólicos eram cinco, como eu
já disse: o Hélio, arranjador e trompetista; o Welly no sax; o Marcus no
contra-baixo; o Wilsão no piano; e eu, Thomás, na bateria. Conheço todo mundo há
muito tempo, desde a adolescência, quando resolvemos que iríamos fazer
diferente, enquanto a galera se divertia cantando um rap, nós queríamos tocar
Jazz, pro Welly e pro Wilsão até que foi fácil, a igreja deles, Congregação,
deu maior apoio e eles receberam apoio dos irmãos e da família, já pra mim, pro
Hélio e o pro Marcus foi bem mais difícil, ralamos mesmo. Ergui umas quatro
casas pra bancar o instrumento e as aulas e quando começamos a tocar pra valer,
o Hélio teve que se demitir, era entregador de pizza no mesmo horário em que
deveríamos tocar.
Já estávamos vivendo das
apresentações há alguns anos, havíamos alugado uma casa e podíamos fazer o
quiséssemos lá, convidávamos amigos e fazíamos uns sons meio doidos, Jazz e Hip
Hop, Jazz e Rock, Jazz e MPB, enfim, a casa era nossa e todo mundo era bem
vindo, quando anoitecia fazíamos o que sabíamos de melhor. Até que um dia o
Marcus vacilou, essa vida boemia tem seus pontos negativos, o Marcus bebia
bastante e brigávamos muito por isso, ele chegava ao ponto de perder o ritmo em
algumas apresentações. Após uma dessas brigas ele pegou a moto e saiu à milhão,
no dia seguinte todo mundo achou que ele tinha desencanado da banda, sua mãe o
achou no IML. Foi barra. Não gosto muito de falar sobre isso.
Continuamos nos apresentando como
quatro negrões, bem mais melancólicos que antes e sem um contra-baixo. E agora
você deve estar pensando “caramba, eu achei que essa era pra ser uma história
feliz!” e eu digo “calma, calma, quem nunca conheceu o fundo do poço não sabe
como é bom estar por cima”. Nossa cidade é cheia de eventos culturais, sabe, e
isso é muito bom, as pessoas deviam aproveitar mais, tem muito evento gratuito
e eles nunca estão cheios. Eu gosto muito de assistir a alguns concertos, gosto
de escutar música erudita também, é bom não ficarmos bitolados em um único tipo
de som.
Certa tarde eu fiquei sabendo que
haveria uma apresentação de jazz com membros de uma das orquestras locais,
fiquei muito interessado, tocariam temas do Louis Armstrong, para quem não
conhece Armstrong, ele está para o jazz como o John Lennon está para o rock. A
orquestra estava composta por cinco pessoas, um trompete, um trombone, um
clarinete, um piano, e um contra-baixo, eles não tinham um baterista, e como eu
havia chego com antecedência fui conversar para ver se eu poderia compor com
eles. Não tiveram uma boa impressão de mim, veja você, cinco pessoas da
orquestra querendo fazer uma apresentação, chega um cara de dois metros de altura,
cabelo black power, jeitão de jogador de basquete e diz que pode tocar bateria,
qualquer um ficaria desconfiado. Expliquei que eu tocava em um conjunto de
jazz, os Melancólicos Azuis, e aí a contra-baixista disse que já havia nos
visto algumas vezes e convenceu os demais, o pessoal do teatro tinha sua
própria bateria a qual me emprestaram. A música que eles tocariam primeiro era
a Basin Street Blues e tive três boas surpresas nela, a primeira foi ver da
boca do trompetista, um cara magrelo, loiro, cheio de espinhas, sair uma voz
que, apesar de não chegar a ser a do Louis Armstrong, ficava bem próxima da do
Sebastian (lembra? Aquele que fazia as propagandas da C&A? hahaha). A
segunda foi todo mundo ter acenado com a cabeça e parado para que eu solasse,
lógico que aproveitei a oportunidade pra me mostrar um pouco, e a terceira e
mais surpreendente de todas foi ver a contra-baixista, uma mulher que lembrava
uma miniatura da branca de neve da Disney, menor que o contra-baixo, avançar
três passos com aquele instrumento enorme e solar como eu nunca tinha
visto. O resto da apresentação seguiu
este patamar. Não gosto de me gabar, no entanto, fomos muito bons mesmo.
Após a apresentação fomos os seis
tomar umas cervejas e jogar conversa fora, falei que já havia assistido algumas
apresentações da orquestra e que nunca havia imaginado que eles pudessem tocar
da maneira como havíamos tocado hoje, não que um seja mais difícil de tocar que
o outro, jamais duvidaria das capacidades técnicas de membros de uma orquestra,
mas o jazz não é apenas ter técnica e seguir uma partitura, o jazz envolve
saber transgredir aquela partitura e por vezes abandonar a técnica. Eles me
explicaram que possuem este projeto paralelo à orquestra já há muito tempo, mas
que só neste dia sentiram-se preparados para tocar. Trocamos telefones, passei
meu endereço e cada um seguiu seu caminho.
Depois desse dia é que eu fiquei com
a idéia fixa de que a Clarisse, a miniatura da branca de neve, deveria tocar
conosco. Sente o drama? Fiquei uns dias com a idéia na cabeça sem nem ter
coragem de tocar no assunto com os outros caras, tudo por medo da reação do
Hélio. Depois da morte do Marcus o Hélio andava mais estourado do que o normal,
tinha parado de beber também, o negócio todo mexeu muito com ele. Nos primeiros
dias ele até voltou pra casa da mãe dele, o cara ficou abalado mesmo. É nessas
horas que eu fico com uma ponta de inveja do Welly e do Wilsão, acreditar em um
Deus, em um paraíso e em todas essas coisas faz muito bem pra eles, conseguiram
superar a perda do Marcus bem mais rápido que nós, é claro que isso não
significa que não sintam saudades, teve um dia que eu cheguei em casa e o
Wilsão tava parado na porta do quarto do Marcus olhando lá pra dentro, a cena
foi bem triste, não é todo dia que a gente vê um negrão de um metro e noventa,
com uns cento e trinta quilos, barbudo, chorando como uma criança. Enfim... A
questão é que ainda estávamos muito abalados e eu não tive coragem de falar com
o Hélio, mas não tinha uma noite que antes de dormir eu deixava de lembrar a
execução de Basin Street Blues.
Caraca que dahora, finalmente um historia com um batera !!! HAHAHAHA
ResponderExcluirnão que eu tenha gostado por isso, a historia esta muito boa
Mexe com o coração, ja té imagino um pouco o desenrolar... vamos ver se acerto !!