Capítulo 1
1
Eduardo já estava acostumado. Às
vezes alguns acessos tomavam sua mente, e uma cacofonia geral de vozes
transbordava dentro de sua cabeça, deixando-o impotente a tudo ao seu redor. Isso aconteceu quando tentava entrar no mundos das ideias de Paulo, seu
professor de Filosofia.
- Ed, que se tem? - perguntou num
tom preocupante Gustavo.
Ed só conseguiu ouvir o amigo, pois
este sentava bem na sua frente e as faces ficavam poucos centímetros uma da
outra.
- N-n-n-nada - balbuciou, com a voz
um pouco elevada. Berrar era uma tentação, mas controlou o impulso, uma vez que
já tivera aquela experiência. O rosto se contraiu num esgar.
- Nada? Parece que você tá cagando -
Gustavo deu uma leve risada. Que seria agradável outrora.
- Me deixe em paz. É apenas uMA DOR
DE CABEÇA.
A voz explodiu no término da frase.
E todos seus colegas, incluindo o professor, olharam os dois amigos que
''conversavam''.
Gustavo ficou vermelho, as pontas
das bochechas se enrubesceram. Era uma garoto tímido, mas Ed o considerava
bastante amigo. Virou a cabeça para o caderno, como se nada tivesse acontecido.
Ed, por sua vez, tomado ainda pela confusão, uma fala sobressaindo a outra
dentro do seu consciente, se dignou a tombar a cabeça na mesa, ocultando o
rosto. Colocou as mão sobre os ouvidos e
desejou que aquilo parasse.
'' O Ed de vez em quando é estranho..''
''
Como esse moleque tira nota?''
''
Dor de cabeça? Não brinque comigo...''
''Esse aí só quer atenção''
''
Hein? O que houve? ''
'' Um lanche hoje a noite seria ótimo..''
Esses descontroles eram raros, porém
aconteciam. Ed não tinha muito o que fazer além de esperar, ele sabia disso.
- Ed? - perguntou o professor.
No entanto, este não respondeu. Não escutava mais nada do
''mundo externo''. Paulo, então, não disse mais nada. Se o garoto não
respondeu, provavelmente não queria falar. Apenas prosseguiu com a aula.
- Pessoal! Vamos continuar a aula!
Todos rodaram na
carteira quase ao mesmo tempo e por um segundo, Ed teve um momento de alívio.
- Página 37. Capítulo 2. Filosofia moderna....
Acabou dormindo, não por força de vontade, se fosse assim
- ele querendo dormir para a cacofonia passar - provavelmente não teria
conseguido, mas porque, na hora, se sentiu extremamente cansado e não teve
tempo de pensar sobre nada. Jogou todo seu peso na mesa, já ressonando.
2
Quando o sinal tocou, dizendo que mais um dia de merda na
escola havia acabado, Ed acordou. A
cabeça latejava. Entretanto, as vozes
acabaram. Existiam apenas as outras vozes, as ''reais''. E isso era bom.
Confortavelmente bom. Arrumou o material
lentamente, percebendo que algumas garotas conversavam com o professor, mesmo
depois da última aula do dia.
Olhou para frente e viu que seu amigo, Gustavo, já havia
ido embora, sem nem mesmo acordá-lo.
(Talvez não seja
tão amigo assim)
Colocou a bolsa
nas costas. Pensava em falar com Paulo, mesmo sendo seu professor, gostava
dele. Gostava também de filosofia, era uma matéria que fazia as pessoas
pensarem. Uma pena que na escola dele só houvesse uma aula por semana de filosofia,
e justo naquele dia tivesse um ''acesso'' ou ''rompante'', como ele próprio
costumava a chamar. Mesmo sabendo que não era coisa de louco - pelo menos era o
que ele acreditava - o que acontecia com ele, era esse o nome que dava.
Olhou mais uma vez para as garotas e, entre elas, viu
Júlia, uma garota nova que entrara naquele ano. Parecia tímida, no entanto, não
era. Apenas quieta. Como ele sabia disso? A
resposta era tão certa como quanto é dois mais dois: ele entrara na mente dela.
Aliás, Júlia era sua favorita desde então. Sua favorita para vasculhar as
ideias.
A garota não era nem bonita, nem feia.
Somente normal. Talvez a pele fosse um pouco branca demais, mas só isso. O
rosto era sutilmente redondo, porém normal. O cabelo era castanho-escuro, muito
liso, que caia até suas costas. Um corpo normal, nem acima, nem abaixo do peso ''ideal''.
Um sorriso normal, um semblante normal.
Mas sua mente não era muito comum.
Júlia era uma pessoa tremendamente criativa, inteligente, eloquente, e a qualidade
que mais gostava: sincera. Só não mostrava isso pra deus e o mundo. Se alguém
puxasse assunto, ela demonstraria isso num piscar de olhos.
Ed quis entrar na mente de Júlia
naquele momento. Seriam poucas as palavras que ouviria, porque já estava a
caminho da porta. Mas não custava nada.
'' ... que merda de professor, fica perdendo tempo com essas puxas sacos.
Quero tirar minha dúvida, caralho! ''
Para Ed, ouvir sua voz, foi como
entrar num sonho e ao mesmo tempo, como estar em casa. Não queria admitir para
si mesmo, porém, tinha já uma leve queda por ela, que provavelmente se
transformaria em algo maior.
Só que, enquanto ele a observava
fazendo o caminho por detrás de Paulo e se despedindo-se dele como algo
corriqueiro, Júlia o fitou... meio distraída. Ed virou a cabeça para frente,
envergonhado. E uma súbita voz invadiu dentro da sua cabeça.
'' Porque esse garoto sempre me olha tão... fixamente? ''
'' Não seria para...... NÂO!''
Júlia
tentou fugir daquele pensamento. Mas Ed o pegou, ele sempre pegava, não importa
os níveis de pensamentos ou memórias (algo que podia vasculhar também).
(Se
masturbar)
Era
horrível, nem mesmo ele queria pensar. Trancou a mente de Júlia e ficou
extremamente vermelho. Seu passo que antes era desacelerado - para ter tempo de
ouvir a garota de quem estava se identificando -, agora era veloz. Queria por
tudo que fosse mais sagrado sair dali.
- Bom, garotas, acho que é isso.
Deixem-me tirar a dúvida da outra aluna. Não tenho muito tempo hoje. Até mais!
As garotas deram alguns risinhos,
que só adolescentes sabiam dar. Eram apaixonadas pelo professor e isso era
claro.
- Bom, professor. Quando você
disse... - disse Júlia.
Ed fechou a porta e não ouviu mais
nada. Queria ir apenas para casa.
3
- Ed! Pelo amor de deus, ligue pro
seu pai!
- Não me enche saco, mãe, hoje não!
- Mas...
Ed tirou as mão do teclado e o fone
de ouvido da cabeça, olhou nos olhos da mães e disse:
- Por que eu tenho de ligar praquele
merda?!
A mãe chegou mais perto e tirou
delicadamente a franja que caia nos olhos de Ed, colocando-a atrás da orelha do
filho.
- Você não pode fazer o favor de
simplesmente sair? Já disse pra não me atrapalhar quando estou jogando!
Colocou o fone de ouvido novamente e
tentou se esquecer dela. Só sentiu-se aliviado quando ouviu a porta do quarto
bater, antes disso tinha sentido a mãe o olhando fixamente, parada, provavelmente
as lágrimas escorrendo no rosto. Logo depois, se arrependeu do que havia feito
com ela. Iria se desculpar, mas não exatamente agora.
Depois de algum tempo, desligou o
computador. Estava furioso porque havia perdido uma partida do jogo. Era
simplesmente uma grande merda depender de outras pessoas para a resolução do
jogo. Mesmo assim ele jogava. Jogava pois simplesmente queria ocupar a mente
com o que não fosse seus pensamentos. Pensamentos de um garoto paranoico,
sozinho, paranormal e depressivo.
Suspirou. O que vinha agora?
(Tomar
banho)
Uma
parte merda da sua vida que não tinha como escapar. Os pensamentos vinham numa
abundância que não se podia fugir deles. Mas de certa forma, até gostava de se
perder no seu próprio consciente. Era como o jogo, sabia que aquela merda ia
deixá-lo furioso, mas jogava, por ser fascinante talvez? Não saber onde aquilo
ia terminar? O que ia descobrir?
As primeira gotas quentes de água
deslizaram sobre seu cabelo e ao longo de seu corpo magro, nesse momento,
pensou em seu pai. Certo sentimento nostálgico o tocou. Lembrando das tarde em
que eles saiam para caçar - que era, na realidade, somente seu pai que caçava,
Ed apenas observava, fascinado. Vez ou outra o pai colocava os braços em volta do
menino e segurava a arma para este atirar. As imagens do pai montando o
acampamento, rindo, fitando a caça, preparando a comida, inundavam sua mente.
Eram bons tempos.
(Nunca
mais voltariam)
Seu
pai pensava tão somente em dinheiro, ultimamente. O filho em último caso. Ed
queria que todas as verdinhas do mundo fossem parar no cu do universo, e que
este explodisse como fogos de artifício tão sinistros, que seriam possíveis ver
da Terra.
Naqueles saudosos dias, seu pai e sua mãe ainda
estavam juntos. Relembrava-se de como a mãe fora feliz, em comparação com a
solidão que tanto ela quanto ele passavam agora. Ed pelo menos possuía a
escola, onde tinha uma vida social, alguns amigos. Mas a mãe, não sabia como
ela conseguia viver... tão só. Parecia
não ter amigos, não se relacionar sexualmente, não compartilhar nada - a não
ser com ele. Não comentava nada sobre o
trabalho (era secretária numa empresa que nem mesmo o filho sabia o nome).
Viviam, basicamente, às custas da pensão que seu pai pagava.
(Pelo
menos o ordinário serve pra algo)
Embora
estivesse sempre disposto a ajudá-la no que fosse possível - fora alguns
momentos em que era impulsivo, mas depois se desculpava -, Ed percebia que não era
o suficiente. Não entendia-a mais e, nos últimos dias, vivia pedindo a Ed para
ligar para o seu pai. O que era doloroso demais para ele... simplesmente não
dava. E se pensasse demais naquilo, a cólera deixava seu gosto azedo na boca. Aquele
merda não merecia nada.
(
Simplesmente porra nenhuma!)
Assim,
começara a evitar a mãe nesses últimos dias. Mas, igualmente, queria entender o
que se passava na cabeça dela. Aqui daria para pensar: por que simplesmente não
entrou nos mundo das ideias dela?
Não
entrava na mente de Maria - sua mãe -, porque via isto com uma questão uma
questão de ética, misturada com seus sentimentos. Para ele, quando uma pessoa
era invadida por seu próprio poder anômalo, aquilo era um crime. Não tinha
vergonha nenhuma em dizê-lo. Apesar de se sentir envergonhado em fazê-lo às
vezes. A vítima era completamente despida, revelando seus segredos mais
íntimos.
A questão era que não faria aquilo
com a mãe. Definitivamente não. Ela não sabia dos seus poderes paranormais, e
isso faria Ed sentir-se apenas mais covarde - mais bilhões de outras razões.
Ed costumava a pensar que fazer aquilo com a sua mãe seria igual se excitar... no sentido de que ninguém
quer se excitar vendo a mãe ou o pai. Puramente ética.
Desligou o chuveiro e apreciou o ar
que vinha da janela do banheiro - batendo no seu corpo quente - , voltou lentamente
para o quarto e se trocou. O dia ainda estava um pouco longe de acabar. Então,
depois de tudo feito, resolveu ir ler. Para evitar que a mente não se
desmoronasse em devaneios cada vez mais febris.
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