segunda-feira, 31 de março de 2014

Ed - Capítulo 1 - parte 1

            Capítulo 1



           

1
            Eduardo já estava acostumado. Às vezes alguns acessos tomavam sua mente, e uma cacofonia geral de vozes transbordava dentro de sua cabeça, deixando-o impotente a tudo ao seu redor.  Isso aconteceu quando tentava entrar no mundos das ideias de Paulo, seu professor de Filosofia.
            - Ed, que se tem? - perguntou num tom preocupante Gustavo.
            Ed só conseguiu ouvir o amigo, pois este sentava bem na sua frente e as faces ficavam poucos centímetros uma da outra.
            - N-n-n-nada - balbuciou, com a voz um pouco elevada. Berrar era uma tentação, mas controlou o impulso, uma vez que já tivera aquela experiência. O rosto se contraiu num esgar.
            - Nada? Parece que você tá cagando - Gustavo deu uma leve risada. Que seria agradável outrora.
            - Me deixe em paz. É apenas uMA DOR DE CABEÇA.
            A voz explodiu no término da frase. E todos seus colegas, incluindo o professor, olharam os dois amigos que ''conversavam''.
            Gustavo ficou vermelho, as pontas das bochechas se enrubesceram. Era uma garoto tímido, mas Ed o considerava bastante amigo. Virou a cabeça para o caderno, como se nada tivesse acontecido. Ed, por sua vez, tomado ainda pela confusão, uma fala sobressaindo a outra dentro do seu consciente, se dignou a tombar a cabeça na mesa, ocultando o rosto.  Colocou as mão sobre os ouvidos e desejou que aquilo parasse.
            '' O Ed de vez em quando é estranho..''
            '' Como esse moleque tira nota?''
            '' Dor de cabeça? Não brinque comigo...''
            ''Esse aí só quer atenção''
            '' Hein? O que houve? ''
            '' Um lanche hoje a noite seria ótimo..''
            Esses descontroles eram raros, porém aconteciam. Ed não tinha muito o que fazer além de esperar, ele sabia disso.
            - Ed? - perguntou o professor.
            No entanto, este não respondeu. Não escutava mais nada do ''mundo externo''. Paulo, então, não disse mais nada. Se o garoto não respondeu, provavelmente não queria falar. Apenas prosseguiu com a aula.
            - Pessoal! Vamos continuar a aula!
            Todos rodaram na carteira quase ao mesmo tempo e por um segundo, Ed teve um momento de alívio.
            - Página 37. Capítulo 2. Filosofia moderna....
            Acabou dormindo, não por força de vontade, se fosse assim - ele querendo dormir para a cacofonia passar - provavelmente não teria conseguido, mas porque, na hora, se sentiu extremamente cansado e não teve tempo de pensar sobre nada. Jogou todo seu peso na mesa, já ressonando.
           
2
            
           Quando o sinal tocou, dizendo que mais um dia de merda na escola havia acabado, Ed acordou.  A cabeça latejava. Entretanto,  as vozes acabaram. Existiam apenas as outras vozes, as ''reais''. E isso era bom. Confortavelmente bom.  Arrumou o material lentamente, percebendo que algumas garotas conversavam com o professor, mesmo depois da última aula do dia.
            Olhou para frente e viu que seu amigo, Gustavo, já havia ido embora, sem nem mesmo acordá-lo.
            (Talvez não seja tão amigo assim)
           Colocou a bolsa nas costas. Pensava em falar com Paulo, mesmo sendo seu professor, gostava dele. Gostava também de filosofia, era uma matéria que fazia as pessoas pensarem. Uma pena que na escola dele só houvesse uma aula por semana de filosofia, e justo naquele dia tivesse um ''acesso'' ou ''rompante'', como ele próprio costumava a chamar. Mesmo sabendo que não era coisa de louco - pelo menos era o que ele acreditava - o que acontecia com ele, era esse o nome que dava.
           Olhou mais uma vez para as garotas e, entre elas, viu Júlia, uma garota nova que entrara naquele ano. Parecia tímida, no entanto, não era. Apenas quieta. Como ele sabia disso?             A resposta era tão certa como quanto é dois mais dois: ele entrara na mente dela. Aliás, Júlia era sua favorita desde então. Sua favorita para vasculhar as ideias.
            A garota não era nem bonita, nem feia. Somente normal. Talvez a pele fosse um pouco branca demais, mas só isso. O rosto era sutilmente redondo, porém normal. O cabelo era castanho-escuro, muito liso, que caia até suas costas. Um corpo normal, nem acima, nem abaixo do peso ''ideal''. Um sorriso normal, um semblante normal.
            Mas sua mente não era muito comum. Júlia era uma pessoa tremendamente criativa, inteligente, eloquente, e a qualidade que mais gostava: sincera. Só não mostrava isso pra deus e o mundo. Se alguém puxasse assunto, ela demonstraria isso num piscar de olhos.
            Ed quis entrar na mente de Júlia naquele momento. Seriam poucas as palavras que ouviria, porque já estava a caminho da porta. Mas não custava nada. 
            '' ... que merda de professor, fica perdendo tempo com essas puxas sacos. Quero tirar minha dúvida, caralho! ''
            Para Ed, ouvir sua voz, foi como entrar num sonho e ao mesmo tempo, como estar em casa. Não queria admitir para si mesmo, porém, tinha já uma leve queda por ela, que provavelmente se transformaria em algo maior.
            Só que, enquanto ele a observava fazendo o caminho por detrás de Paulo e se despedindo-se dele como algo corriqueiro, Júlia o fitou... meio distraída. Ed virou a cabeça para frente, envergonhado. E uma súbita voz invadiu dentro da sua cabeça.
            '' Porque esse garoto sempre me olha tão... fixamente? ''
            '' Não seria para...... NÂO!''
            Júlia tentou fugir daquele pensamento. Mas Ed o pegou, ele sempre pegava, não importa os níveis de pensamentos ou memórias (algo que podia vasculhar também).
            (Se masturbar)
            Era horrível, nem mesmo ele queria pensar. Trancou a mente de Júlia e ficou extremamente vermelho. Seu passo que antes era desacelerado - para ter tempo de ouvir a garota de quem estava se identificando -, agora era veloz. Queria por tudo que fosse mais sagrado sair dali.
            - Bom, garotas, acho que é isso. Deixem-me tirar a dúvida da outra aluna. Não tenho muito tempo hoje. Até mais!
            As garotas deram alguns risinhos, que só adolescentes sabiam dar. Eram apaixonadas pelo professor e isso era claro.
            - Bom, professor. Quando você disse... - disse Júlia.
            Ed fechou a porta e não ouviu mais nada. Queria ir apenas para casa.

3

            - Ed! Pelo amor de deus, ligue pro seu pai!
            - Não me enche saco, mãe, hoje não!
            - Mas...
            Ed tirou as mão do teclado e o fone de ouvido da cabeça, olhou nos olhos da mães e disse:
            - Por que eu tenho de ligar praquele merda?!
            A mãe chegou mais perto e tirou delicadamente a franja que caia nos olhos de Ed, colocando-a atrás da orelha do filho.
            - Você não pode fazer o favor de simplesmente sair? Já disse pra não me atrapalhar quando estou jogando!
            Colocou o fone de ouvido novamente e tentou se esquecer dela. Só sentiu-se aliviado quando ouviu a porta do quarto bater, antes disso tinha sentido a mãe o olhando fixamente, parada, provavelmente as lágrimas escorrendo no rosto. Logo depois, se arrependeu do que havia feito com ela. Iria se desculpar, mas não exatamente agora.
            Depois de algum tempo, desligou o computador. Estava furioso porque havia perdido uma partida do jogo. Era simplesmente uma grande merda depender de outras pessoas para a resolução do jogo. Mesmo assim ele jogava. Jogava pois simplesmente queria ocupar a mente com o que não fosse seus pensamentos. Pensamentos de um garoto paranoico, sozinho, paranormal e depressivo.
            Suspirou. O que vinha agora?
            (Tomar banho)
            Uma parte merda da sua vida que não tinha como escapar. Os pensamentos vinham numa abundância que não se podia fugir deles. Mas de certa forma, até gostava de se perder no seu próprio consciente. Era como o jogo, sabia que aquela merda ia deixá-lo furioso, mas jogava, por ser fascinante talvez? Não saber onde aquilo ia terminar? O que ia descobrir?
            As primeira gotas quentes de água deslizaram sobre seu cabelo e ao longo de seu corpo magro, nesse momento, pensou em seu pai. Certo sentimento nostálgico o tocou. Lembrando das tarde em que eles saiam para caçar - que era, na realidade, somente seu pai que caçava, Ed apenas observava, fascinado. Vez ou outra o pai colocava os braços em volta do menino e segurava a arma para este atirar. As imagens do pai montando o acampamento, rindo, fitando a caça, preparando a comida, inundavam sua mente. Eram bons tempos.
            (Nunca mais voltariam)
            Seu pai pensava tão somente em dinheiro, ultimamente. O filho em último caso. Ed queria que todas as verdinhas do mundo fossem parar no cu do universo, e que este explodisse como fogos de artifício tão sinistros, que seriam possíveis ver da Terra.
            Naqueles  saudosos dias, seu pai e sua mãe ainda estavam juntos. Relembrava-se de como a mãe fora feliz, em comparação com a solidão que tanto ela quanto ele passavam agora. Ed pelo menos possuía a escola, onde tinha uma vida social, alguns amigos. Mas a mãe, não sabia como ela conseguia viver... tão só.  Parecia não ter amigos, não se relacionar sexualmente, não compartilhar nada - a não ser com ele.  Não comentava nada sobre o trabalho (era secretária numa empresa que nem mesmo o filho sabia o nome). Viviam, basicamente, às custas da pensão que seu pai pagava.
            (Pelo menos o ordinário serve pra algo)
            Embora estivesse sempre disposto a ajudá-la no que fosse possível - fora alguns momentos em que era impulsivo, mas depois se desculpava -, Ed percebia que não era o suficiente. Não entendia-a mais e, nos últimos dias, vivia pedindo a Ed para ligar para o seu pai. O que era doloroso demais para ele... simplesmente não dava. E se pensasse demais naquilo, a cólera deixava seu gosto azedo na boca. Aquele merda não merecia nada.
            ( Simplesmente porra nenhuma!)
            Assim, começara a evitar a mãe nesses últimos dias. Mas, igualmente, queria entender o que se passava na cabeça dela. Aqui daria para pensar: por que simplesmente não entrou nos mundo das ideias dela?
            Não entrava na mente de Maria - sua mãe -, porque via isto com uma questão uma questão de ética, misturada com seus sentimentos. Para ele, quando uma pessoa era invadida por seu próprio poder anômalo, aquilo era um crime. Não tinha vergonha nenhuma em dizê-lo. Apesar de se sentir envergonhado em fazê-lo às vezes. A vítima era completamente despida, revelando seus segredos mais íntimos.
            A questão era que não faria aquilo com a mãe. Definitivamente não. Ela não sabia dos seus poderes paranormais, e isso faria Ed sentir-se apenas mais covarde - mais bilhões de outras razões. Ed costumava a pensar que fazer aquilo com a sua mãe seria igual se excitar... no sentido de que ninguém quer se excitar vendo a mãe ou o pai. Puramente ética.
            Desligou o chuveiro e apreciou o ar que vinha da janela do banheiro - batendo no seu corpo quente - , voltou lentamente para o quarto e se trocou. O dia ainda estava um pouco longe de acabar. Então, depois de tudo feito, resolveu ir ler. Para evitar que a mente não se desmoronasse em devaneios cada vez mais febris.      

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