terça-feira, 4 de março de 2014

A águia voa livre, parte I

Sento em minha cadeira de balanço para escrever, abro meu livro para começar e vejo várias páginas mal escritas, histórias sem meio e fim, somente uma escassa introdução para cada uma.
Ouço a lenha crepitar na fogueira recém-acesa à minha frente. Espero que esse clima não se alie ao balanço para me fazer dormir novamente.
Um universo novo, uma vida nova, mil e uma ideias vem à minha cabeça, decido pegar meu escrevedor e começar de uma vez por todas meu trabalho antes que tudo dê errado de novo.
Vejo a lenha queimar pela última vez. Tomo mais um pouco de fôlego. Começo.
“Quando decidi fazer essa viagem, não imaginava que iria tomar esse rumo maldito. Agora, empunhando minha arma, lúcido, porém sem forças, sem reação, vejo tudo com outros olhos...”
Tudo começou numa tarde ensolarada, num dia que decidi sair de minha toca e ir observar o mundo lá fora. Arrumei meus suprimentos e organizei-os em uma bolsa de couro que havia feito há algum tempo atrás. Água, alguma comida, alguns dos gravetos secos que sempre junto do chão durante minhas caminhadas, imaginando se eles tem alguma utilidade. Talvez hoje eu descubra. Afinal, qual deve ser o propósito da Terra se não ser descoberto? Mistérios nascem para serem descobertos. Segredos a serem desvendados antes que tudo se perca num abismo entre o amor e o ódio. Os dois sentimentos mais poderosos e consequentemente mais explorados por nós, reles mortais. Uma pena.
Após algum tempo, já tendo tudo em mãos, decido partir. Sempre fui julgado um louco por viver sozinho, isolado. Nunca ninguém se importou em nada além de me criticar. Talvez hoje eu agradeça por algo que sempre achei ser minha maior desgraça.
Fora de meu ninho, vejo tudo com mais clareza. O sol ainda ilumina todas as coisas, as cores vibram e me enchem de paz, os aromas, toda a natureza atua em um conjunto tão harmônico e belo.
Me aventuro por um bosque, em busca de conhecimento.
Durante minha caminhada, senti algo se mexer em algum lugar próximo à mim, e minha mão desliza para o cabo de minha espada. Tantos anos em treinamento de guerra devem ter adiantado para alguma coisa além da morte de meus semelhantes. O farfalhar das árvores me tira a concentração, e agora percebo que nada é tão belo e calmo assim. Em bando, o homem se encontra no topo da cadeia alimentar. Será que sozinhos temos a mesma sorte?
Acho que essa é a hora de voltar para casa. Minha aventura deve terminar por aqui, antes que nunca mais possa me aventurar em qualquer outro lugar. Tento tomar o mesmo caminho que trilhei para chegar aqui, e vejo que também me enganei. O que parecia um bosque, agora me parece muito mais uma grande floresta, onde me encontro perdido. Ao menos vim preparado.
Corro em uma direção qualquer, uma sensação estranha de liberdade me invade, quero descobrir os perigos do mundo, irei até o fim dessa expedição.
Após algum tempo andando sem rumo, vejo uma pequena casinha, no meio do nada, e agora percebo que até mesmo o Sol me deixou e já se pôs em seu lugar. A noite vem chegando, e posso jurar que ouvi alguma coisa uivando não tão longe daqui. Acho que vou pedir por refúgio. Algum dia espero encontrar meu caminho de volta. Bato à porta, ninguém me responde. Um novo olhar me diz que essa casa há muito foi abandonada. Quem, em sã consciência construiria uma casa no meio do nada? Faz sentido. Giro a maçaneta, abrindo a porta sem maior esforço e realmente, tudo aqui me parece muito, muito abandonado. Abandonado e quieto. Incrível como a natureza é uma droga. Há um minuto atrás, me sentia bem, amendrontado diante de tanta coisa, mas muito bem. Agora, que encontro conforto novamente, da maneira mais estranha, sinto o cansaço tomar conta de mim. Minhas pernas latejam de tanto caminhar. Está ficando cada vez mais escuro.
Decido acender uma velha lamparina fixa à parede, iluminando o recinto. Alguns móveis, em sua maioria, mofados, uma escada, uma porta que parece levar à cozinha. Bela arquitetura. Procuro alguma coisa para me aconchegar. O cansaço agora vira sono. Há lenha na lareira, e não tenho fome. Estranho. Me sinto bem aqui nesse lugar, mas tem algo mais, algo estranho por aqui. Uma sensação torpe me domina, agora pareço estar anestesiado. É tudo muito quieto. Quieto até demais, só que agora, tudo que me interessa é um bom lugar para dormir, e o silêncio está a meu favor.
Silêncio.
Uso o fogo da lamparina para queimar a lenha na fogueira, e torno o ambiente mais confortável. Uma sensação de segurança agora também vem me agradar.
Segurança?
Encontro uma poltrona no cantinho da sala, e arrasto-a para que fique mais próxima do fogo.
Agora, sinto que posso descansar.
Descanso.
Meus olhos lentamente se fecham, dando espaço à escuridão, ao luxo do sono, e durmo como nunca dormi antes.
Sinto algo se aproximando, ouço a madeira do piso ranger, sinto que não estou mais tão seguro. O silêncio perdura, mas não mais confortável, agora é inconveniente. Não consigo abrir meus olhos. Ó, DEUS, o que está acontecendo? Não consigo me mexer. Sinto a presença de mais alguma coisa ao meu lado, o que ele está fazendo? A ideia de ter sido observado e perseguido desde quando entrei nessa aventura, me dá repulsa, meu estômago se revira, minhas entranhas queimam.
Quando decidi fazer essa viagem, não imaginava que iria tomar esse rumo maldito. Agora, empunhando minha arma, lúcido, porém sem forças, sem reação, vejo tudo com outros olhos...”

Me levanto num susto, deixando o livro e lápis caírem ao chão, o suor escorrendo em minha testa, estou ofegante.
Não posso acreditar que cai no sono mais uma vez. Me lembro de ter tido um sonho maluco. Tudo está fresco em minha memória, mas não posso alcançar essas lembranças.
Pronto, perdi-o mais uma vez. Todas as vezes que tento escrever, o sono me derrota, e meu sonho lá se vai. Se ao menos eu pudesse lembrar do que sonhei... Céus, que coisa horrível.
Junto o livro do chão, e vejo o meu progresso. Desanimo. Nas páginas, se encontravam duas linhas, e nelas podiam se ler apenas:
“Quando decidi fazer essa viagem, não imaginava que iria tomar esse rumo maldito.
Agora...”
Mais uma linha estava escrita, mas estava tão ilegível que decidi ignorar.
Fechei meu livro e um sentimento obscuro de fracasso me tomou.
Deixo essas emoções de lado, sento em minha mesa de trabalho e começo a lustrar uma pequena estatueta em formato de pomba que achei em meu porão. Ela me parece muito familiar, e tenho um gosto estranho por ela. Limpo-a quase todo dia, e pelo menos pra isso, eu presto. Está praticamente imaculada, uma obra de arte.

Acho que nunca mais vou escrever novamente.

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