quinta-feira, 27 de março de 2014

A Alma do Oeste

Capítulo 1 - A alma do Oeste

Um homem solitário vagava por entre as ruínas do que outrora foi uma das cidades mais prósperas do Condado, como as almas errantes costumam fazer entre o portão efêmero dos dois mundos.
De fato, parecia uma alma perdia em meio aos destroços e o silêncio. O último é apenas interrompido pelo bater de suas botas e das esporas batendo em seu eixo. Sua aparência em contraste à paisagem parecia extremamente bem cuidada.
Parecia desfilar calmamente em meio ao caos, seu robe vermelho-escarlate aliado aos detalhes dourados de sua gola e o movimento proporcionado pelos ventos do luto davam um ar de graciosidade fúnebre e perturbador à cena. Em sua cinta, escondida pelo manto, guardava suas queridas Desert e .44 Magnum, seus brinquedos de estimação, razões de seu viver, modelos que ele imitava com precisão e aprimoramento sem igual usando as ossadas dos azarados que entravam em seu caminho e rochas exóticas que encontrava em suas viagens. Suas armas de estimação recebiam cuidados dez mil vezes maiores do que ele próprio se garantia, ou para com qualquer outro ser vivo.
Seus cabelos batiam ao peito, sujos, cobertos pelo seu chapéu.
Ah, o chapéu.
A marca registrada da lenda conhecida por todo o Oeste. O renegado do Império, aquele que conseguia se impor e amedrontar o mais temido chefe, general, duque, arquiduque, gran-duque, e até mesmo chamar a atenção do Inquisitor.
O chapéu azul escuro, com a marca da rosa de espinhos e o broche da águia vendada, praticamente imaculado se não fosse por alguns rasgos nas abas - marcas do desespero dos homens que não haviam amor algum à vida, assinando as sentenças de morte em tentativas frustradas de capturá-lo. Era difícil encontrar em suas lembranças, uma memória sequer em que não estava sendo procurado ou caçado.
Afinal, é como diz o ditado mais dito entre os imperiais e seus servos:
"Cem mil galeões pela cabeça de Samson, a encarnação do Diabo!"
  
Capítulo 2 - O ataque inesperado

Em minha procura pelas ruínas não obtive êxito algum.
Os inquisitores devem ter previsto que iria explorar as ruínas que eles deixaram para trás e destruíram cada pedaço de material precioso. Não há nada aqui se não fumaça, carvão e ossos que não servem para nada depois de um estrago bestial.
Uma pena, devo dizer.
Maldita sociedade movida a galeões. Todos se auto-escravizam em troca de uma merreca, uma vida miserável. Submetem-se à condições precárias e vexatórias, como se os tais imperiais fossem divindades. Não ecoa uma palavra de rebeldia pelas ruas das cidades, por medo da morte. Como se a morte, perto da escravidão, fosse tão ruim assim.
Todos vivem dias de cegueira e tolice induzida pelo medo, ignorantes desconhecem o poder da união e rebeldia.
Dias melhores devem chegar.
Absorto em meus pensamentos, mal percebi que já estava no local em que guardei minha amante, uma Chopper que eu criei utilizando os mesmos materiais de minhas armas.
Ligo a ignição, e quase que automaticamente Keeper of The Seven Keys II começa a tocar em minha mente. Nada me prende mais do que músicas dos outros povos. Desconheço sensação melhor do que a segregação e o impulso mental que meus discos mentais me proporcionam.
Há umas três décadas que o Império ordenou que Densimo, aquele filho da puta, segregasse nosso planeta em Condados.
Minha viagem de volta compensou a frustração que encontrei nas ruínas, antiga capital política de Lombardi, e continuaria compensando até minha morte, se não fosse por uma coisa.
Os ventos batem à meu favor.
Posso sentir o cheiro de alguém ao meu encalço. Merda, justo agora que estava nos últimos acordes de I Want Out. Não posso deixar isso barato.
Olho no retrovisor e vejo que realmente há alguém acelerando em minha direção. Um ser armadurado, pilotando um veículo característico dos Imperiais. O símbolo desses nojentos está por toda a parte. É hora de parar de brincar. Piso o mais fundo que posso e alcanço mais de setecentos quilômetros por hora, e mesmo assim o desgraçado continua acelerando comigo.  Crio a arapuca perfeita. Com uma precisão perfeita viro um cavalo-de-pau e vou de encontro ao meu perseguidor, esperando que ele mudasse o percurso ao imaginar o impacto fenômenal que iria acontecer. Quase me esqueci de que ninguém mais tem amor à vida quando trata-se da minha cabeça. Ao invés de ele parar, só pude vê-lo sacando uma espécie de rifle carregado de tranquilizantes. Minha única reação, dada a adrenalina do momento, foi de sacar minha Desert e mirar na cabeça do infeliz. Depois disso, não me lembro de muita coisa. Somente de que havia errado um tiro pela primeira vez na minha vida. Depois disso, somente a escuridão.
A única certeza que eu tinha, era de que eu estava vivo, pois ninguém consegue derrotar o espírito do Oeste, se não eu mesmo quando eu entender que já posso ir embora daqui.

  
Capítulo 3 - Golpe de Estado

Quando recobrei a consciência, encontrei-me nu, acorrentado às paredes de uma cela escura, porém com um braço e uma perna livre apenas. As correntes me davam liberdade para executar movimentos em um raio de aproximadamente dois metros. Posso jurar que fiquei horas mais tarde tentando entender o motivo pelo qual me deixaram parcialmente solto. À principio, me pareceu uma burrice tremenda.  Com o passar do tempo, meus olhos foram se acostumando à escuridão, porém um turbilhão de ideias e pensamentos atormentava minha mente. Seria esse o fim? Onde eu errei? O Inquisitor devia estar agora, neste exato momento sentado em seu trono, comendo e bebendo da comida dos pobres, comemorando por finalmente ter pego o único infeliz em seu caminho. Esses e mais outras reflexões me consumiram durante horas. Imagens de como seria o destino do Universo, se o Inquisitor continuasse seu império de trevas, mentiras e corrupção vinham à minha cabeça. Quantos planetas já não estão sob as mãos desse filho da puta? Será que o desejo dele de conquistar, dominar e destruir algum dia seria saciado? A morte, sôfrega e irônica por si só poderia impedi-lo? Seriam o tempo e a natureza o suficiente para derrotá-lo? Há muito perdi a noção do tempo, por falar no dito cujo.  Não consigo mais determinar se estava preso há algumas horas, dias, semanas...
Passado algum tempo percebi o quanto ficar “parcialmente” preso é incômodo. Uma parte de mim parece não entender a condição em que me encontro, e a que aproveita de liberdade provoca-a até o fim. Movimentos involuntários acontecem numa frequência gradativamente maior. Me encontro mentalmente desgastado pela ideia de meu fracasso. E irado, também. Muito, muito furioso. Acho que seria capaz de arrancar a cabeça de dez ou mais soldados com as minhas próprias mãos.
O abrir de uma porta em algum lugar da escuridão infindável deu espaço ao som de passos que crescia a cada instante, tornando-se extremamente irritante. À essa altura, tudo era irritante. O silêncio aqui nesse lugar é tão profundo que consigo ouvir que ele traz consigo uma vela. Encontro-me num estado de alerta tão inacreditável que as batidas do meu coração estão ritmadas aos passos do que quer que for que se aproxima. É como tomar uma enorme injeção de adrenalina, quase maior do que meu corpo pode suportar. Sinto minha cabeça latejar e as veias saltarem em meu rosto. A luz da vela e o barulho de passos aproximam-se. Novamente um tornado invadiu minha cabeça, só que dessa vez sem espaço para emoções ou crises. Porém, antes mesmo que uma boa ideia possa me ajudar a decifrar o que fazer, o indivíduo carregando sua vela parou a frente do portão de minha jaula. A luz ilumina a figura do ser que agora mostra ser um soldado alto, de ombros largos e mais parecido com um armário do que com um ser humano, certamente servidor do Império. Num gesto de raiva mal medido acabo perfurando minha carne com as minhas unhas, que por sinal, cresceram bastante desde a última vez que eu tomei nota.
“Vem conosco, seu verme imundo! Vamos te torturar até você implorar pela morte, escravo!” – disse o maldito.
“Pega logo ele e vamos embora, ou o patrão vai descontar em nós, Gat.” - disse outra voz, a qual não consegui associar a ninguém no momento.  Não conseguia enxergar mais ninguém ali em nossa companhia. A voz carregava um tom de sarcasmo.
Tonto, tento encontrar o dono da segunda voz, sem sucesso. Há algo nessa vela que me deixa num estado um tanto torpe. Não havia conseguido perceber, portanto, que o tal Gat já estava do lado de meus membros livres, acorrentando-me em uma espécie de suporte, me prendendo totalmente. Uma sensação de claustrofobia faz com que meu corpo vacile, e perco o ar por um segundo. Há quanto tempo estou aqui nessa gaiola imunda?
“Ande logo então, Smane, vamos dar o fora daqui com esse rato.”
Como se houvesse brotado da terra, outro soldado libertou o lado em que me encontrava preso antes, e então fui puxado para fora da cela e levado para um destino que não pude imaginar. Passo pelo que parece um corredor branco, cheio de luzes, a claridade irrita minhas retinas depois de tanto tempo anestesiadas na escuridão.
“Ande, seu merda!” rugia Gat.
“Pegue leve, Gat, essa pode ser a última vez em que ele vê o mundo lá fora antes de morrer...” disse Smane num tom calmo, com sua voz muito mais irritante do que a de seu amigo soldado, encerrando sua fala com uma risada estridente.
Agora que ando sem saber para onde me levam, meu corpo começa a dar sinais de que minha energia está acabando. O que aconteceu com Samson, o Diabo do Oeste?
Após alguns minutos de passear cansativo e degradantemente, chegamos a um ponto que parecia um túnel.
“Agora é contigo, verme. Não pense em bancar de espertinho ou terá o mesmo fim que aquele atirador infeliz, o tal não sei o que do Oeste. Não é mesmo, Gat?”
Por um momento fico sem entender o que se passa. A quem se referem os soldados?
E então, como uma lâmpada na escuridão, compreendo que eles não sabem quem sou eu. Meu chapéu, marca registrada de minha pessoa se perdeu no momento de minha captura, causando tamanha confusão. Confesso que fiquei mais preocupado com meu querido amigo do que qualquer outra coisa, até perceber que por pior que possa parecer a verdade, a sorte está a meu favor, e usarei sso com toda a certeza. Sem meu chapéu, sou somente mais um escravo de guerra.
“Eu... eu não sei do que os senhores estão falando.” Disse, tentando me aproveitar da situação.
“Ora, como podemos esquecer? O pobrezinho esteve lá embaixo nas últimas duas semanas!” disse Smane, rindo como um louco. A risada desse homem me irrita. Agora, com meus olhos um pouco mais acostumados à claridade, noto detalhes em seu rosto que não havia percebido na escuridão. Seu rosto, parecido com o de um rato devido ao nariz em um formato estranho e seus dentes um pouco avançados, carregava uma feição triste, de desespero. No fundo de seus olhos, pode-se perceber a sua má vontade de executar suas tarefas. O Império é maligno, com toda a certeza. Suas risadas histéricas carregam uma história por trás. Um homem, depois de tanto tempo servindo ao imperador e observando todos os tipos de atrocidades existentes no Universo perde a sanidade. Começo a sentir um pouco de dó do rapaz.
“Pois então deixe-me explicar, rapaz.” Gat disse num tom autoritário, soltando as correntes que me prendiam e me prensa à parede, numa espécie de confinamento.
“Semana retrasada um dos nossos capturou a cabeça de cem mil galeões e para comemorar, o nosso senhor, Inquisitor Mor, Lord Seda organizou um torneio, uma corrida na qual seus escravos e servos participarão para que sirvam de exemplo para a população e ambos aprendam a apreciar a bondade de nosso Mestre, entendeu? E agora você vai entrar na pista e vai correr até morrer, fui claro?” Gat terminou sua fala. Fingi-me de morto, e consenti com tudo que disse, mesmo que eu realmente não desse a mínima. Ele virou-se para zombar de minha pessoa junto à Smane, de onde podia ouví-lo dizer “era isso ou um torneio literário”, se matando de gargalhar, porém me deu tempo o suficiente para agir. A ideia de correr até o fôlego esgotar me parecia horrível e não era assim que havia planejado minha morte. Parece que quanto maior somos, maior a queda que sofremos. Os bons morrem jovens. Olho para o homem maior, conhecido por Gat, e vejo que sua expressão facial demonstra crueldade. Ele não é como Smane, que reluta a cada segundo à maldade do Império. Deste homem tenho raiva. Ando em direção à Arena, e quando chego à entrada, percebo do que realmente se trata. É uma corrida de motos. Vários modelos delas estão dispostas pelo campo. A voz nos alto falantes zomba de nós. Podemos escolher qualquer uma. Ao todo, pode-se contar treze homens, mulheres e crianças confusos e perplexos com a situação. Me pergunto como podem organizar uma corrida num lugar tão pequeno, e escolho o modelo que mais me familiarizo. Ao meu lado está um senhor, em prantos, gritando o nome da esposa, que chora nas arquibancadas pelo marido que vai perder em alguns minutos. Numa cabine separada do público, forçado à assistir a atrocidade de um maldito, o narrador ri e tira sarro de todos. Ele anuncia que a corrida irá começar em cinco minutos, e manda escolhermos nossas armas. Armas? Foi então que compreendi. Iriamos matarmos uns aos outros até que sobrasse um só. Então, este seria executado pelos soldados que encontravam-se à paisana com suas lanças em posição de guarda, esperando pacientemente o momento tão esperado. Uma verdadeira chacina iria acontecer. Então, como um oasis aparece no deserto, tive um momento de lucidez para organizar um motim. Dirijo-me ao velho que chora ao meu lado.
“Não se preocupe, meu caro. Confie em mim e faça o que eu disser.”
Ele não esboça nenhuma reação aparente, pois as lágrimas ainda caem, mas no fundo de seu coração pode-se sentir que está disposto a fazer qualquer coisa para poder beijar a mulher mais uma vez, observar com aquela que o amou desde sempre mais um pôr do sol.
“Não atire em nenhum de nós, pois somos todos irmãos. Eis o que vamos fazer: quando a largada for dada devemos mirar cada um para dois guardas – apontei para os portões discretamente, e pude ver que ele prestava atenção em cada palavra – vamos fazer uma rebelião. Os dias das trevas estão contados. Espalhe o que digo para os outros. “
Em cerca de quatro minutos, o papel estava cumprido. Ninguém desconfiaria de que as pessoas chorosas e desesperadas, contando os últimos segundos de suas vidas iriam armar tamanha armadilha para a Inquisição. E por isso nosso plano daria tão certo. Quando o narrador anunciou que faltava apenas meio minuto para o começo do jogo, uma mesa ergueu-se do chão contendo diversas armas e armas de fogo, para escolhermos. Todos pareciam esperar por mim. Com as mãos elevadas ao peito, olhavam fixo para mim - o Messias, eles cochichavam entre si.
Não pude acreditar quando vi minhas queridas Desert e Magnum dispostas na mesa. Quando as toquei novamente, foi como se um fogo se reacendesse no meu peito, e uma vontade de derramar sangue daqueles que escravizavam os bons acordasse dentro de mim. Algo como uma buzina soou, dando começo à matança. Com minhas armas em mãos, pulei no banco de uma Chopper meia boca que tive a sorte de encontrar, e rapidamente acelerei. A cena a seguir era digna de um quadro – treze homens corriam ao encontro da mesa e em questão de segundos estavam armados, montados em seus veículos e não demorou para o primeiro soldado ser derrubado. Os gritos de surpresa e empolgação da multidão encheram meus ouvidos de prazer. O Narrador gritava coisas sem sentido, perplexo e pedindo por ordem. Acelerei e fui ao meu portão. Duzentos, trezentos quilômetros por hora. Para minha surpresa, havia somente um guarda, parado em pânico no túnel, o tal do Gat. Maldito. Com um tiro certeiro, só pude ver seu capacete voar e chocar-se na parede, sangue e miolos se espalhavam no cenário. Há tempos não sentia tanto prazer assim. Não havia percebido, mas eles já haviam destruído sem pesar algum todos os soldados. Porém, como o combinado era destruir dois soldados cada um, e havia somente um à minha mercê, decidi ser justo. Fiquei parado, de olho no homem que gritava mil e uma besteiras no microfone, naquela cabine distante. Mirei precisamente na testa do infeliz e como num passe de mágica livrei-nos de um ser tão irritante. Os gritos da multidão eram de felicidade, de novos tempos. Os treze que agora dirigiam sem rumo na Arena levantavam as armas para os céus e loucamente gritavam por dias melhores. Me pergunto onde está aquele soldado arrependido. Para onde foi?
Me desloco para dentro do túnel por onde sai, e velozmente faço o trajeto de volta para minha cela. Não havia conseguido perceber, mas o corredor branco era uma espécie de necrotério. Almas perdidas não conseguiam encontrar o paraíso por não saberem onde estavam. O ódio fez meu coração bater mais rápido. Desci da moto e fiz o restante do trajeto a pé. Depois de alguns minutos, cheguei no local em que me encontrava preso e sem esperança, há apenas uma ou duas horas. O mundo dá voltas. O cosmo conspira à favor dos justos.
“Você voltou, meu amigo.” – uma voz conhecida conversava comigo na escuridão. “Você voltou...”
Era Smane.
No teto, havia uma lampârina à óleo pendendo, esperando uma faísca para acender. Bastou um tiro para iluminar o recinto inteiro.
Lá estava ele, sentado em minha cela, aos prantos. Ao seu lado, havia um esqueleto – o corpo de uma mulher que há algum tempo havia nos deixado, certamente.
“Ela era tão boa... Seda é um maldito. Ele tem que ser morto, depois de tudo que ele fez pelas galáxias, o verme. MALDITO!”
Ele estava claramente delirando. Seu capacete estava disposto à seu lado. Ele já não ligava mais para as punições. O amor de sua vida havia se ido, devido à tirania de um lunático. O que as pessoas tem na vida, se não o amor? Amor pelo próximo, amor próprio. Alguns amam as coisas, outros amam imagens, outros amam o dinheiro. Uns amam o surreal, outros amam á natureza, o bater das ondas do mar, os grãos de areia, o piar dos pássaros. Aqueles que não entendem o amor tentam destruir sem hesitar o sentimento dos outros.
“Eu voltei, caro. Deixe que eu te ajude.”
“Muito obrigado... obrigado, obrigado, OBRIGADO!” ele gritava, como se seus sentidos já lhe tivessem abandonado. “Sabia que podia contar com o senhor... o espírito do deserto.” Dizia ele enquanto tirava sua armadura. Por baixo dela, usava uma malha, ensanguentada e encardida.
“Aquele dia nas ruínas o senhor me fez isso... e eu sempre me lembrarei do que você fez por todos nós.”
Rasgava a manga da malha enquanto falava. Em seu ombro direito, havia um buraco de bala cicatrizado. A marca do único tiro que eu errei, por sorte.
“Naquele dia, eu tirei seu chapéu na esperança de que eles não te reconhecessem... são burros, os imbecis... as paredes desse lugar são mais providas de inteligência do que esses aí...” Smane falava e eu podia sentir que um nó formava-se em sua garganta. Sua vida passava pelos seus olhos, cenas de tudo que havia passado em sua vida. Seu espírito preparava para sair de seu corpo, vivendo seu sonho mais bonito enquanto seu físico definhava ali naquela cela, naquele lugar triste, porém não sozinho. Ao seu lado, uma mulher sorria e passava a mão em seus cabelos. Lágrimas de orgulho caíam de seus olhos, ela sabia. Aquele que a amava havia tido um papel crucial na liberdade dos homens. Anos e anos tentando protegê-la não haviam adiantado, tendo sua vida retirada sem dó ou piedade – mas havia sido o estopim para algo grande.
“Quando chegasse aqui eu tinha certeza de que daria um jeito de destruí-lo. Aquele homem na cabine era seu filho, fruto de uma geração de trevas. Tudo que fiz foi trazê-lo para dentro desse covil, desse cobertor de escuridão que corrói o Universo. Você, metade treva e metade luz conseguiria facilmente descobrir o que fazer e desdobrar a escuridão... agora termine, meu caro, termine o que você começou.”
Admito que nesse momento estava um pouco atordoado.
“Me diga onde posso encontrá-lo e terminarei de uma vez por todas esse reinado, essa herança de maldições!”
“Você não precisa ir à lugar algum...” – disse uma voz cavernosa bem atrás de mim – “daqui não sairá mais uma alma.”
O Inquisitor estava ali para fazer as honras. O ranger metálico da espada saindo da bainha me confirmou que não haveria jeito se não a luta. Numa cambalhota, me desloquei alguns metros para a frente e rapidamente saquei minhas armas. Sabia que eles não deixariam muitos projéteis, e já havia usado dois, portanto não tinha como me dar ao luxo de errar o alvo. Como de costume, programei meu rádio interno para tocar Cowboys from Hell, Pantera durante o combate.
Seda, o Imperador era uma figura de dois metros, corpulento , envolto em armaduras negras, tão negras que pareciam dobrar a paisagem por onde passava. A lâmina que empunhava era bestial, quase do tamanho de seu empunhador. Ele não havia chegado aonde estava apenas com uso da força bruta e crueldade. Era um ótimo espadachim, pois recusava armas de fogo em prol das espadas. Era um oponente à altura.
“Não me decepcione, meu jovem” – disse Smane, fechando os olhos e caíndo ao chão.
Era o fim pra ele, e eu o vingaria, com certeza.
Olhando nos olhos do algoz, me preparei para o combate. Levantei-me de um salto e desferi um tiro, que foi defletido com facilidade pela lâmina colossal.
Como se todos meus esforços fossem inúteis, avançou em minha direção preparado para um impacto. Não iria errar o tiro mais uma vez, e avancei preparado para a pancada.
Faltando poucos metros para o choque, ele brandiu a arma num golpe fatal – isto é, se algo pudesse atingir a Alma do Oeste. Numa fração de segundos, pulei de modo que a lâmina servisse de apoio aos meus pés, então tive total controle da situação. Com o pé apoiado sobre a lâmina, exerci pressão na lâmina, jogando seu corpo ao chão, com o peso todo em seu braço direito. Com a outra perna, desferi um chute fulminante que derrubou seu capacete e por pouco não torceu seu pescoço.
O sangue escorria da boca de Seda, agora jogado ao chão, com o braço quebrado e atordoado.
“Isso é por todas as boas almas que você tirou desse plano, seu maldito!”
Com um último tiro, o Universo se calou por um segundo. Um minuto de silêncio foi dado em homenagem a todas as almas injustiçadas. Assoprei a fumaça que saía de minha preciosa e senti um vazio em meu coração. Meu chapéu havia se perdido para sempre.
Porém a paz agora podia reinar novamente, e isso havia de bastar.

Capítulo 4 – Desfecho
As duas luas iluminavam a praia enquanto as ondas batiam nas rochas e na areia. Samson observava a harmônia e a paz da natureza quando decidiu que sua missão estava acabada. Depois da morte do Inquisitor, o império foi dissolvido e os soldados foram anistiados. Alguns voltaram para suas casas, onde mães, pais, esposas, maridos e filhos os aguardavam inquietamente e outros decidiram dedicar-se às artes. Os servos e escravos de guerra foram libertados e retomaram suas vidas normalmente. A paz foi instaurada e o Condado deixou de existir. O Conde Densimo foi executado, pois a pena a qual foi julgado excedia o tempo de vida de cem pessoas juntas. O legado de Seda foi queimado e destruído, e a nave-mãe do exército foi igualmente dizimada. Como a nave-mãe alimentava todas as outras naves pelo Universo, o poder do Império em todos os outros planetas foi destruído, dando espaço à rebeliões e consequentemente, dissolução total da tirania.
Tudo estava absurdamente em paz, até que alguém, em outro momento da história decidisse se impôr e desejasse ser superior aos seus iguais.
E não era este o mundo que Samson queria viver. O homem mais destemido do mundo queria férias. E assim, decidiu dar sua existência como encerrada.
Deixou que as ondas o levassem, e assim, ele também se sentiu em paz.
E em algum lugar do mundo seu chapéu estava guardado, num baú cuidado com todo o carinho por um homem que conheceu a lenda com os próprios olhos.
Seus netos sempre perguntam pela história de Samson, quando vão o visitar – e ele, como um bom velhinho, a transforma em um conto quase inacreditável, tão inacreditável que nem mesmo ele acreditaria se não tivesse feito parte dessa jornada incrível um dia.
E assim, a história acaba e uma lenda nasce.

- Nightingale, Smane.

2 comentários:

  1. Cara, achei muito boa e muito completa sua narrativa! Não tinha como ser menor!!!
    Talvez pudesse até ser maior!

    Parabéns meu velho!

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    1. To pensando mesmo em desenvolver mais essa narrativa, nesse mesmo conto e melhorar bastante os detalhes e tudo mais. Valeu pela crítica manão, teu conto ficou muito louco também, foi tão tenso que o suicídio no final deu um alívio anormal hahaha muito bom

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