Não
sei quanto tempo passou até que eu acordasse, ou recobrasse a consciência. O
despertar foi rude, com o impacto de água gelada sendo jogada violentamente em
meu rosto. Recuperado do susto, notei o homem parado no centro do quarto, em
pé, na frente da grande cama. Quando constatou que eu estava acordado, o homem
riu alto e abriu os braços, como quem diz: “finalmente!” Eu não tenho
constrangimento nenhum em dizer que era um homem muito bonito. Aparentava estar
em seu auge, por volta dos quarenta anos de idade, Seu corpo era grande e
aparentava ser rígido, mesmo não sendo um corpo forte. Seu rosto era quadrado e
rústico, sua pele bronzeada, a barba por fazer e o cabelo do mesmo tamanho, no
entanto, quando começou a falar, sua voz era rouca, mas era cativante. Vou
tentar reproduzir os diálogos, apenas para que você consiga se colocar em meu
lugar.
-
Enfim, acordado! Achei que dormiria para sempre. Você já deu uma olhada no
quarto? Já tentou se mover? É a primeira vez que você acorda? Não tente responder,
só vai machucar sua boca, eu gastei bastante silver tape em você, bom, você já
deve ter percebido... Mil perdões, mil perdões, ainda não me apresentei... Mil
perdões novamente, não irei me apresentar. Essa será a única vez que
conversaremos, mas somente porque você merece saber o que está acontecendo,
afinal, você é peça central em nossa brincadeira.
O
homem parou de falar subitamente, se aproximou de mim e começou a olhar
profundamente em meus olhos, como se tentasse ler minha mente. Seu rosto foi se
aproximando lentamente do meu e seus olhos compenetrados pareciam vasculhar
minha alma. O homem colocou a mão em minha nuca e beijou minha boca, por cima
da fita, antes de se afastar e sentar na cama.
-
Acho que fizeram uma boa escolha, parece que você servirá bem ao nosso
joguinho! Enfim... Vamos às regras. Você passará quinze dias amarrado,
recebendo água e comida. Você pode cagar e mijar à vontade, Deve ter reparado
que está nu e com o cu ao vento, tem um penico embaixo da cadeira, não se sinta
constrangido. Você pode resolver parar de brincar à qualquer momento, é só
apertar o gatilho. Sua vida acaba. A brincadeira acaba.
Ele
parou de falar e levantou da cama. Eu precisava saber mais, ainda não tinha
entendido qual era o propósito daquilo tudo e em um momento de pânico,
arregalei meus olhos o mais que pude e voltei a me debater e grunhir, o que
parece ter dado certo.
-
Calma, rapaz, calma... Eu não vou embora ainda, só não consigo ficar parado,
ainda tenho tanta coisa pra preparar... Bom... Vamos ao que interessa... O
propósito da minha brincadeira é mostrar o tamanho do egoísmo do ser humano.
Quantas vidas valem a sua vida? Quanto sofrimento vale o seu sofrimento? Até
que ponto chega o seu amor à vida? É isso que eu quero medir e documentar.
Colocarei câmeras por esse quarto e interromperei todos os testes no exato
momento em que você apertar o gatilho. Compreendeu? Não importa o que estiver
acontecendo, tudo acaba com a sua morte. Tudo, tudo será responsabilidade sua! Essa
é a brincadeira! Se você não se matar em quinze dias, você estará livre. Se
você apertar o gatilho o jogo acaba pra todo mundo. Entendeu?
Enquanto
falava, o homem andava de um lado para o outro e parecia estar eufórico. Seus
braços se agitavam e a luz violeta deixava a pele bronzeada de seu rosto com
uma cor macabra. Parecia que o homem não estava apenas no auge de sua
masculinidade, ele estava também no auge de sua loucura. Subitamente, o homem
pegou um copo do chão. Estava ao lado do pé da cama, fora do meu campo de
visão. Com um puxão dolorido, minha boca foi liberta e o conteúdo do copo foi
despejado em minha boca. Era água, mas havia algo mais, que eu não pude
identificar. Antes de recolocar a fita em minha boca, o homem me deu outro
beijo, o qual não fui capaz de escapar. Ele riu da minha cara de repulsa e
começou a acariciar meu pênis.
-
Por que essa cara? Você acha que não é capaz de ser excitado por outro homem?
Você acha que tem nojo de mim?
E
eu realmente estava ficando excitado, não podia evitar e isso massacrava meu
ego, me dava vergonha e prazer. Gozar pela mão de outro homem foi tão bom
quanto qualquer outra gozada. Ainda era o primeiro dia, eu não possuía mais
auto estima e estava ali, à sua mercê. Completamente privado de meus movimentos
e com uma única possibilidade de libertação. Mas em algum lugar de meu ser eu
tive a certeza de que não importa o que acontecesse, eu queria sobreviver. Eu
precisava sobreviver, nem que fosse apenas para voltar para minha rotina
medíocre. Mas o torpor tomou conta de minha mente e eu dormi novamente. Você
não consegue imaginar o amargor em meu peito... Sobreviver... Por que essa
ânsia pela vida? Por que valorizamos tanto nossas vidas de merda?
Eu estava muito envolvido até eu começar a ficar com amargura na boca no final, e isso foi muito bizarro. Mas posso dizer que já pensei em todo tipo de situação que poderia ocorrer comigo e algo assim já passou pela minha mente e você retratou bem pra caralho. Não vejo críticas negativas ai não, mas eu sou noob, então não posso dizer muito, só que é bizarro o conto e até agora eu tenho gostado dele apenas como uma boa escrita, não é algo que eu leria...
ResponderExcluirAh, adoro histórias onde testam os limites humanos, até onde uma pessoa pode chegar por qualquer teimosia que seja. Para mim a parte ''gay'' está muito boa, não é algo colocado de graça do texto, leva o personagem/narrador fazer reflexões interessantes, além de ser outro limite humano ultrapassado
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