segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Gênesis

Muitos foram aqueles que se propuseram a construir, como artistas, engenheiros e pedreiros, novos mundos, novos universos, repletos de seres fantásticos. Dentre eles não podemos deixar de citar o mais criativo, Tolkien, que elaborou com maestria a Terra Média, desde sua origem (O Silmarillion, 1977) até uma das aventuras fantásticas mais lidas (O Senhor dos Anéis, 1954).
Sempre me perguntei por que temos a necessidade de criar o sobrenatural. O mundo é tão vasto e tão complexo, as espécies são tantas e tão variadas e mesmo com toda a diversidade existente queremos justamente aquilo que não existe, queremos mais do que o universo pode nos dar. Somos capazes, no mundo físico de controlar e criar tudo, do fogo ao notebook, e nem assim estamos satisfeitos. Ali fora, do outro lado da janela, existe um infinito inteirinho para desfrutarmos, mas nós preferimos ver novela, ler livros, ouvir música, jogar RPG... O palpável, o vivível, o elementar nunca basta. No fim das contas, somos seres criativos e queremos viver em nossa própria criação (ou na criação de outro alguém).
Não sou pretensioso, não quero criar algo maior, melhor e mais complexo que Tolkien, Lewis, Pratchett ou sei lá mais quem, quero apenas gastar minha criatividade construindo meu próprio mundo, que você pode ou não querer habitar. Também não sou nenhum gênio criativo (infelizmente) para tirar tudo da minha cabeça, sem a influência da nada nem de ninguém. Já li muita coisa, já assisti a muitos programas, já joguei muito RPG e vídeo-game, fiz uma faculdade inteira de história, já conversei com muita gente. É muito difícil não me deixar influenciar por nenhuma dessas coisas e eu nem quero isso! Quero aproveitar de toda essa influência para construir algo legal e interessante, afinal, um mundo sem dragões, magia e gnomos deve ser muito chato!

GÊNESIS

Querem ouvir uma boa história? Eu tenho uma para vocês! Sabem de onde viemos? Já pararam para se perguntar o que existia antes de seu pai? E do pai de seu pai? E do pai do pai do pai do pai do pai de seu pai? Então se aproximem, ou não, mas fiquem quietos! Odeio interrupções... Se alguém se dispuser a pagar uma rodada de qualquer coisa para todo mundo seria muito agradável, enfim...

Elas viviam há tanto tempo, que nem se lembravam da origem, suas lembranças da infância, e até mesmo as dos últimos cinco bilhões de anos (que eram consideravelmente recentes), se embaralhavam e se confundiam. Apesar de todo o poder, lhes faltava sabedoria e nunca lhes tinha ocorrido armazenar o passado por qualquer forma que não fosse memória. Os anos passavam e elas se esqueciam das coisas, ciclicamente discutiam os mesmos assuntos e inclusive batalhavam pelas mesmas coisas.
Eram quatro, a saber: Paixão, Criatividade, Teimosia e Preguiça. Além delas, sabiam existir somente a Sensatez e a Loucura. A primeira elas tinham avistado ao longe algumas vezes, mas, havia sumido, ou pelo menos não se sabia mais dela, a segunda aparecia sempre sem saber como vinha e nem de onde e ia embora sem dar satisfações, o que às vezes acabava deixando as quatro em dúvida sobre sua existência.
Não havia muita diferença entre pensar e agir, o que tornava o local da existência no Caos. Por culpa da Criatividade elas nunca sabiam qual forma possuiriam nos próximos instantes, nem a aparência do local onde habitavam. Por culpa da Paixão estavam sempre agindo impulsivamente, seja discutindo calorosamente, seja batalhando repletas de ódio, seja brincando e manifestando carinho. Por culpa da Preguiça nunca saiam dali e nunca buscavam nada construtivo a se fazer. Por culpa da Teimosia não deixavam de existir e nem perdiam sua essência.

Como acabei de dizer, não adianta tentar descobrir a origem das quatro, elas mesmas não o sabem, entretanto, posso contar a nossa origem...

Há não mais que alguns milhares de anos, as quatro puderam confirmar a existência da Loucura, ela apareceu e a tudo contagiou com sua presença, potencializando a essência de cada uma e fazendo novos desejos surgirem em cada uma. A Criatividade nunca imaginou tanta coisa diferente de uma única vez, a Paixão estava tomada de desejo, a Preguiça cambaleava de sono, apenas a Teimosia parecia resistir. Chego a acreditar que ela perderia a própria vida para evitar ser influenciada pela Loucura.
A existência de todos os seres é conseqüência desta visita da Loucura a qual chamaremos de Gênesis. A Preguiça sentia-se tão tomada pela Loucura que pela primeira vez em toda a sua existência dormiu, tão grande havia se tornado o poder de sua essência. Talvez a Teimosia estivesse tão preocupada em manter-se intocada pela Loucura que esqueceu-se de teimar em manter a Preguiça acordada. O fato é que a preguiça dormiu e a Loucura, sem mais nem menos se foi.
Ela dormiu, por cinco mil anos, e com ela dormindo as outras três sentiram necessidade de fazer muitas coisas. A Criatividade teve a idéia de definir formas para tudo o que imaginasse, criou infinitas estrelas e planetas, organizou-os em sistemas, além de organizar estes últimos em galáxias. Enfeitou a tudo com buracos negros, cometas e tudo o que pensasse em por em prática. Olhou os planetas mais de perto e pôs-se a definir diferentes formas de relevo, inventou planetas cobertos por terra, planetas cobertos por água, alguns totalmente e outros com continentes. Definiu cordilheiras, montanhas, depressões, planaltos, planícies e vulcões, todos em inúmeras formas e tamanhos. Divertia-se ao estabelecer tipos de climas que com a força da Teimosia assegurava que sempre perdurariam, alterando-se ciclicamente ou não. Percebeu que faltava algo, achava que seus planetas estavam feios e criou formas de vida que não se moviam, ficavam lá, enfeitando sua criação, eram as formas vegetais, que podiam ser árvores gigantes do tamanho de montanhas ou algas minúsculas submarinas, definiu que algumas seriam comestíveis, outras seriam venenosas e outras ainda que quando estimuladas reagiriam. Passou então a imaginar as formas de vida que se moveriam pela sua criação, começando por um trabalho simples, seres microscópicos, passando cada vez para seres mais complexos, nadadores, rastejantes, centípedes, hexípedes, quadrúpedes, bípedes, monópodes e alados, espalhou-os por todo o seu universo, adaptou-os aos diversos climas, criou um sem fim de variações em seus seres vivos, enriquecendo ainda mais o universo. Dia após dia a Criatividade complementava seu trabalho.
A Teimosia, quando foi chamada a ajudar a Criatividade a estabelecer climas rotativos, achou a criação de sua irmã tão linda que perguntou se podia ajudá-la, pois com seu poder poderia por aquela imensidão em movimento, além de eternizá-la, e após o entusiasmado aceite de sua irmã, gastou uma pequena parte de seu poder para fazer com que tudo aquilo se movimentasse como um móbile e ao mesmo tempo evitar que tudo se espalhasse pelo infinito, a este poder damos o nome de gravidade. A Paixão, vendo as outras duas tão concentradas naquela atividade, resolveu observar tudo mais de perto. Visitou cada planeta de todo o universo, observou cada detalhe da criação. Primeiro constatou que não havia cheiro e exigiu que a Criatividade elaborasse inúmeros cheiros agradáveis e os distribuísse entre as flores, com um leve toque de seu poder a Paixão assegurou que o aroma das plantas seria o aroma do amor. Em sua viagem, a paixão afeiçoou-se por diversas criaturas de toda a imensidão originada pela Criatividade, e resolveu soprar uma ínfima quantia de sua essência neles, dando assim um brilho diferente aos olhos destes.
Criatividade, Teimosia e Paixão trabalhavam juntas na elaboração do universo. Fizeram dele um jogo, queriam concluí-lo para que o colocassem em movimento definitivo, queriam ver a natureza em ação, mas faltava algo e era a falta deste algo que as impedia de movimentar toda máquina. Foi então que a Criatividade sugeriu que fundissem suas forças para que pudessem distribuir inteligência para os seres. A tarefa exigia que elas doassem muito poder, entretanto, apesar de saber que jamais recuperariam o poder gasto nesta operação, fizeram. Em maior ou em menor grau, todos os seres do universo foram dotados de inteligência, uns apenas com o suficiente para a manutenção da própria vida, outros com o suficiente para sentirem emoções, alguns obtiveram o dom da lógica e da palavra, até alguns poucos que receberam inteligência o suficiente para compreender o universo. Cansadas, sabiam que corriam riscos e que não mais teriam poder para defender-se, foi então que criaram os Templos e os Locais Sagrados. Os Templos eram quatro, o Templo da Criatividade, o Templo da Teimosia, o Templo da Paixão e o Templo da União. Os três primeiros são armazéns de poder, onde foram deixadas relíquias que poderiam apenas ser interpretadas por animais cujo grau de inteligência fosse grande, já o Templo da União permitiria a viagem entre os planetas desde que o viajante mostrasse ao Guardião a real necessidade da viagem. Já os Locais Sagrados foram estipulados de acordo com a preferência de cada uma em toda a criação, e podem ser uma praia, um pântano, uma clareira ou uma ilha, nestes locais tudo, realmente tudo, pode acontecer, basta usar a criatividade, a teimosia ou a paixão.
As três, ainda cansadas, riam sonoramente, estimuladas pelo sucesso de seu trabalho, e foi devido a este barulho que a Preguiça despertou. Ainda sonolenta, pôs-se a observar a imensidão da criação. Conforme observava a vastidão do universo começou a sentir-se traída, queria ter feito parte daquilo tudo, queria ter participado de cada momento que havia tornado suas irmãs tão felizes, mas elas a haviam deixado dormindo. Aquilo tudo era tão belo, e ela não havia podido colaborar com nada. Chorou. Decidiu que iria se vingar, agora ela possuía forma, a Criatividade havia dado forma a todas elas enquanto a Preguiça dormia, mas sua forma estava contorcida, não era mais a imagem solene e dormente elaborada pela Criatividade. Talvez ainda restasse um pouco da lembrança da Loucura em sua mente.
Quando encontrou suas irmãs elas ainda estavam unidas, não haviam se separado após a criação da inteligência. Olhando a face distorcida da Preguiça, algo tomou conta das três, começaram então a sentir que algo nascia naquele tríplice ventre, algo crescia e tomava forma muito rapidamente. Foi então, rompendo o tríplice ventre e esgueirando-se ainda úmido para fora, nasceu o Medo.
Medo olhou a sua volta, sentiu que seria desprezado por suas mães e buscou refugio nos braços da Preguiça. Juntos, Medo e Preguiça usaram todo seu poder para aprisionar a Criatividade a Teimosia e a Paixão que debilitadas, nada puderam fazer para se proteger. Essa é a história da criação de nosso universo, e é por isso que hoje vivemos sob o signo do Medo e da Preguiça.


Ah, meus amigos, muito obrigado pela atenção de todos, tudo o que alguém como eu espera é uma platéia silenciosa e compenetrada como vocês e um espectador especial que lhe pague bebidas e petiscos, aqui eu encontrei tudo e talvez por isso eu volte. O Que? Como eu sei de toda essas histórias? Talvez eu não saiba de nada, não é? Pedi que me ouvissem, não que acreditassem em mim. Eu recebi o dom da palavra, só que me especializei em distribuir o dom da dúvida.

2 comentários:

  1. Isso ficou genial! Adoro ler sobre criações de mundos fictícias e essa foi uma das melhores que eu já li, cara. Isso precisa de molho, com certeza.

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