segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Outro ensaio sobre a mesma cegueira - um romance

Esse conto, é uma humilde e singela homenagem que eu fiz para o grande mestre dos mestre, José Saramago e seu livro "Ensaio sobre a cegueira".
Tentei manter o estilo utilizado pelo autor, é claro que não tem comparação com a obra original.. Mesmo assim eu gostei do resultado.

Espero que gostem :D

Outro ensaio sobre a mesma cegueira - um romance


            A notícia de que um homem havia cegado repentinamente, enquanto esperava um semáforo fechado próximo a um bairro de classe média, havia sido divulgada em um jornal sensacionalista de circulação respeitável. A notícia havia sido publicada sob o título de O stress agora cega, e tinha o intuito de questionar o governo que não tomava medidas para desafogar o transito, como alargamento das principais avenidas ou incentivos pela utilização de veículos alternativos como bicicletas. O cego ficou em segundo plano, servindo apenas como mais um motivo para que o governo pudesse receber críticas. Vale lembrar que o dono do referido jornal sensacionalista é um dos líderes da oposição ao governo. A população só começou a prestar atenção neste caso de súbita cegueira quando no noticiário televisivo noturno o bem apessoado ancora cuja voz melosa sempre soava como uma leve embriaguês anunciou que o Dr. Oftalmologista fulano de tal que atendera o primeiro cego também havia cegado, e, havia indícios de que esta cegueira batizada a partir deste momento por mal branco poderia ser altamente contagiosa.
            Chega de desgraças, e com um clique a televisão passou de uma reprodução de imagens coloridas que juntas formavam a fachada do consultório de oftalmologia do Dr. Não sei quem para um crescente negrume, a televisão cegara, não, a cegueira é branca e não negra. O operário de uma pequena fábrica têxtil cansado de ouvir o falatório pouco reconfortante do noticiário desligou seu aparelho televisor e deixou-se relaxar por uns instantes em sua poltrona até chegar àquele estágio em que a realidade e a imaginação vão se fundindo tanto que ele já se imaginava concretizando os planos que havia traçado para o dia seguinte. Se não me levantar não janto, estava só mas falou em voz alta, era a consciência o repreendendo por ter ficado no sofá até o lusco-fusco se render à escuridão total. O operário morava sozinho em um pequeno apartamento suburbano, um quarto que era uma sala, uma cozinha que também era uma lavanderia e um pequeno banheiro, tudo muito bem organizado por falta de pertences para serem espalhados, enquanto preparava a janta pensava que mesmo cego saberia aproveitar das riquezas daquele Dr. Não me lembro mais seu nome, e até mesmo daquele primeiro homem a cegar muito melhor do que eles com os dois olhos eram capazes. O operário não gostava de sua situação, não por ser um homem ambicioso, mas por saber que infelizmente naquele país de merda as pessoas davam muito mais valor ao que se tem do que ao que se é. E o que eu ganho em ser honesto se eu não consigo ao menos uma esposa enquanto aqueles safados tão podres e sem moral escolhem as mulheres que quiserem a dedo e ainda fazem orgias com inúmeras putas quando lhes apetece, Seu último pensamento rancoroso ficou pronto juntamente com a sua refeição, e de estomago cheio os ânimos mudam, Posso mal ter onde cair morto, mas a comida que eu faço dá de dez a zero na comida de qualquer um daqueles nojentos, E, sorrindo, de olhos fechados, pôs se a lavar a louça, tomar banho e preparar a cama, constatando que realmente sabia se virar mesmo sem os olhos.
            O operário acordou mais cedo do que o necessário, havia em seu prédio uma grande e muito incomum gritaria, vestiu-se enquanto tentava identificar o que estava sendo berrado, era um homem bem intencionado e pretendia intervir de forma a que nada viesse acabar mal, abriu a porta do corredor e pode distinguir nitidamente as seguintes palavras, Estou cega, estou cega, Compadeceu-se da pobre alma agonizante e apurando os ouvidos para identificar que rumo tomar, percebeu ser necessário subir, habituado ao formato dos degraus de seu prédio, podia transpor facilmente as escadarias pulando os degraus de dois em dois, foi o primeiro a chegar, a porta estava trancada e ele sem nem pensar em apertar o botão da campainha esmurrou a porta de número 31 violentamente. A voz havia parado de gritar e falava para si mesma com a voz entrecortada por soluços de choro, Eu não consigo, sozinha não consigo, O operário, com o mesmo ímpeto que havia esmurrado a porta arrebentou-a com um chute bem servido, digno de uma filmagem cinematográfica. A dona da casa berrou de pavor querendo saber quem havia entrado e os dois identificaram-se. A vizinha do 31 recomeçou a desesperar-se enquanto o operário tentava consolá-la, Fica bem, isso irá passar, tudo o que vem, vai, tudo o que sobe desce, se isto não cura sozinho a medicina há de curar, enquanto isso nós do prédio podemos te auxiliar. Aos poucos, a vizinha do 31 acalmou-se tentando conformar-se enquanto dizia, Mas se é contagio devo proceder informando a Saúde, Não, respondeu o operário, Se informa a Saúde te levam a quarentena como acredito que irão proceder com os outros que cegaram, deixa estar em seu apartamento que eu te ajudo, Mas se nem eu nem você chamarmos a Saúde algum vizinho irá chamar, É só eles não ficarem sabendo, Mas e todo o escândalo que fiz, Deixe que eu resolvo, primeiro deixe-me arrumar sua porta e depois vemos o resto, mas faça o que fizer, não saia. Enquanto dizia estas últimas palavras o operário já saía em direção às escadarias, e que espetáculo encontrou, o prédio parecia uma festa do pijama, todos vizinhos apinhados em suas portas querendo saber o que havia acontecido, e já fora do apartamento 31 pôs se a dizer para tranqüilizar todos, Foi só um pesadelo daqueles, o noticiário deve tê-la impressionado, Alguns vizinhos satisfeitos entraram logo que ouviram estas palavras, outros desconfiados deixaram-se ficar em seus batentes por mais alguns instantes, o operário ignorou-os e entrou em seu apartamento sem dizer mais nada. Procurou sua maleta de ferramentas, encontrou com muita facilidade em seus poucos pertences, e desinstalou o ferrolho de sua porta para instalá-lo no número 31, olhou no relógio e descobriu que havia perdido o coletivo da fábrica, neste dia não trabalharia.
            O governo, através de algumas chantagens, lembrando a grande mídia de alguns favores passados conseguiu evitar que a gravidade do mal branco fosse divulgada por esta, o que não significava que os jornais menores e principalmente os sensacionalistas, como é o caso do jornal do político da oposição estivessem colaborando para que a sociedade entrasse em pânico. O operário não sabia, mas estava certo. Naquela manhã, tanto o Dr. Sei lá das quantas como o primeiro a cegar e mais algumas pessoas já haviam sido levadas para a quarentena, e esta notícia podia ser divulgada pela mídia grande, claro que elogiando a organização e a rapidez com que o governo trabalhava para que o bem-estar de toda a comunidade prevalecesse. O ambiente utilizado pelo governo foi uma instalação governamental onde antigamente havia um manicômio, e, o jornal do nosso político da oposição aproveitou a deixa para vender a notícia, O governo nos cega e nos trata como loucos, Onde o repórter entrevistava um grande médico, que também era do partido da oposição, e este dizia que a cegueira não era contagiosa, mas sim resultado do grande caos em que a cidade havia se tornado a partir do ano tal, coincidentemente ano em que o atual governo havia sido eleito. Contagiosa ou não, por culpa do governo ou não, as pessoas continuavam cegando e sendo encarceradas por isso, aos olhos da população a cegueira havia se tornado crime, e no fim das contas a vizinha do 31 também estava certa, o melhor era os outros moradores do prédio não saberem.
            O operário preferiu instalar somente um ferrolho na remendada porta do 31, assim a sua moradora não correria o risco de perder as chaves e o ferrolho era muito mais fácil de abrir do que uma fechadura normal, ela foi instruída a manter a porta sempre trancada e só abrir para o operário. Nunca haviam conversado anteriormente, mas assim funcionam as coisas, quando caímos nem sempre a mão que nos ajuda erguer é aquela que esperávamos, inclusive, em alguns casos, é justamente a mão que esperávamos ver estendida a mão que nos aponta e ri. O operário era uma dádiva que a vizinha do 31 havia recebido, ela passou tão logo a confiar nele que lhe entregou cartão de banco e senha e pediu-lhe que retirasse o quanto fosse necessário para encher a casa de suprimentos para um mês, pois ela haveria de habituar-se como cega e não iria sair dali enquanto não estivesse segura de duas coisas, a primeira é de que não seria internada em um manicômio e a segunda é de que não se perderia ou morreria por aí. O operário aceitou a incumbência, mas, por mais que tentasse evitar que um pensamento passasse mesmo que de leve por sua cabeça, ele sentia este pensamento rondando, assoviou uma música, tentou lembrar-se da história de um filme que tinha assistido um dia destes, mas o pensamento estava ali, só esperando uma brecha. O caixa do banco era longe e o operário não tinha carro, iria a pé, Droga, disse em voz alta e com fúria, ele havia pensado o aquilo que tentava evitar, Por que ela confia em mim, eu poderia muito bem sumir com seu cartão e deixá-la ser levada para um manicômio, mas eu não vou fazer isso, se não vou, por que penso que vou, penso porque sou humano e como todos os humanos um sujo, eu não queria ser um sujo como estes tantos que estão no governo ou esperando uma chance para entrar nele, e por isso a vizinha deixou seu cartão em boas mãos, Mas operário não conseguia ficar sem se perguntar, Mas se essas mãos fossem boas mesmo elas teriam pensado em fugir com o dinheiro, o que faz um homem são as suas atitudes, seus pensamentos são só seus e não importam a mais ninguém, Havia vencido a disputa consigo mesmo bem quando se encontrava defronte ao caixa eletrônico, entrou, inseriu o cartão, digitou a senha e descobriu que seria impossível comprar comida para um mês, inclusive sentiu-se um imbecil por tudo o que havia pensado no caminho, Não haverá o suficiente para um mês, mas farei o possível para que haja para uma semana, E assim fez as compras e voltou para seu prédio.
            Quando dobrou a esquina para entrar em seu prédio pode avistar que havia uma ambulância parada bem em frente a ele, ficou imaginando se algum daqueles vizinhos desconfiados teria entrado em contato com a Saúde por medo de ser contagiado pela cegueira, e denunciado a vizinha do 31. Sem coragem de se aproximar e ser também levado para a quarentena para observação, pois afinal de contas havia passado boa parte da manhã na casa de uma infectada concertando sua porta, e pior ainda, havia mentido para todos os vizinhos que estava tudo bem. Não era ela, a vizinha estava a salvo, o cego era um homem de estatura mediana, gorducho e calvo, provavelmente o do último andar, o único apartamento duplo, e que por isso carregava um único número, 5, mas ele não era o único, atrás dele viam sua mulher e filha. Sentiu-se aliviado por sua amiga não ser uma das pessoas a entrar na ambulância, sentiu também satisfação por ter descoberto ser acertada sua afirmação da quarentena.
            Entregou as compras a vizinha do 31 e pensou se não seria bom munir-se de provisões caso a cegueira viesse a se abater sobre ele também, Claro que seria, mas não hoje, por hoje é aproveitar das vistas da melhor forma possível antes que estas me faltem. Assistindo a televisão não pode descobrir muita coisa sobre este mal branco, foi a banca de jornal e passou a ler de todos os tipos de jornal, desde o grande Commércio até as inúmeras Gazetas, O que tiver que ser será, Fechou os olhos e voltou tateando e tropeçando para seu apartamento, chegou a trombar com uma velha senhora que, assustada e com medo do contágio pôs se a correr da maneira que é possível uma velha senhora correr, e por mais que o operário gritasse avisando que ele não estava cego, que estivera só treinando, não havia o que a fizesse parar, e quando ela estava a uns cento e cinqüenta metros do operário e ele já começava a achar graça na situação aconteceu o inesperado. Um carro vindo da rua transversal andava na diagonal, e, justamente quando a senhora estava na esquina o carro subiu na calçada e atropelou-a, a cena foi grotesca, o operário olhava com olhos arregalados enquanto a velha senhora ainda agonizava, seu corpo em cima do carro, o carro cortado pelo poste até a altura do meio do capô e a velha senhora também cortada pelo poste até mais ou menos um palmo acima do umbigo. Para completar o quadro ouvia-se o berro desesperado do jovem motorista, Estou cego, Enquanto a também jovem passageira gritava histérica, Você a matou, agora é um assassino. O operário não sabia como proceder, sentia-se culpado por ter feito a velha senhora sair em disparada, mas sabia que se fosse prestar socorros para aquelas pessoas, para a agonizante e para os desesperados jovens, seria levado em quarentena, e ele podia não saber o que queria, mas fazia a mais completa idéia do que não queria, e ele não queria ser internado em um manicômio longe de sua casa, entrou, subiu o lance de escadas até seu apartamento, 22 e ligou para o corpo de bombeiros. Anoiteceu e ele não dormiu, ainda estava impressionado com a cena que havia visto aquela tarde. Nada sobre o fato no noticiário, e começou a achar que a televisão não seria mais a maneira mais adequada de saber o que se passava na cidade.
            No dia seguinte o operário estava pronto no horário, esperando o ônibus que já deveria ter passado a alguns minutos, e começou a pensar que naquele dia ele também não trabalharia, mas desta vez porque provavelmente o motorista cegara, Os donos da fábrica não devem estar nada felizes com esta situação, Pensou, Agora eles saberão o quanto dependem de nós operários, Sorriu de satisfação e finalmente foi fazer as suas compras para o caso de também vir a cegar.
            Novamente chegando ao prédio e lá estava uma ambulância, Se é mesmo contagioso, por que eu ainda vejo, Dizia estas palavras em voz alta enquanto observava que já havia algumas pessoas na ambulância, provavelmente retiradas das casas e prédios da vizinhança, mas quem do seu prédio sairia cego, será que agora seria realmente a vizinha do 31. Não era, era um velho com um tapa olho negro quem saia do prédio de minúsculos apartamentos para ser enfiado num manicômio, Será que ele ligou por socorro ou será que os vizinhos já tanto temem que estão a denunciar os cegos como estariam a denunciar os criminosos, Indignado entrou no prédio. Deixou as compras em seu apartamento e subiu em direção ao 31, queria saber se estava tudo bem e saber se a vizinha tinha ouvido alguma coisa sobre o caso do velho de tapa olho. Bateu na porta, após um breve instante ouviu o ranger de alguém trombando em uma cadeira, uma blasfêmia sussurrada, o ferrolho e a porta estava aberta, o operário cumprimentou a vizinha do 31 e a admirou por alguns instantes, ela estava descabelada, mas ela era bela, bela como todas as pessoas a quem sentimos afeto são, não de uma beleza libidinosa, mas sim de uma beleza radiante, Não vai entrar, Ela perguntou, Desculpe, estava te olhando, Não tem vergonha de olhar para quem não pode te olhar de volta, O operário sorriu, achando que aquela resposta já indicava uma melhora de humor de sua  vizinha quanto ao fato desta ter ficado cega, Não quer mais que eu te olhe, Não, Tudo bem, não vou mais te olhar, Estou brincando, não posso te impedir de me olhar, só peço que não seja indiscreto, Não vou mais te olhar mesmo que eu queira, ceguei.

Um comentário:

  1. E este foi o primeiro conto e até agora o meu favorito, não sei, é significativo. É simbólico pra caramba...

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