domingo, 3 de agosto de 2014

Porta-Retratos

A luz alaranjada do fim da tarde atravessava a janela e atingia-lhe o rosto, estava deitado no sofá quase imóvel, olhando para o vazio, sua mente vagava no passado. Quando o sol se pôs e a escuridão tomou conta do ambiente, se levantou, balançou a cabeça e esfregou os olhos como se tentasse despertar. Moveu-se lentamente por entre os móveis da sala, esbarrou na mesa de centro derrubando um porta-retratos, pegou-o, nele tinha a foto de dois velhos. Uma senhora de cabelos totalmente brancos, olhos escuros, sorriso sereno e ao lado dela, um senhor calvo, cabelos grisalhos, um tanto serio, com olhar dominante. Uma vaga lembrança retornou à sua mente, de como tinha sido desobediente e ter deixado o pior acontecer. Colocou o quadro de volta na mesa e se retirou do cómodo.
  Andando pelo corredor escuro virou na segunda porta à direita, e se acender as luzes passou a observar o quarto. As paredes eram pintadas de rosa, um guarda-roupa pink tomava a parede ao lado da porta por completo, alguns brinquedos jogados sobre o tapete branco que cobria todo o chão do quarto, uma cama arrumada com lençóis rosa bebê se encontrava encostada na parede do lado esquerdo do quarto, ao lado uma escrivaninha com mais retratos, se aproximou e passou a observá-los. Era uma garotinha de cabelos dourados, olhos azuis como o céu, estava sentada em um branco, sorrindo inocentemente. Mais memórias lhe voltou, de como tinha sido fraco e não ter conseguido protege-la quando foi necessário.
  Deixou o quarto e fechou a porta, entrou na porta a sua frente, estava no banheiro, Várias escovas estavam esquecidas dentro de uma caneca na pia. Passou a se olhar no espelho, um olhar de desprezo se formou em seu rosto ao ver aquela figura, com um ímpeto de raiva, destruiu o espelho com um soco, atravessando-o e atingindo a parede que se encontrava atrás.
  Saiu e fechou a porta, voltou até a sala e sentou-se novamente no sofá, sentiu um leve ardor em seu braço esquerdo, havia cortes provocados pelos estilhaços do espelho, ficou imóvel observando o sangue escorrer livremente por seu antebraço até a ponta dos dedos que pingava sobre o azulejo branco do piso.
  Levantou-se do sofá e se dirigiu à porta no final do corredor, um rastro vermelho o seguia deixado por seu braço que ainda escorria sangue livremente através dos cortes. Chegou até a aporta e abriu-a. Era outro quarto, havia um grande guarda-roupa de madeira de orvalho do lado esquerdo, uma cama de casal no centro do aposento, de cada lado haviam escrivaninhas, um pouco acima da cama de casal havia um grande quadro onde se podiam ver os donos daquele cómodo. Uma mulher de cabelos loiros e olhos negros, um grande sorriso cobria-lhe a boca com dentes tão brancos quanto o leite, abraçado a ela, um homem de cabelos castanhos e olhos verdes, uma barba rala por seu rosto, esboçava um sorriso tímido, estava com a mão sobre a barriga de sua esposa. Mais memórias, dessa vez de como tinha sido imprudente e não ter aberto os olhos para os problemas que estavam acontecendo.
  Lágrimas escorriam involuntariamente por sua face até a ponta do queixo que escorria por seu pescoço até encontrar a gola da camiseta, não as secou, deixou que escorressem livremente.
  Deixou o quarto e entrou na primeira porta à esquerda, mais um quarto. Não tinha nada de especial naquele aposento, um guarda-roupa fosco do lado direito e uma cama desarrumada no lado esquerdo do quarto, uma mesa abaixo da janela com livros espalhados por ela, ali não haviam fotos nem quadros, apenas uma estante abarrotada de livros onde se podiam observar alguns espaços vazios.

  Saiu do local, se moveu pela casa como um fantasma até a porta que levava para o jardim, estava tudo quieto, os vizinhos haviam se mudado há alguns dias. A lua brilhava única no céu, entre as flores se deitou e passou a observá-la, estava linda, radiante, não havia nada que ofuscasse sua beleza. Durante horas a fitou sem tirar os olhos por um minuto se quer, então adormeceu, num obscuro mar de angustia e sofrimento. A lua desaparecia enquanto o dia novamente amanhecia, mas não abriu os olhos, seu corpo permaneceu ali, no meio daquele jardim florido, que um dia fora seu lugar preferido em toda a casa.

Um comentário:

  1. É, rapaz.... Me prendeu, cara. Curti, mas não curti curtir. kkkkk Bacana, mano. Só tenta corrigir o fato de que quando existem 2 objetos, é haviam, não havia. exemplo:
    "ali não havia fotos nem quadros" seria haviam. ;)

    ResponderExcluir