sábado, 21 de junho de 2014

O menino sem vida e sua sombra distorcida


 Os passos pesados ecoavam na escadaria do pequeno prédio residencial. Por algum motivo, as luzes automáticas não se acendiam e a pessoa que subia as escadas também não parecia preocupada em iluminar seu caminho. A pessoa no escuro é um homem, mas não é sem cautela que podemos atribuir a condição de homem para esta pessoa. Este homem não consegue enxergar a si mesmo como tal, no seu íntimo é apenas um menino. Não um menino feliz, pronto para mil atos de travessura. É o menino que se perdeu da mãe na multidão.
Independentemente da ressalva mental, esse homem que atinge o segundo andar e segue para mais um lance de escadas, sem evidente motivação para alcançar seu objetivo, é um homem interessante. Alto, mais de um metro e oitenta, ombros largos e bem apessoado, apesar de nunca ter realizado trabalhos braçais profissionalmente, tem as mãos fortes e seguras. Seu rosto é quadrado e sombreado por uma calculada barba por fazer, o cabelo curto é penteado de lado. Os olhos negros, agora opacos e abatidos, geralmente eram profundos como túneis.
No terceiro patamar, o menino/homem chamado Pedro caminha em direção à porta de seu apartamento. Fica alguns instantes parado em frente à porta fechada, ombros encurvados e cabeça baixa, sem olhar o que faz, enfia a mão em um dos bolsos e vasculha até encontrar a chave. É com um suspiro dolorido que Pedro gira a chave e penetra no apartamento vazio.
Mesmo com as luzes apagadas, a luz da rua que entra pelas vidraças mostra um apartamento desinteressante. Paredes brancas e inteiramente nuas, um sofá marrom de dois lugares, um rack, também marrom, com uma televisão e um telefone. Nenhum enfeite, nenhuma decoração, nada fora do lugar. Pedro atravessa a sala em direção à cozinha, que segue o mesmo padrão prático da sala. Com as costas da mão, enxuga gotas de suor que brotam em sua testa, abre uma das gavetas do gabinete da cozinha e pega uma faca de corte, daquelas utilizadas para cortar laranja. É com uma expressão sombria que seus olhos opacos admiram a lâmina por alguns instantes.
Sem nenhuma pressa, Pedro atravessa a casa em direção ao quarto onde finalmente acende a primeira luz da casa, a de um abajur que espalha sombras fantasmagóricas e distorcidas por todo o quarto. Pedro senta em sua cama perfeitamente arrumada e passa o dedo pelo gume da faca de descascar laranjas.
Dúvidas, incertezas e desespero. Sua alma e seu coração foram rasgados em três pedaços, três mulheres, seu passado, seu presente e seu futuro.
 Júlia, seu passado; com quem dividiu o apartamento durante anos; com quem viveu tantos momentos felizes; que o abandonou, não sem motivos. Júlia, passado, impossível reviver e impossível viver sem.
 Alice, seu presente; que apareceu em sua vida quando a dor do passado parecia insuportável; que é capaz de transformar cada momento em uma dádiva; mas que Pedro não consegue se entregar e muito menos se afastar. Alice, presente, impossível se prender a ele, impossível se afastar dele.
Marcela, seu futuro; que trouxe a vontade de arriscar e trocar o certo pelo incerto; que como um enigma estimula a curiosidade sem dar nenhuma indicação clara de sua resposta; que faz Pedro querer arriscar tudo sem ao menos um sinal de esperança. Marcela, futuro, imprevisível e inexorável.

Passado, presente e futuro dilaceravam o coração de Pedro naquela noite, deixando sua alma fragmentada na mais pura agonia, tornando o gume da faca tão atrativo que um brilho começou a se refletir nos olhos, até pouco, opacos do menino/homem. E sem pensar, com um sorriso selvagem no rosto, Pedro se levantou da cama com uma determinação doentia, empunhou a faca de maneira a encostar o gume da faca em seu punho esquerdo e com toda a força que dominava seu corpo naquele instante, rasgou a pele e abriu suas veias em cinco cortes diagonais consecutivos. Sentiu o sangue se esvair e o coração acelerar. Caiu de quatro e sentiu sua mão se apoiar no chão viscoso de sangue.
A dor da vida se esvaindo superou a dor da alma dilacerada e Pedro sentiu-se bem. Estranhamente, naqueles momentos finais, parecia que sua mente queria pensar com mais clareza, olhou para os lados, curioso, procurando algo, nada em específico, encontrou sua sombra distorcida pelo abajur. Os braços e pernas distorcidos, finos e cumpridos projetavam-se por todo o chão do quarto, terminando em um pequeno tronco, que não parecia humano, mas sim o tronco de um animal. Pedro riu ao ver sua sombra distorcida e pensou em Dr. Jekyl e Mr. Hyde unidos um ao outro. Passou a fazer movimentos e percebeu que quando tirava suas mãos do chão elas automaticamente se encurtavam e ficavam proporcionais ao tronco. Quando deu por si, sua risada ecoava por toda a casa.
Sentiu-se subitamente fraco e desabou no chão. Assustado, Pedro olhou para seu braço talhado e lembrou-se do que havia feito. Seu rosto contorceu-se em agonia e lágrimas escorreram de seus olhos. Esticou o braço direito e conseguiu puxar para si a coberta de sua cama. Sentia suas pernas ficarem rígidas e frias. Começou a enrolar, inutilmente, a coberta em seu braço, só para perceber que ela encharcava em sangue. Seu braço perdeu a força.
Enquanto o brilho recém conquistado de seus olhos se perdia, sua boca se mexia, sem emitir som algum, mas formando claramente as seguintes palavras:

- Por favor, não, eu quero viver. 

2 comentários:

  1. Já tinha lido esse conto no seu blog. Havia gostado e continuo gostando dele.
    :) O Pedro me lmbra outros personagens seus, nao sei pq. Pra falar vdd, e bem tipico você fazer esses tipos de contos que parecem uma "poesia em prosa".

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  2. Seu comentário fez uma puta cócega no meu ego.

    Obrigado, maninho!

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