Os passos pesados ecoavam na escadaria do
pequeno prédio residencial. Por algum motivo, as luzes automáticas não se
acendiam e a pessoa que subia as escadas também não parecia preocupada em
iluminar seu caminho. A pessoa no escuro é um homem, mas não é sem cautela que
podemos atribuir a condição de homem para esta pessoa. Este homem não consegue
enxergar a si mesmo como tal, no seu íntimo é apenas um menino. Não um menino
feliz, pronto para mil atos de travessura. É o menino que se perdeu da mãe na
multidão.
Independentemente
da ressalva mental, esse homem que atinge o segundo andar e segue para mais um
lance de escadas, sem evidente motivação para alcançar seu objetivo, é um homem
interessante. Alto, mais de um metro e oitenta, ombros largos e bem apessoado,
apesar de nunca ter realizado trabalhos braçais profissionalmente, tem as mãos
fortes e seguras. Seu rosto é quadrado e sombreado por uma calculada barba por
fazer, o cabelo curto é penteado de lado. Os olhos negros, agora opacos e
abatidos, geralmente eram profundos como túneis.
No
terceiro patamar, o menino/homem chamado Pedro caminha em direção à porta de
seu apartamento. Fica alguns instantes parado em frente à porta fechada, ombros
encurvados e cabeça baixa, sem olhar o que faz, enfia a mão em um dos bolsos e
vasculha até encontrar a chave. É com um suspiro dolorido que Pedro gira a
chave e penetra no apartamento vazio.
Mesmo
com as luzes apagadas, a luz da rua que entra pelas vidraças mostra um
apartamento desinteressante. Paredes brancas e inteiramente nuas, um sofá
marrom de dois lugares, um rack, também marrom, com uma televisão e um
telefone. Nenhum enfeite, nenhuma decoração, nada fora do lugar. Pedro
atravessa a sala em direção à cozinha, que segue o mesmo padrão prático da
sala. Com as costas da mão, enxuga gotas de suor que brotam em sua testa, abre
uma das gavetas do gabinete da cozinha e pega uma faca de corte, daquelas
utilizadas para cortar laranja. É com uma expressão sombria que seus olhos opacos
admiram a lâmina por alguns instantes.
Sem
nenhuma pressa, Pedro atravessa a casa em direção ao quarto onde finalmente
acende a primeira luz da casa, a de um abajur que espalha sombras
fantasmagóricas e distorcidas por todo o quarto. Pedro senta em sua cama
perfeitamente arrumada e passa o dedo pelo gume da faca de descascar laranjas.
Dúvidas,
incertezas e desespero. Sua alma e seu coração foram rasgados em três pedaços,
três mulheres, seu passado, seu presente e seu futuro.
Júlia, seu passado; com quem dividiu o
apartamento durante anos; com quem viveu tantos momentos felizes; que o
abandonou, não sem motivos. Júlia, passado, impossível reviver e impossível
viver sem.
Alice, seu presente; que apareceu em sua vida
quando a dor do passado parecia insuportável; que é capaz de transformar cada
momento em uma dádiva; mas que Pedro não consegue se entregar e muito menos se
afastar. Alice, presente, impossível se prender a ele, impossível se afastar
dele.
Marcela,
seu futuro; que trouxe a vontade de arriscar e trocar o certo pelo incerto; que
como um enigma estimula a curiosidade sem dar nenhuma indicação clara de sua
resposta; que faz Pedro querer arriscar tudo sem ao menos um sinal de
esperança. Marcela, futuro, imprevisível e inexorável.
Passado,
presente e futuro dilaceravam o coração de Pedro naquela noite, deixando sua
alma fragmentada na mais pura agonia, tornando o gume da faca tão atrativo que
um brilho começou a se refletir nos olhos, até pouco, opacos do menino/homem. E
sem pensar, com um sorriso selvagem no rosto, Pedro se levantou da cama com uma
determinação doentia, empunhou a faca de maneira a encostar o gume da faca em
seu punho esquerdo e com toda a força que dominava seu corpo naquele instante,
rasgou a pele e abriu suas veias em cinco cortes diagonais consecutivos. Sentiu
o sangue se esvair e o coração acelerar. Caiu de quatro e sentiu sua mão se
apoiar no chão viscoso de sangue.
A
dor da vida se esvaindo superou a dor da alma dilacerada e Pedro sentiu-se bem.
Estranhamente, naqueles momentos finais, parecia que sua mente queria pensar
com mais clareza, olhou para os lados, curioso, procurando algo, nada em
específico, encontrou sua sombra distorcida pelo abajur. Os braços e pernas
distorcidos, finos e cumpridos projetavam-se por todo o chão do quarto,
terminando em um pequeno tronco, que não parecia humano, mas sim o tronco de um
animal. Pedro riu ao ver sua sombra distorcida e pensou em Dr. Jekyl e Mr. Hyde
unidos um ao outro. Passou a fazer movimentos e percebeu que quando tirava suas
mãos do chão elas automaticamente se encurtavam e ficavam proporcionais ao
tronco. Quando deu por si, sua risada ecoava por toda a casa.
Sentiu-se
subitamente fraco e desabou no chão. Assustado, Pedro olhou para seu braço
talhado e lembrou-se do que havia feito. Seu rosto contorceu-se em agonia e
lágrimas escorreram de seus olhos. Esticou o braço direito e conseguiu puxar
para si a coberta de sua cama. Sentia suas pernas ficarem rígidas e frias.
Começou a enrolar, inutilmente, a coberta em seu braço, só para perceber que
ela encharcava em sangue. Seu braço perdeu a força.
Enquanto
o brilho recém conquistado de seus olhos se perdia, sua boca se mexia, sem
emitir som algum, mas formando claramente as seguintes palavras:
Já tinha lido esse conto no seu blog. Havia gostado e continuo gostando dele.
ResponderExcluir:) O Pedro me lmbra outros personagens seus, nao sei pq. Pra falar vdd, e bem tipico você fazer esses tipos de contos que parecem uma "poesia em prosa".
Seu comentário fez uma puta cócega no meu ego.
ResponderExcluirObrigado, maninho!